Como lidar com a criança difícil?

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Este é o último artigo da série de três que publiquei aqui no blog sobre o tema da obediência. Nos artigos anteriores, defini o que é obediência, mostrei a importância de cultivar esse hábito em nossos filhos, e detalhei as condições relacionais que o tornam possível. Aqui, vou tratar da questão derradeira, que resume o maior desafio de quem educa: como conquistar a obediência da criança preservando a sua individualidade?

Para começar, quero destacar dois pontos que considero cruciais. Em primeiro lugar, nada é mais importante em educação do que a Regra de Ouro: trate seu filho do modo como você gosta de ser tratado. Respeite-o como pessoa. Em segundo lugar, e não menos importante: jamais permita que seu filho desrespeite você. Nenhuma expressão de desrespeito deve passar em branco.

Isso não é fácil, eu sei. A educação doméstica é tão carregada de interações que seria realmente um milagre se conseguíssemos ter o controle pleno da situação o tempo todo. A criança oferece, naturalmente, resistência à autoridade dos pais, e isso vale até para as mais cordatas. O impulso de oposição é um instinto natural, um treino de individualidade, que começa a se fazer notar de maneira mais evidente a partir dos dois anos de idade. Lidar com essa oposição pode ser muito desgastante em alguns momentos, mas não tem jeito. A criança precisa ser educada, ela precisa ser levada a desenvolver suas qualidades e controlar os seus defeitos, de modo que possa conviver bem e elevar-se na direção do que é bom e justo.

Mas como orientar nossos filhos sem exigir que eles deixem de ser eles próprios, exigência que, por sinal, estaria fadada ao fracasso e que só produziria consequências danosas? O primeiro passo para uma atuação educacional que respeite a pessoa da criança é o conhecimento e a compreensão de suas necessidades mais íntimas e de suas disposições mais fundamentais. Sem esse conhecimento não é possível prever as suas reações e levá-las em consideração em nossa prática educativa. Ele é a chave que nos permite afirmar a nossa autoridade sem recorrer a expedientes que envolvam desrespeito, violência e humilhação ou que exacerbem os conflitos ao invés de resolvê-los.

Em primeiro lugar, é preciso levar em conta que existem crianças naturalmente mais opositoras que outras. Algumas relutam tanto em ceder que podemos dizer que, para elas, “existir” quase se confunde com “resistir”. O impulso opositor é um traço estruturante da disposição existencial de algumas pessoas, e isso se revela desde cedo. Há crianças que precisam estar o tempo todo se expandindo, se fazendo notar por sua capacidade de se impor. Elas trazem consigo, desde o berço, um forte ímpeto de afetar o mundo. No que se refere à colocação de limites, essas crianças são sempre mais difíceis de se lidar.

Há crianças, por outro lado, que não têm necessidade de se colocar o tempo todo, de expressar dramaticamente a sua individualidade, de disputar o poder com os outros, e muito menos com os pais. Elas não os confrontam, porque a capacidade de colher as impressões e absorver as orientações dos adultos está perfeitamente integrada à sua própria disposição existencial. E entre esses dois tipos, digamos, extremos, há uma infinidade de formas pessoais de lidar com os limites impostos pela realidade. Digo “infinidade” porque – não devemos esquecer – cada criança é uma configuração em si mesma.

Porém, é sempre bom lembrar que o comportamento opositor pode se formar mesmo nas crianças mais cordatas, como decorrência de circunstâncias imediatas ou mais amplas da vida. A criança pode se tornar mais resistente à ação educativa dos pais por uma série de fatores: uma relação insegura de apego, ciúmes de um irmão, ansiedade decorrente de um ambiente doméstico permanentemente desarmônico ou de uma experiência traumática, conflitos na escola, sedentarismo excessivo, etc. O estresse físico também é um gatilho muito frequente do comportamento opositor, principalmente em crianças pequenas. A criança mais fácil pode se tornar impossível simplesmente porque está com dor, sono,  fome. Por tudo isso, antes de concluir que uma criança seja “difícil” por natureza, é preciso eliminar a possibilidade de que o seu comportamento esteja sendo influenciado por fatores externos.

Se, mesmo com essa análise das circunstâncias, você identifica o impulso opositor como um aspecto da disposicão pessoal de seu filho, a única coisa inteligente a fazer é lidar com esse fato como um dado da realidade. Foi confiada aos seus cuidados uma criatura enérgica que gosta de exercer poder. Aceite o seu filho como ele é. Não o rotule, não o defina em termos depreciativos. O impulso e a capacidade de se impor não são características intrinsecamente negativas. Ao contrário, se usadas em prol de boas causas e valores, tornam-se recursos valiosos e admiráveis. Sua meta deve ser a de levar o seu filho ao melhor de si mesmo, de ajudá-lo a conduzir o seu ímpeto de dominar a um equilíbrio virtuoso, e não a de transformá-lo em outra pessoa. E isso depende de você conseguir exercer a sua autoridade sem criar uma escalada de conflitos.

A tarefa de educar a criança opositora deve ser encarada menos como um desafio e mais como uma arte. Você precisará mobilizar as suas melhores técnicas e qualidades: paciência, empatia, persistência, foco, imaginação. Fique tranquilo. Satisfeitas as necessidades normais de apego e cuidado da criança, o caráter opositor pode se tornar perfeitamente contornável, transformando-se, com o tempo, apenas em um modo particular e pessoal de reação ao imperativo de obedecer aos pais. Por outras palavras, a criança eminentemente opositora sempre testará os limites da obediência, mas, se ela for bem atendida em suas necessidades e bem conduzida, encontrará nos pais uma referência de segurança e autoridade. Aos poucos ela vai aprender a se controlar e ficará confortável com isso.

Uma maneira de lidar com a oposição da criança sem correr o risco de asfixiar a sua individualidade é priorizar aquilo que para você é essencial, dando ao acessório o lugar menor que lhe cabe. Esse discernimento é crucial para evitar que a relação seja desgastada com inflexibilidades desnecessárias. Princípios, valores e regras que sejam inegociáveis para você devem ser apresentados ao seu filho como tal. Todo o resto, aquilo que é secundário, pode ser acomodado de acordo com as circunstâncias do momento e as características da criança. Será mesmo tão imprescindível comer aquele legume pelo qual ela sempre manifestou repulsa? Vale a pena começar uma briga por causa de uma pequena mancha de tinta na colcha? Por que não evitar situações que podem ser evitadas e às quais, você já sabe, seu filho oferecerá resistência?

Refletir sobre a sua hierarquia de valores na educação é absolutamente imprescindível. Mas é preciso também estar atento a uma série de fatores que podem tornar momentaneamente confusa a nossa percepção da diferença entre o que é essencial e o que é acessório. Dentre os mais frequentes, eu destacaria os estados emocionais conturbados, o cansaço intenso, e a pressão exercida pelo olhar de terceiros. Ninguém está livre dessas armadilhas, e neutralizá-las é sempre mais fácil se estivermos conscientes delas. Educar requer um constante exercício de autoconsciência, além de uma boa dose de independência em relação à aprovação alheia. Procure não agir por impulso, cultive o autocontrole e o senso de prioridade, faça um esforço para não dar à criança ordens e direções que você não esteja realmente convencido de que precisam ser inevitavelmente cumpridas ou de que ela é de fato capaz de cumprir. O seu compromisso é com o seu filho e não com a opinião dos outros. Só você pode saber o melhor modo de lidar com ele e colocá-lo no caminho da virtude.

