Por que é importante criar filhos obedientes?

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Para quem cresceu em uma cultura educacional como a nossa, na qual o desejo tem precedência não só sobre a responsabilidade individual, mas também sobre a própria realidade do mundo, pode parecer contra intuitiva a ideia de que as crianças devem obedecer a seus pais. Aliás, em nossos dias, a palavra “obediência” parece até mesmo soar mal.

Se prestarmos atenção, veremos que o verbo “obedecer” foi praticamente banido dos textos e conversas educacionais da classe falante, tendo sido substituído (mas apenas quando estritamente necessário), por eufemismos vagos, genéricos e superficiais como “aceitar limites”. Hoje em dia, não é de bom tom dizer a uma criança: “você tem que me obedecer”. O problema é o mesmo de sempre. Não importam as crianças reais, e as realidades que impactam o seu futuro. Importam somente as ideias inconsequentes que vão sendo cultivadas na bolha existencial moderninha e progressista.

Parece exagero? Outro dia passou na minha timeline do Face Book a seguinte frase: ”O verdadeiro educador é aquele que ajuda a pensar e não aquele que ensina a obedecer.” Analise essa frase. Desde quando obedecer é o oposto de pensar? Não obstante a falta de sentido, a frase tinha centenas de curtidas! As pessoas que a curtiram certamente não se deram ao trabalho de refletir sobre as implicações concretas dessa formulação quando aplicada como princípio educacional. Eu gostaria de fazer a cada uma delas a seguinte pergunta: como é possível proteger e orientar um filho que não obedece?

Imagine, por exemplo, um adolescente que vive com sua dedicada família em uma comunidade tomada pelo tráfico de drogas. Por mais presentes e cuidadosos que sejam, seus pais não podem evitar que ele se depare, cotidianamente, com uma enorme quantidade de modelos negativos, e tampouco que viva uma série de experiências cotidianas que o colocam em situação de vulnerabilidade. Alguém duvida que esse jovem estará relativamente mais protegido se for capaz de seguir as orientações dos pais, de ouvir os seus conselhos, enfim, se tiver formado, ao longo da infância, o hábito de obedecê-los? Ou será que os curtidores da frase nonsense diriam que é melhor deixar que esse adolescente se guie por seus próprios critérios, e tome as suas próprias decisões? 

Escolhi ilustrar o meu ponto com essa situação extrema para que não restem dúvidas de que ideias aparentemente libertárias podem ter consequências trágicas. A verdade é que, na vida real, no mundo real, nada pode proteger mais uma criança do que ter em seus próprios pais uma referência e um guia de como se conduzir num mundo que ela ainda não experimentou e que mal pode compreender. Muitas vezes, os próprios desejos da criança a conduzem na direção de situações cujo risco ela ainda não tem recursos cognitivos para avaliar. E é nessas situações, em que o impulso infantil colide com a orientação dos pais, que a obediência se torna tão importante. Pais que investem o seu tempo e a sua energia para formar em seus filhos o hábito da obediência dão, portanto, uma demonstração inequívoca de atenção e de cuidado.

Alguém poderia argumentar que nem todos os pais se preocupam genuinamente com o bem-estar de seus filhos. E essa é uma verdade inegável. Desde que o mundo é mundo, existem pais irresponsáveis, egoístas e até mesmo perversos. Porém, independentemente da qualificação que daremos a esses pais, não é a eles que eu me dirijo aqui. Esses pais, muito provavelmente, não seguem o meu blog.  Estou falando com aqueles que assumem a sua responsabilidade, que tentam com todas as suas forças fazer o melhor pelos filhos, mas que, com alguma frequência, tornam-se confusos em relação à legitimidade de sua própria autoridade. O meu recado é para você, que está dedicando parte do seu tempo para ler este artigo. Seu filho precisa de sua proteção e orientação. E você só conseguirá orientá-lo, se ele for capaz de lhe obedecer.

A relação entre obediência e proteção não costuma ser questionada quando se trata da segurança física da criança. Ninguém permitirá que o filho de três anos atravesse a rua sozinho, ou viaje de carro sem cinto de segurança, por pior que seja a birra. Ora, quando se trata de orientação para a vida, a equação não é diferente. A criança que não obedece torna-se mais vulnerável a outras influências sobre as quais, com o passar do tempo, os pais terão cada vez menos controle, como a dos amigos, da mídia, dos professores. No livro Hold On To Your Kids (2004), o psicólogo canadense Gordon Neufeld discute o problema muito atual da influência crescente e nociva do grupo de pares (i. e, dos colegas de mesma idade) sobre o comportamento e a visão de mundo dos jovens contemporâneos. Nunca houve, em nenhuma época, situação semelhante. Os jovens atuais, em geral, seguem a orientação do grupo de pares mais do que a de seus pais, e este fenômeno é estimulado, em ampla medida, pela omissão desses últimos.

Em parte porque se sentem confusos em relação à sua própria autoridade, em parte porque não são capazes de assumir a parentalidade com todos os sacrifícios que ela envolve, o fato é que uma boa parte dos pais, hoje em dia, delega a terceiros tarefas que são suas. Isso se traduz, por exemplo, na expectativa de que a escola ajuste o comportamento dos filhos. E também na criação de rotinas cotidianas que estimulam uma dependência excessiva da criança em relação aos coleguinhas, que passam assim a representar referências para a formação da auto-imagem, e a ditar padrões de consumo e comportamento social.

Enquanto os coleguinhas são crianças e temos um controle relativo sobre as circunstâncias dessas interações, tudo pode correr razoavelmente bem. Mas a médio e longo prazo, quando nossos filhos entram na escola de ensino fundamental e depois na universidade, como garantir a nossa proteção se a influência dos amigos for maior que a nossa? Como lembra N. Gordon, a diferença fundamental entre a relação com os pais e a relação com os pares é que o prestígio junto aos pares precisa ser permanentemente reafirmado pelo mimetismo e pela submissão às expectativas alheias, ao passo que o amor dos pais é incondicional. E é por isso que só nós estamos em condições de proteger verdadeiramente os nossos filhos.

Dizer que é importante criar filhos obedientes não significa de modo algum que isso seja tarefa fácil. No próximo artigo, vou discutir as condições que possibilitam tanto o exercício da autoridade paterna quanto a formação do hábito da obediência nas crianças, e mostrar que é possível – embora, como eu disse, não seja fácil – levá-los a nos obedecer sem desrespeitar a sua individualidade. Ao contrário do que pensa o autor da frase infeliz que passou na minha timeline, a obediência não torna a criança incapaz de pensar por si própria. Muito pelo contrário. É justamente a proteção que resulta da obediência que permitirá à criança desenvolver, em segurança e no tempo apropriado, todas as suas tendências e capacidades pessoais. É o breve período de vida que ela passa no ninho, sob os cuidados e a influência dos pais, que lhe possibilitará tornar-se uma pessoa independente e autônoma.

Isso é exatamente o contrário do que acontece com as crianças e os jovens guiados por influências externas à família, em que a orientação não se dá no compasso do amor incondicional. Perdidos num ambiente de múltiplas referências e ao acaso de relacionamentos com pessoas que nem sempre querem o seu bem, eles se tornam afetivamente dependentes da opinião alheia. Incapazes de formar seus próprios critérios e juízos, só conseguem decidir conforme a orientação da manada. Passam a vida repetindo ideias alheias como se fossem suas, e nunca se tornam plenamente capazes