O trabalho de educar requer uma boa dose de inteligência e serenidade. Não há manual que possa abarcar toda a complexidade da tarefa de elevar uma criança aos seus patamares mais altos. Cada pessoa é um ser único, insubstituível, e ninguém veio ao mundo para ser modificado em sua essência. As crianças estão aqui para ser acolhidas, protegidas, ensinadas e orientadas a desenvolver suas melhores inclinações. E é nesse sentido que a nossa ação educativa se reveste de um grande valor. Não devemos hesitar: temperada pela razão e pela empatia, a autoridade dos pais é uma riqueza para a criança.

 

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Imagem: 

“In Disgrace”, Charles Burton Barber (1845-1894) (detalhe).

 

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Como conquistar a obediência de seu filho?

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No artigo anterior, falei da importância da obediência, argumentando que um filho obediente estará sempre mais protegido do risco de se desviar do caminho desejado pelos pais. Agora, como prometi, vou tratar das condições que tornam possível a formação desse hábito na criança. E, para tanto, começo por explicar o que entendo exatamente, aqui, por “obediência”.

Na medida em que estabelecemos que o sentido da obediência filial está em seu papel formativo e protetor, fica evidente que não devemos esperar da criança o mesmo tipo de obediência que esperamos, por exemplo, de um soldado. Quando tratamos de educação doméstica, o hábito da obediência não deve ser confundido com a simples prontidão condicionada para cumprir ordens. Se a criança cumpre ordens apenas porque está com medo de ser castigada ou abandonada, ou porque espera ganhar uma recompensa, não se pode dizer, realmente, que se trate de uma criança obediente. Nada garante que ela continue a obedecer quando se vir livre das ameaças de punição ou das expectativas de prêmio.

Não estou, de modo algum, minimizando o valor do respeito filial. E é precisamente por isso que eu insisto em definir a obediência menos como um comportamento objetivo, que pode ser condicionado por gatilhos voláteis e superficiais, e mais como uma disposição moral integrada à própria subjetividade da criança, à forma como ela percebe o mundo e a sua posição na estrutura familiar. Nesse sentido, a criança pode ser dita de fato obediente quando segue, livre e espontaneamente, a orientação que recebe em casa, porque entende que esse é o modo mais correto e natural de agir. É somente assim que o hábito da obediência pode exercer uma função formativa e protetora.

Um dos fatores mais relevantes para a construção da obediência espontânea é a percepção, por parte da criança, da legitimidade da autoridade parental. A criança obedece na medida em que percebe os pais não só como fonte de cuidado, mas também como referências de comportamento e direção. E aqui chegamos então à questão crucial: quais seriam as condições que propiciam a formação dessa percepção?

O sucesso da educação doméstica, depende, primordialmente, da qualidade da relação da criança com os pais. Essa relação deve ser sólida, positiva, baseada, pelo lado da criança, no sentimento de segurança e proteção que dá origem ao que se chama, em psicologia, de “apego seguro”. Aos poucos, na medida em que a criança percebe que as ações educativas dos pais são, na verdade, expressões de atenção e cuidado, a criança vai se tornando capaz de intuir a relação entre obediência, de um lado, segurança e proteção, de outro.

Em artigos anteriores, tratei de como a relação de apego se desenvolve ao longo dos primeiros quatro anos de idade. (Para relembrar, veja, aqui, aqui e aqui, de preferência nessa ordem). Mas não é preciso esperar até que o apego esteja consolidado para estimular, na criança, o hábito da obediência. Ele pode e deve ser ensinado desde o segundo ano de vida, por meio da direção paciente e positiva. Para isso, basta que os pais estejam eles próprios seguros para tomar decisões sobre o bem-estar e a rotina do filho, bem como para orientar o seu comportamento. Se os próprios pais souberem enxergar a sua autoridade como algo benéfico e natural, a criança também vai percebê-la desse modo.

É importante, porém, que as expectativas em relação à obediência espontânea sejam proporcionais à idade. Em geral, os frutos de uma boa educação não serão colhidos antes dos seis anos, quando a criança já terá conquistado certas habilidades emocionais e cognitivas que facilitam o autocontrole dos impulsos, como, por exemplo, a capacidade de se colocar no lugar dos outros, de hierarquizar e manejar emoções contraditórias, de prever as consequências de seus atos. É preciso ter cuidado com as expectativas irreais. Enquanto a natureza não fizer todo o seu trabalho, os pais devem estar sempre atentos à necessidade de direcionar o comportamento da criança, orientando-a de maneira firme, porém gentil, sem repreendê-la com muita severidade. O importante é que ela seja conduzida na direção do que é bom e verdadeiro. Comportamentos inadequados não devem ser tolerados, mas não podemos perder de vista o fato de que a criança ainda está aprendendo a estar socialmente no mundo.

Em suma, a base afetiva segura é condição necessária para o exercício da autoridade parental genuína, cuja contrapartida é a obediência espontânea. Porém, para que ambas, autoridade e obediência, possam se efetivar, uma segunda condição ainda deve ser preenchida. Os próprios pais precisam estar seguros da legitimidade de sua posição de comando. No passado, a autoridade parental era um dado inquestionável. Hoje em dia, ela precisa ser conquistada numa batalha árdua contra uma série de obstáculos culturais.

Tenho falado aqui no blog sobre as dificuldades de educar nossas crianças num ambiente cultural que valoriza exageradamente a espontaneidade e a impulsividade, e autoriza ideias estapafúrdias como a de que os pais não têm muito a ensinar aos filhos, ou de que a criança deve ser deixada livre para fazer as suas escolhas de vida. Imaginar que a criança é capaz, por si mesma, de fazer escolhas de vida, é um enorme disparate. Escolhas de vida são feitas (ou deveriam sê-lo) a partir de princípios e critérios, e estes se formam ao longo do processo de educação. Ora, como pode então uma criança fazer escolhas de vida se ainda não formou critérios? E como podem os pais ajudar as crianças a formar critérios se a sua própria autoridade é deslegitimada? Quando os pais abrem mão do papel de orientadores, eles estão, simplesmente, passando a bola para terceiros.

Tenha sempre em mente que o exercício de uma autoridade parental temperada pela razão e pela empatia é o melhor presente que você pode dar ao seu filho. Nos primeiros anos de vida, as crianças aprendem principalmente por imitação, e costumam tomar por modelo os adultos, bem como outras crianças, que têm mais facilidade de se impor, de se fazer ouvir, de afirmar a sua perspectiva. Quando os pais não assumem com segurança o seu papel de orientadores, e não tomam para si a direção da educação dos filhos, é muito provável que estes fiquem mais suscetíveis a influências externas ao ambiente doméstico.

Mas veja bem. Quando eu afirmo que você deve exercer a sua autoridade parental sem receios ou hesitações, não estou insinuando que essa seja uma tarefa fácil. Além dos obstáculos culturais de que já falei, há que se contar, também, com a oposição da criança. A oposição é um instinto natural, um treino da individualidade. Cabe a nós, adultos, entendê-la como parte do processo e contorná-la de modo que no final das contas a situação não fuja do nosso controle.

O maior desafio da educação doméstica é levar a criança a internalizar princípios e regras sem violentar a essência de sua individualidade. Mas, como fazê-lo? Esse será o tema do próximo artigo, que fechará a série de três sobre o hábito da obediência. Falaremos de crianças fáceis e de crianças difíceis, de diálogo, prêmio e punição. E de como você pode criar estratégias para lidar com o seu filho do jeito que ele é, sem renunciar à sua própria autoridade. Não perca.

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Imagem: 

Émile Meunier ((1840 – 1895), “Portrait of a mother and daughter”.

 

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Para quem cresceu em uma cultura educacional como a nossa, na qual o desejo tem precedência não só sobre a responsabilidade individual, mas também sobre a própria realidade do mundo, pode parecer contra intuitiva a ideia de que as crianças devem obedecer a seus pais. Aliás, em nossos dias, a palavra “obediência” parece até mesmo soar mal.

Se prestarmos atenção, veremos que o verbo “obedecer” foi praticamente banido dos textos e conversas educacionais da classe falante, tendo sido substituído (mas apenas quando estritamente necessário), por eufemismos vagos, genéricos e superficiais como “aceitar limites”. Hoje em dia, não é de bom tom dizer a uma criança: “você tem que me obedecer”. O problema é o mesmo de sempre. Não importam as crianças reais, e as realidades que impactam o seu futuro. Importam somente as ideias inconsequentes que vão sendo cultivadas na bolha existencial moderninha e progressista.

Parece exagero? Outro dia passou na minha timeline do Face Book a seguinte frase: ”O verdadeiro educador é aquele que ajuda a pensar e não aquele que ensina a obedecer.” Analise essa frase. Desde quando obedecer é o oposto de pensar? Não obstante a falta de sentido, a frase tinha centenas de curtidas! As pessoas que a curtiram certamente não se deram ao trabalho de refletir sobre as implicações concretas dessa formulação quando aplicada como princípio educacional. Eu gostaria de fazer a cada uma delas a seguinte pergunta: como é possível proteger e orientar um filho que não obedece?

Imagine, por exemplo, um adolescente que vive com sua dedicada família em uma comunidade tomada pelo tráfico de drogas. Por mais presentes e cuidadosos que sejam, seus pais não podem evitar que ele se depare, cotidianamente, com uma enorme quantidade de modelos negativos, e tampouco que viva uma série de experiências cotidianas que o colocam em situação de vulnerabilidade. Alguém duvida que esse jovem estará relativamente mais protegido se for capaz de seguir as orientações dos pais, de ouvir os seus conselhos, enfim, se tiver formado, ao longo da infância, o hábito de obedecê-los? Ou será que os curtidores da frase nonsense diriam que é melhor deixar que esse adolescente se guie por seus próprios critérios, e tome as suas próprias decisões? 

Escolhi ilustrar o meu ponto com essa situação extrema para que não restem dúvidas de que ideias aparentemente libertárias podem ter consequências trágicas. A verdade é que, na vida real, no mundo real, nada pode proteger mais uma criança do que ter em seus próprios pais uma referência e um guia de como se conduzir num mundo que ela ainda não experimentou e que mal pode compreender. Muitas vezes, os próprios desejos da criança a conduzem na direção de situações cujo risco ela ainda não tem recursos cognitivos para avaliar. E é nessas situações, em que o impulso infantil colide com a orientação dos pais, que a obediência se torna tão importante. Pais que investem o seu tempo e a sua energia para formar em seus filhos o hábito da obediência dão, portanto, uma demonstração inequívoca de atenção e de cuidado.

Alguém poderia argumentar que nem todos os pais se preocupam genuinamente com o bem-estar de seus filhos. E essa é uma verdade inegável. Desde que o mundo é mundo, existem pais irresponsáveis, egoístas e até mesmo perversos. Porém, independentemente da qualificação que daremos a esses pais, não é a eles que eu me dirijo aqui. Esses pais, muito provavelmente, não seguem o meu blog.  Estou falando com aqueles que assumem a sua responsabilidade, que tentam com todas as suas forças fazer o melhor pelos filhos, mas que, com alguma frequência, tornam-se confusos em relação à legitimidade de sua própria autoridade. O meu recado é para você, que está dedicando parte do seu tempo para ler este artigo. Seu filho precisa de sua proteção e orientação. E você só conseguirá orientá-lo, se ele for capaz de lhe obedecer.

A relação entre obediência e proteção não costuma ser questionada quando se trata da segurança física da criança. Ninguém permitirá que o filho de três anos atravesse a rua sozinho, ou viaje de carro sem cinto de segurança, por pior que seja a birra. Ora, quando se trata de orientação para a vida, a equação não é diferente. A criança que não obedece torna-se mais vulnerável a outras influências sobre as quais, com o passar do tempo, os pais terão cada vez menos controle, como a dos amigos, da mídia, dos professores. No livro Hold On To Your Kids (2004), o psicólogo canadense Gordon Neufeld discute o problema muito atual da influência crescente e nociva do grupo de pares (i. e, dos colegas de mesma idade) sobre o comportamento e a visão de mundo dos jovens contemporâneos. Nunca houve, em nenhuma época, situação semelhante. Os jovens atuais, em geral, seguem a orientação do grupo de pares mais do que a de seus pais, e este fenômeno é estimulado, em ampla medida, pela omissão desses últimos.

Em parte porque se sentem confusos em relação à sua própria autoridade, em parte porque não são capazes de assumir a parentalidade com todos os sacrifícios que ela envolve, o fato é que uma boa parte dos pais, hoje em dia, delega a terceiros tarefas que são suas. Isso se traduz, por exemplo, na expectativa de que a escola ajuste o comportamento dos filhos. E também na criação de rotinas cotidianas que estimulam uma dependência excessiva da criança em relação aos coleguinhas, que passam assim a representar referências para a formação da auto-imagem, e a ditar padrões de consumo e comportamento social.

Enquanto os coleguinhas são crianças e temos um controle relativo sobre as circunstâncias dessas interações, tudo pode correr razoavelmente bem. Mas a médio e longo prazo, quando nossos filhos entram na escola de ensino fundamental e depois na universidade, como garantir a nossa proteção se a influência dos amigos for maior que a nossa? Como lembra N. Gordon, a diferença fundamental entre a relação com os pais e a relação com os pares é que o prestígio junto aos pares precisa ser permanentemente reafirmado pelo mimetismo e pela submissão às expectativas alheias, ao passo que o amor dos pais é incondicional. E é por isso que só nós estamos em condições de proteger verdadeiramente os nossos filhos.

Dizer que é importante criar filhos obedientes não significa de modo algum que isso seja tarefa fácil. No próximo artigo, vou discutir as condições que possibilitam tanto o exercício da autoridade paterna quanto a formação do hábito da obediência nas crianças, e mostrar que é possível – embora, como eu disse, não seja fácil – levá-los a nos obedecer sem desrespeitar a sua individualidade. Ao contrário do que pensa o autor da frase infeliz que passou na minha timeline, a obediência não torna a criança incapaz de pensar por si própria. Muito pelo contrário. É justamente a proteção que resulta da obediência que permitirá à criança desenvolver, em segurança e no tempo apropriado, todas as suas tendências e capacidades pessoais. É o breve período de vida que ela passa no ninho, sob os cuidados e a influência dos pais, que lhe possibilitará tornar-se uma pessoa independente e autônoma.

Isso é exatamente o contrário do que acontece com as crianças e os jovens guiados por influências externas à família, em que a orientação não se dá no compasso do amor incondicional. Perdidos num ambiente de múltiplas referências e ao acaso de relacionamentos com pessoas que nem sempre querem o seu bem, eles se tornam afetivamente dependentes da opinião alheia. Incapazes de formar seus próprios critérios e juízos, seguem o comportamento da manada. Passam a vida repetindo ideias alheias como se fossem suas, e nunca se tornam plenamente capazes de assumir a responsabilidade por seus próprios atos.

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Imagem: Émile Munier (1840-1895), “Pardon, mama”.

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A menos que você pratique ou seja familiarizado com o homeschooling, provavelmente jamais ouviu falar na escritora britânica Charlotte Mason, que viveu entre os anos 1842 e 1923. Além de ter se dedicado ao tema da orientação moral das crianças, C. Mason formulou um currículo e um método completo de educação acadêmica domiciliar. Com um estilo de escrita leve e cativante, ela alterna reflexões conceituais com descrições vívidas de situações do cotidiano infantil e doméstico. Infelizmente, a repercussão do trabalho dessa notável educadora é praticamente nula no campo da pedagogia brasileira, por razões que ficarão claras ao longo deste artigo.

Minha intenção aqui é chamar atenção para uma das noções mais importantes dentre as formuladas por C. Mason, e sobre a qual se ergue, a meu ver, a sua própria visão de educação: a noção de hábito. Para ela, a orientação firme e incansável da criança no sentido do desenvolvimento de bons hábitos seria o meio mais consistente e eficaz para ajudá-la a transcender a sua própria natureza e desenvolver as suas melhores possibilidades existenciais da forma mais elevada possível.

Mas falar em educação de hábitos está fora de moda. Na verdade, mais do que a uma questão de moda, a resistência que essa proposta suscita está ligada à própria ideia de pessoa que está na base da cultura educacional contemporânea. Hoje em dia, quando se imagina uma “pessoa realizada”, pensa-se, antes de mais nada, em alguém que conseguiu ou tem conseguido, ao longo de sua vida, dar vazão a todos os seus impulsos e satisfazer todos os desejos. Levada por essa mentalidade, boa parte dos pais, infelizmente talvez a maioria, acaba se contentando com o papel de alimentar, vestir, garantir a segurança física e fornecer instrução para que, futuramente, os filhos alcancem um tipo de sucesso material e profissional que lhes permita “realizarem-se” nesse sentido estritamente utilitarista e hedonista.

Ora, numa perspectiva educacional em que a espontaneidade e a impulsividade são mais valorizadas do que a autoconsciência e o autocontrole, formar hábitos soa como uma proposta autoritária e repressora. Mas é preciso desfazer este equívoco, em cuja raiz está aquela mesma confusão de sempre, entre espontaneidade e liberdade, tão característica de nossa época, e que dificulta todo e qualquer esforço educacional.

Uma criação que favoreça a espontaneidade não colocará a criança no caminho da liberdade, pois só é possível falar em liberdade quando a consciência impera sobre os impulsos. Não somos livres quando fazemos o que desejamos ou o que nos é mais “natural”, e sim quando fazemos o que, em nosso entender, deve ser feito. Quando uma pessoa preguiçosa deixa de realizar uma tarefa porque está com preguiça, ela não está exercendo a sua liberdade. Muito pelo contrário.

Para C. Mason, desde que nasce, a criança já é uma pessoa, dotada de disposições prévias, e sua personalidade tem de ser respeitada. Mas isso não exime os pais, de modo algum, da grave responsabilidade de conduzir a sua formação moral, ajudando-a a se libertar dos aspectos negativos e inferiores de sua própria natureza. Pois se, por um lado, a criança já nasce com as tendências que devem moldar o seu futuro, “toda tendência tem suas ramificações, suas possibilidades boas e ruins; e colocar a criança no caminho certo para o cumprimento das potencialidades que lhe são inerentes é a vocação dos pais.”

Entendendo o ser humano como uma “criatura de hábitos”, C. Mason chama atenção para o fato de que estes últimos serão formados independentemente da ação consciente dos adultos, sob a influência da atmosfera familiar. Se deixada à sua própria sorte, sem orientação, a criança desenvolverá hábitos físicos e morais que, das duas uma: ou seguirão majoritariamente as linhas de sua própria natureza ou mimetizarão o comportamento de terceiros, o que, dependendo do caso, pode não ser desejável. Somente uma educação doméstica ativamente comprometida com a formação de bons hábitos pode positivar, aperfeiçoar e elevar as disposições prévias da criança, assegurando que ela trilhe um bom caminho com o mínimo de esforço de sua parte.

É claro que estará sempre aberta a possibilidade de que a criança, mais tarde, e por seus próprios méritos, consiga superar os efeitos de uma educação excessivamente indulgente. Uma educação ruim, em qualquer sentido e por pior que seja, não sela o destino de uma pessoa. Mas se deixamos todo o esforço de transcender-se nas mãos de nossos próprios filhos, de que vale ser pai ou mãe? Nossa obrigação é orientá-los e conduzi-los até que sejam capazes de caminhar por si próprios. E o trabalho cotidiano de formação de bons hábitos é a forma mais verdadeira e eficaz de atenção e cuidado.

Além de sugerir métodos para a formação de bons hábitos, C. Mason também nos dá algumas orientações preciosas sobre como alterar maus hábitos já instalados. Mas ela ressalta a importância de se conhecer bem a criança. Disso depende a compreensão das causas que levaram à cristalização do hábito indesejável. Se uma criança, por exemplo, mente com frequência, é preciso começar por uma investigação dos motivos que a levam a mentir. Um temperamento avesso ao conflito? O temor de ser repreendida ou punida? Tendência a manipular as situações e pessoas à sua volta?

Uma vez conhecidas as causas desse comportamento, os pais devem, então, com paciência e dedicação, encorajá-la a dizer sempre a verdade, fazendo-a compreender as graves consequências do vício da mentira, e a importância de modificar o seu comportamento. Devem, ainda, manter-se vigilantes, acompanhando todos os passos da criança para garantir que ela não tenha nenhuma oportunidade de mentir. À medida em que o hábito de dizer a verdade vai se instalando, a criança adquire autoconsciência e confiança em sua própria capacidade de dizer a verdade.

A lista de bons hábitos de C. Mason cobre uma vasta gama de atitudes e comportamentos, dentre os quais podemos destacar a obediência aos pais, a gentileza, e a atenção ao que está sendo dito ou feito. Ao lado, é claro, dos hábitos de higiene, asseio pessoal e polidez. Alguns hábitos são mais passíveis de ser assimilados pela simples observação do exemplo dos adultos, sem grande esforço por parte dos pais, bastando que a atmosfera doméstica os estimule. Este é o caso, por exemplo, dos hábitos de gentileza e cortesia. Outros são mais dependentes de treinamento, como o hábito da atenção. Mas nada disso deve ser tomado como dado absoluto, pois cada criança é um indivíduo único no mundo. E por isso é tão importante que os pais conheçam profundamente os seus filhos.

Embora C. Mason seja daquele tipo de educador, tão raro hoje em dia, que não se furta a fazer juízos de valor, sua reflexão sobre a importância do hábito é plenamente sensível à questão da individualidade. E é justamente nesse ponto que reside todo o seu fascínio. É verdade que, cerca de um século depois, alguns detalhes de seus conselhos podem nos parecer anacrônicos. Mas se soubermos compreender o cerne de sua mensagem e colocar os seus ensinamentos em perspectiva, teremos à nossa disposição uma preciosa fonte de preceitos e orientações para lidar com os problemas educacionais específicos de nossas crianças. E qual é a mensagem principal? A de que precisamos estar sempre atentos e diligentes quando se trata de ajudá-las a desenvolver o seu caráter no sentido da ordem, da beleza e da autoconsciência, por meio do cultivo de bons hábitos.

Como bem lembra C. Mason, quando nossos filhos ficam doentes, não medimos esforços para cuidar deles e permanecer ao seu lado, até que possamos vê-los novamente saudáveis e ativos, correndo pela casa. Pois bem, é desse mesmo zelo e dessa mesma vigília que devemos ser capazes quando se trata de promover o seu bom desenvolvimento moral. E o segredo do sucesso é tratar de um hábito de cada vez, com delicadeza, constância e determinação.

 

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Fontes consultadas:

Habits: The Mother´s Secret of Success, Charlotte Mason, Deborah Taylor-Hough (ed.)

Formation of Character, Charlotte Mason.

 

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Imagem:

“Reading Bluebeard”, Alfred Morgan (1835-1924).

 

 

 

 

 

A maternidade e suas circunstâncias

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O modo como um grupo ou sociedade elabora e representa a maternidade possui relação direta com a qualidade e a extensão dos cuidados afetivos oferecidos às suas crianças. Ao longo da história do mundo, isso sempre variou; em alguns casos, drasticamente. Um exemplo de sociedade que não se preocupou em garantir um ambiente amoroso e acolhedor à primeira infância foi a França dos séculos XVII e XVIII. Nesse período, as mulheres francesas habitantes das cidades simplesmente não cuidavam de seus filhos, como mostra Elisabeth Badinter em seu livro “O Amor Conquistado” (1980).

Segundo Badinter, as crianças eram entregues a amas camponesas que delas se ocupavam até que completassem aproximadamente cinco anos. Apenas uma ínfima minoria era amamentada por suas próprias mães (cerca de 5%). Para as famílias ricas, havia a opção de manter a criança junto com a ama na residência materna, em uma ala separada onde ela não teria contato cotidiano com os pais. Mas o destino da maioria era ser tirada de casa logo após o nascimento, com a justificativa de que os ares do campo beneficiavam a saúde e o desenvolvimento infantil. Boa parte das crianças, porém, morria antes dos cinco anos de idade, e muitas delas sem jamais ter recebido uma visita dos pais. Um número significativo perecia já durante o trajeto, que não raro era feito em carroças repletas de bebês amontoados.

Elisabeth Badinter, a autora do livro citado, é uma típica feminista da segunda onda. Seu propósito é defender a tese de que não existe instinto materno. Encontro muitos problemas lógicos na argumentação e a meu ver a tese não se sustenta. Mas não é esse o ponto que quero discutir aqui. Estou interessada nos dados etnográficos que ela apresenta sobre as relações das mulheres francesas com a maternidade no final do Antigo Regime. Esses dados mostram, de maneira eloquente, não a inexistência de instinto materno, e sim como uma cultura pode desestimular peremptoriamente o exercício da responsabilidade materna. No caso da França urbana dos séculos XVII e XVIII, o abandono dos bebês era uma decisão coletiva, uma prática social corroborada e incentivada por todos, inclusive, e sobretudo, pelo pai da criança. Muitas vezes, para facilitar as coisas para a mulher em estado puerperal, ele próprio se encarregava de fazer o bebê deixar rapidamente a casa.

É preciso lembrar que os indivíduos das classes urbanas francesas da época, nobres ou burgueses, levavam uma existência mundana e pautada pelas aparências. Viviam em busca de poder e distinção social, valores muito distantes daqueles que poderiam predispô-los à parentalidade responsável. Num ambiente moral dominado pelo mimetismo e pelo esnobismo, não é de se estranhar que a criança – por sua extrema dependência – fosse vista e tratada como um estorvo. Mas nem sempre havia sido assim na França. E, como sugere a própria Badinter, ao final do século XVIII as concepções voltam a mudar, e a própria intelligentsia francesa começa a censurar a negligência das mães.

As representações culturais da feminilidade são a matéria simbólica a partir da qual se constroem as perspectivas sociais e existenciais de uma mulher. Se a mulher se forma em um ambiente pobre em preceitos e modelos positivos de maternidade, ela provavelmente a viverá de maneira conflituosa. Se, ao contrário, a atividade materna está incorporada ao seu ideal de feminilidade, a experiência tende a ser vivenciada de maneira mais suave e mais íntegra. Para ilustrar o contraste, vou apresentar um caso etnográfico que observei e descrevi pessoalmente, durante o período em que realizava pesquisas antropológicas na Amazônia.

Passei algum tempo em comunidades indígenas ribeirinhas do rio Uaupés (afluente do alto rio Negro), na fronteira com a Colômbia. Minha pesquisa era com as mulheres e, logo que cheguei na primeira comunidade, um fato me chamou atenção. Se uma mulher possui um filho de menos de dois anos de idade, raramente será vista sem ele nos braços. O bebê parece ser uma espécie de extensão do corpo da mãe. Ela o leva para o banho, para a roça, para a rede de dormir, para a festa. Atende às suas necessidades imediatas com tamanha prontidão que é praticamente impossível ouvi-lo chorar por mais de alguns instantes. A lida cotidiana da mulher em casa e nas plantações não é impedimento para que a criança tenha atenção ininterrupta. No alto rio Negro, observamos a expressão etnográfica mais rematada da famosa formulação do pediatra e psiquiatra inglês Donald Winnicott: “não existe algo como um bebê, o que existe é um bebê e mais alguém” (“there is no such thing as a baby; there is a baby and someone”). Parafraseando, eu diria que “o que existe é um bebê e sua mãe”. Na própria cosmologia dos índios do rio Uaupés encontramos a ideia, de certo modo análoga, de que o colo da mãe é a primeira e mais fundamental instância de formação da alma e da pessoa da criança.

As mulheres do rio Uaupés vivem nas comunidades de origem de seus maridos e os filhos do casal pertencem à linhagem do pai. Porém, mesmo sendo “estrangeiras”, elas são tratadas com muita consideração e respeito. A roça e a residência do casal são domínios femininos, e a integração prática entre os dois aspectos centrais da subjetividade social da mulher – as suas capacidades produtiva e reprodutiva –  é sustentada por uma elaboração cultural que tematiza essa continuidade simbólica. O trabalho na roça é representado como uma maternidade metafórica. A mulher é a “mãe de suas plantações”, o que significa que ela precisa cuidar de seus frutos para que eles cresçam fortes e saudáveis. Durante os rituais de iniciação feminina por ocasião da menarca, a associação entre a maternidade e a atividade agrícola é enfatizada e valorizada. A moça é preparada para assumir suas responsabilidades como provedora de alimentos e de cuidados cotidianos para sua família. Ela aprende a se orgulhar de suas habilidades especificamente femininas e a encará-las como uma fonte importante de satisfação pessoal.

Não pretendo aqui passar uma visão idealizada ou laudatória da experiência social feminina nas comunidades indígenas que visitei. Isso implicaria em simplificar e reduzir a sua complexidade. Em outros lugares, escrevi sobre a vida das mulheres do alto rio Negro de uma perspectiva mais sistêmica e multifacetada. Porém, nesse cotejo, meu objetivo é somente contrastar duas formas culturais diversas de viver a maternidade e mostrar como essa diferença repercute na extensão e na qualidade dos cuidados oferecidos às crianças pequenas. Meu ponto é simples. Quando a maternidade devotada não se encaixa no tipo de existência culturalmente validada para a mulher, a criança é prejudicada. Ali onde ela é valorizada e representada positivamente, a criança é beneficiada.

Os dois exemplos apresentados são radicalmente contrastantes, e estão muito distantes no tempo e no espaço. Mas, e quanto a nós? Em que posição nos encontramos nessa escala? Nossa relação com a criança é sem dúvida mais amorosa e generosa do que a das francesas urbanas dos séculos XVII e XVIII. Não depositaríamos nossos bebês em carroças para serem levados para residir com uma mulher estranha durante anos a fio, distantes de nossos olhos e de nossa proteção. A simples menção a esse costume nos causa repulsa e horror. Mas a verdade é que, ao longo do nosso processo de educação e formação pessoal, não só deixamos de ser preparadas para a maternidade dedicada, como fomos enfática e ativamente encorajadas a priorizar expectativas que conflitam diretamente com ela. Já mostrei aqui no blog o quanto a nossa cultura individualista, hedonista e utilitarista desvaloriza e desestimula o devotamento materno. Crescemos expostas a uma propaganda cultural feminista que tenta nos convencer, a todo custo, que, a despeito do que realizamos em nossos lares, nossa existência só será digna de admiração se tivermos prestígio e poder na esfera pública. E tudo isso nos torna confusas e inaptas quando precisamos lidar com um fato fundamental: nossos filhos precisam da nossa presença e de nossa atenção.

Winnicott, na frase acima citada, estava, obviamente, privilegiando o ponto de vista do bebê. E é esse ponto de vista, precisamente, que a nossa cultura hegemônica nos convida o tempo todo a ignorar, ao fazer com que valorizemos acima de tudo os nossos projetos individuais, mesmo que eles nos levem a fazer vista grossa para as nossas obrigações morais com as nossas crianças. Há, obviamente, mulheres que não têm opção, e precisam entregar seus filhos aos cuidados de terceiros para colocar comida na mesa. Não é desse tipo de circunstância de vida que eu falo. Falo de circunstâncias culturalmente criadas, que impactam a mulher em sua constituição subjetiva, e envolvem decisão e estabelecimento consciente de prioridades. É nesse sentido que precisamos resistir e nadar contra a corrente de nossas próprias representações culturais, assumindo o compromisso de ser fortes e capazes de lidar com as eventuais frustrações que podem nos rondar quando, desafiando as circunstâncias, priorizamos o cuidado de nossos filhos.

 

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Imagem:

Pablo Picasso, Maternity, 1905.

 

 

 

 

 

O projeto de criação de crianças confusas

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No artigo anterior, expliquei o que é, de onde vem, e por que devemos nos preocupar com a disseminação, na mídia e nas escolas, da chamada “ideologia de gênero.” Argumentei que essa ideologia nada tem de científica, tampouco de libertária, e que seu propósito geral é tornar as crianças confusas acerca das noções de feminino e masculino, investindo, assim, contra o modelo de família que se apoia na complementariedade entre os sexos.

Não é de hoje que somos bombardeados com reportagens e falas de especialistas que querem nos ensinar com que brinquedos nossos filhos e filhas precisam brincar, que cores de roupa devem usar, e que elogios podemos dirigir a eles. Porém, de uns tempos para cá, a agenda da desconstrução começou a ganhar contornos mais perturbadores. Crianças supostamente “transgênero” têm sido exibidas nas mídias impressa e eletrônica, em ritmo praticamente diário, como se fossem provas vivas de que ser menino ou menina nada tem a ver com o sexo de nascimento. Não há um só dia em que não nos deparemos com matérias permeadas por essa narrativa, cujas falácias e imposturas pretendo demonstrar aqui.

É necessário começar dizendo o óbvio. Existem, sim, diferenças inatas entre meninos e meninas, e essas diferenças apontam para tendências em termos de comportamento e estilos de desenvolvimento. Não obstante, o modo de ser e de se desenvolver de cada criança será resultado da interação entre tais diferenças inatas, o temperamento individual, e a forma como ela reage aos estímulos que recebe do ambiente. Nesse sentido, em termos de suas escolhas lúdicas e modos de se comportar, algumas meninas podem assemelhar-se mais aos meninos com quem convivem do que à média das meninas de sua idade, preferindo, inclusive, brincar somente com eles. E o mesmo pode acontecer a alguns meninos. Esses casos, perfeitamente normais, não representam contudo maioria.

O importante é ter sempre em mente que, quaisquer que sejam as preferências e o modo de ser de uma criança, privá-la da certeza de ser menino ou menina é uma das maiores violências que se pode cometer contra a sua infância. Pois, ao contrário do que querem nos fazer crer os promotores da ideologia de gênero, não há desejo, figurino, tratamento hormonal ou intervenção nos órgãos genitais capaz de anular as implicações do fato de se possuir em todas as células do corpo um par de cromossomos sexuais. Nos últimos tempos, porém, esse assunto vem sendo tratado de modo tão leviano que se um menino insistir em brincar de boneca, ou em calçar os sapatos da mãe, logo aparecerá algum incauto para classificá-lo como “transgênero” e sugerir que ele seja encaminhado para uma clínica especializada para fazer a sua “transição”.

Além de irresponsável, o discurso sobre as supostas “crianças transgênero” é cheio de incoerências. Os promotores da ideologia de gênero insistem na ideia de que as alegadas diferenças entre meninos e meninas resultam, não de uma realidade naturalmente constituída, e sim de um processo de socialização que reforçaria os “estereótipos sexuais da sociedade ocidental”. Entretanto, são eles próprios os primeiros a projetar nas crianças ditas “transgênero” os atributos que em outros contextos de militância se esforçam por dissolver. Como justificar, no registro de uma narrativa que se diz tão libertária e avessa a “estereótipos”, que um menino atraído pelo universo feminino precise “virar” menina? E que, para tanto, seja estimulado a pintar as unhas e vestir-se de princesa ?

Vejam o malabarismo: quando os comportamentos e preferências das crianças se conformam aos chamados “estereótipos sexuais da sociedade ocidental”, eles são vistos como males a serem combatidos. Mas quando se trata de decidir que uma criança é “transgênero”, os supostos “estereótipos sexuais” tornam-se critérios válidos. E o mais grave: os formuladores desse discurso têm plena consciência da contradição. Eles costumam se referir a essa forma de manipular os conceitos como “essencialização estratégica”. E qual é a estratégia? Criar um contingente de crianças e jovens confusos em relação à sua própria identidade sexual.

O discurso sobre as crianças “transgênero” revela, ainda, uma profunda ignorância a respeito de aspectos cruciais do desenvolvimento infantil. Até os seis ou sete anos de idade, a capacidade imaginativa da criança é praticamente ilimitada. Ela pode se imaginar princesa, super-herói, sereia, cachorro, borboleta, nuvem, o que quer que seja, sem prejuízo algum do fato de saber-se menino ou menina. Essa efervescência da imaginação é, em boa parte, impulsionada pelo comportamento mimético, que nos primeiros anos de vida funciona como um poderoso mecanismo de aprendizagem. Toda criança saudável passa boa parte de seu tempo a imitar os coleguinhas, os adultos com os quais convive, os personagens das histórias. E não há nenhuma barreira que a impeça de, sendo um menino, imitar um personagem real ou fictício do sexo feminino, e vice-versa.

Mas é claro que nenhum processo de identificação se faz sem modelos. Se a criança nunca viu a imagem de um soldado, por exemplo, jamais poderá pretender-se um. Nesse sentido, quanto mais modelos positivos e inequívocos de homem e mulher ela tiver à sua disposição, mais fácil será o seu processo de auto identificação. Para a grande maioria das crianças criadas num ambiente razoavelmente bem provido de modelos, a formação da subjetividade sexual se dá de maneira natural e tranquila, embora sempre modulada pelas idiossincrasias individuais.

Quando os desejos de uma criança por brinquedos, roupas e coleguinhas do sexo oposto se tornam exclusivos e vêm acompanhados de sofrimento psíquico, prejuízo no desenvolvimento social e afetivo, e veementes expressões de desgosto com a sua própria anatomia sexual, não se deve descartar a possibilidade de que ela seja portadora de um transtorno intitulado “disforia de gênero”. Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, a prevalência dessa condição mental é de 0,005% a 0,014% em indivíduos do sexo masculino, e 0,002% a 0,003% em indivíduos do sexo feminino. Ou seja, trata-se de um transtorno muito raro.

Além de ser raro, na maior parte dos casos o transtorno tende a desaparecer. As taxas de resolução da “disforia de gênero” antes da idade adulta variam, mas chegam à proporção de 97,8%  em meninos, e de 88% em meninas. Diante desses dados, não há absolutamente nenhuma justificativa para outra atitude a não ser a de apoiar afetivamente a criança enquadrada nesse diagnóstico e ajudá-la a se reconciliar psicologicamente com o seu sexo biológico. Porém, na narrativa disseminada na mídia com a conivência de parte da classe médica, esses dados têm sido escamoteados, quando não ativamente distorcidos, o que leva muitas famílias a acreditar que se trata de um quadro muito mais frequente e definitivo. Desencadeiam-se assim temores, ansiedades e condutas absolutamente equivocadas.

Em resumo, o ponto importante é que dizer “criança portadora de disforia de gênero” não é o mesmo que dizer “criança transgênero”. O primeiro termo refere-se a um diagnóstico clínico que, na maioria dos casos, é temporário, ao passo que o segundo denota uma atribuição de identidade, feita por terceiros, com sérias repercussões sociais e psicológicas. A distância entre ser portador de “disforia de gênero” e ser “transgênero” só pode ser percorrida por uma pessoa adulta, autoconsciente, dotada de discernimento e responsabilidade para tomar decisões que afetarão a sua vida de maneira estrutural e, provavelmente, irreversível. Por tudo isso, podemos considerar mudança de nome, travestismo, e tratamento hormonal para bloqueio da puberdade em crianças como procedimentos abusivos e inteiramente condenáveis. E não só do ponto de vista ético.

Nas numerosas matérias de jornais e revistas impressas e eletrônicas que nos chegam cotidianamente, praticamente não se fala nas altas taxas de suicídios entre pessoas que se submetem a tratamento hormonal e fazem cirurgia de redesignação sexual. Tampouco nos graves riscos que a utilização de hormônios do sexo oposto – passo subsequente ao bloqueio da puberdade – representa para a saúde global e reprodutiva. Tamanho silêncio a respeito de dados extremamente relevantes não deve levantar imediatamente a suspeita de má-fé?

Na verdade, como não somos ingênuos e estamos perfeitamente cientes do objetivo por trás do discurso proselitista da mídia sobre as ditas “crianças transgênero”, bem como de suas fontes bilionárias de financiamento, essa omissão infame não deve nos surpreender. Pois ela apenas corrobora o que já sabemos: nesse ponto, assim como em praticamente todos os outros que compõem a agenda da ideologia de gênero, os interesses político-ideológicos prevalecem sobre a preocupação com o bem-estar dos indivíduos envolvidos.

O que se pretende com toda essa propaganda é induzir os pais e a escola a questionar a identidade sexual das crianças até que todas, ou praticamente todas, acabem se tornando em alguma medida disfóricas em relação à sua própria natureza. Angústias e inseguranças infantis, que podem ter as mais variadas origens, vão sendo assim capitalizadas e imediatamente traduzidas no idioma da identidade sexual. E aí eu pergunto: quem vai pagar a conta quando, daqui a duas ou três décadas, essa geração de crianças perceber que foi submetida a um experimento social que lhe tirou, na melhor das hipóteses, a possibilidade de dar plena expressão à sua condição sexuada?

 

Fontes médicas consultadas:

Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th edition, American Psychiatric Association.

“Gender Ideology Harms Children”. American College of Pediatricians. September 2017.

 

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Imagem:

Jessie Willcox Smith (1863-1935), “Looking Glass River”.

 

Ideologia de Gênero: o que é, de onde vem, e por que você deve se preocupar com ela

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Já há algum tempo, no curso de um movimento iniciado no hemisfério norte, vem sendo disseminada nas escolas brasileiras a chamada “ideologia de gênero”. À revelia dos pais, crianças e adolescentes têm sido expostos a um discurso sobre os sexos que, além de os levar a interpretações errôneas da realidade, os torna confusos e vacilantes em relação à circunstância mais básica e evidente da existência humana: o fato de alguém nascer homem ou mulher. O que vem ocorrendo é um verdadeiro abuso moral. Dada a importância do assunto, resolvi dedicar a ele uma série de artigos aqui no blog.

O termo “ideologia de gênero” refere-se, de uma perspectiva crítica, a um emaranhado de postulados sem comprovação científica, desarticulados e muitas vezes contraditórios entre si, que transitam entre temas como “identidade de gênero”, “transgeneridade”, “orientação sexual” e “desigualdade de gênero”. Nesse artigo, vou tratar do primeiro tema, ou seja, da pressuposição de que ser homem ou ser mulher nada teria a ver com o fato de se nascer com um corpo masculino ou feminino, sendo antes matéria de decisão pessoal. Ou, alternativamente, de que uma pessoa pode “descobrir” que não é nem homem nem mulher, havendo um cardápio de mais de 50 gêneros já catalogados e disponíveis à escolha. O “gênero” seria não só algo descolado do sexo biológico, como teria o poder de anulá-lo.

É com base nessas ideias delirantes que os promotores da “ideologia de gênero” militam pela implementação de uma pedagogia escolar que estimula meninos e meninas a realizarem atividades, usarem roupas, e brincarem com objetos tradicionalmente associados ao sexo oposto. Em certas escolas, chega-se ao paroxismo de proibir o uso de pronomes distintivos de gênero, que são substituídos por um pronome “neutro” inventado artificialmente com esse fim. Segundo essa cartilha, as crianças devem ser educadas num ambiente de completa indistinção, alienadas, o máximo possível, de sua condição sexuada. Mas não nos deixemos iludir: essa ideologia é essencialmente política e nada tem de libertária.

Não se trata de dar liberdade para que as crianças sejam meninos ou meninas à sua própria maneira, e sim de fomentar dúvidas e questionamentos em relação à sua própria identidade. O objetivo não é combater discriminações e preconceitos, estimular o respeito às diferenças, etc, e sim planificar a visão de mundo das novas gerações, por meio da desconstrução do conceito tradicional de família e do ataque à heterossexualidade. Não por acaso, nas escolas cujos currículos já foram invadidos pela “ideologia de gênero”, os estudantes também são permanentemente expostos a um discurso de crítica ao modelo universal de família baseado na complementariedade de papéis entre marido e mulher.

De onde vem a “ideologia de gênero”? O que chega nas escolas é uma versão popularizada de ideias gestadas no contexto das disciplinas universitárias agrupadas sob o título de Humanidades, e posteriormente disseminadas com o auxílio da mídia cultural. A partir da década de sessenta, essas disciplinas foram se tornando gradativamente comprometidas com a pauta da segunda onda feminista, focada na crítica aos fundamentos da cultura judaico-cristã, e na revolução dos costumes. Nos anos noventa, já haviam acolhido também os anseios da militância LGBT. Porém, apesar de sua origem acadêmica e de seu verniz pseudocientífico, a “ideologia de gênero” se baseia em formulações desprovidas de rigor intelectual e sem nenhum compromisso com a realidade dos fatos associados aos sexos. Vamos então aos fatos.

Meninos e meninas nascem diferentes, não só no que se refere à fisiologia genital e reprodutiva, mas também à composição hormonal e à estrutura psíquica. Numa visada geral, essas diferenças se refletem nos modos de se desenvolver e de se comportar, assim como em suas respectivas seleções recorrentes de interesses. A partir dos três anos de idade, quando as capacidades verbais e motoras já estão mais desenvolvidas e as crianças adquirem competência para expressar suas disposições e habilidades, alguns padrões se tornam evidentes.

Por exemplo, é fato notório que, em média, os meninos desenvolvem a coordenação ampla (relacionada aos atos de correr, pular, escalar, etc.) ligeiramente mais cedo, ao passo que as meninas se antecipam no desenvolvimento da coordenação fina (relacionada às habilidades de desenhar, escrever). A maioria dos meninos costuma vibrar com brincadeiras de lutar, escalar e deslizar pelo chão, ao passo que a maioria das meninas prefere brincar de maneira mais estruturada, ou, pelo menos, não tão explosiva e arriscada. Do ponto de vista linguístico, é comum que as meninas falem e ampliem o vocabulário mais cedo, sendo também mais sensíveis aos sinais de comunicação não-verbal. Por fim, podemos citar ainda tendências diversas nas formas de sociabilidade, os meninos preferindo brincar em grupos maiores e mais erráticos, e as meninas sendo mais inclinadas a formar grupos coesos ou pares de afinidade.

Os promotores da “ideologia de gênero” alegam que esses padrões não seriam expressão de diferenças naturais entre os sexos, e sim resultado de um processo de socialização que induziria as crianças a se comportarem de acordo com os “estereótipos sexuais da sociedade ocidental”. Ora, ao defender essa ideia, eles fazem vista grossa para dois conjuntos de dados muito importantes. Por um lado, para toda a produção das neurociências a respeito das correlações entre o comportamento de homens e mulheres, e o modo como funcionam os seus respectivos sistemas hormonal e neuronal. Por outro lado, para o fato de que, a despeito de variações culturais de nível superficial, esses padrões se revelam histórica e etnograficamente recorrentes, estando longe de representar uma exclusividade da sociedade ocidental. Mas os promotores da “ideologia de gênero” não gostam de discutir dados que contrariem as suas teses e os seus projetos de engenharia social. Sendo assim, temos mais um motivo para impedi-los de participar da educação de nossos filhos.

Educar uma criança consiste em oferecer-lhe os meios para que desenvolva, da maneira mais elevada possível, as suas potencialidades individuais, o que inclui dar plena expressão à sua condição sexuada. Nesse sentido, devemos ajudá-la a cultivar os seus melhores talentos não só para a vida em comunidade, mas também para a vida na intimidade da família que provavelmente irá formar. Nunca houve, em lugar ou tempo algum, exceto na mídia e nas universidades do Ocidente pós-moderno, quem deixasse de compreender o papel que as diferenças naturais entre homens e mulheres cumprem no sentido de prover a estrutura familiar com o máximo de recursos que concorram para o seu bom funcionamento enquanto esfera de atenção e cuidado com as crianças.  Porém, para aqueles que não vêem com bons olhos a família tradicional, nada que propicie a complementariedade entre os sexos deve ser legitimado.

Isso explica, por exemplo, a aversão dos promotores da “ideologia de gênero” às clássicas brincadeiras de menina e menino, bem como a sua insistência em criticá-las. Para eles, uma menina pode brincar de ser médica, empresária, astronauta ou presidente de um país, mas a fantasia de ser mãe ou dona de casa precisa ser desconstruída. Melhor guardar a boneca e as panelinhas antes que ela tome gosto. Do mesmo modo, é preciso impedir que os meninos se percebam ágeis, fortes e resistentes. Melhor proibir a brincadeira de luta e dar sumiço na capa de super-herói. Pois se um homem confiante e corajoso é um bem incalculável para uma família, para a ideologia de gênero ele representa um empecilho e tanto.

Mas o que dizer das meninas que não ligam para bonecas e dos meninos que não gostam de brincar de luta? Ora, não há absolutamente nada de errado com essas crianças. Evidentemente, não seria de se esperar que as diferenças naturais entre os sexos se atualizassem da mesma forma, e na mesma medida, nas predisposições e preferências individuais de todas os meninos e meninas. Escolhi citar tais brincadeiras menos por sua recorrência (que, no entanto, é real), e mais pelo fato de serem tão combatidas pelos promotores da “ideologia de gênero”. Mas deixo o assunto para o próximo artigo. Esse aqui já está muito longo e quero finalizá-lo com um alerta.

Precisamos redobrar a nossa atenção. Não podemos deixar que nossos filhos sejam usados como massa de manobra por pessoas que não hesitarão em se aproveitar de sua imaturidade intelectual e psicológica para lhes impingir a sua própria visão de mundo. Precisamos ficar de olho no modo como a escola lida com essas questões, e sempre atentos ao nível de transparência de suas ações pedagógicas. Essa atenção nada tem a ver com intolerância e preconceito. Não aceite essa narrativa. Nenhuma linha do que eu escrevi aqui implica privar um adulto da liberdade de fazer o que quiser de sua identidade sexual e de seu corpo.  Trata-se, simplesmente, de não permitir que crianças saudáveis, plenas de energia criativa e cognitiva, sejam transformadas em pequenos militantes angustiados e ansiosos em relação à sua identidade sexual e ao seu próprio modo de ser. Seja ele qual for.

 

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Imagem: 

Robert Barnes (1840-1895), “Boy Tying a Girl´s Shoe”.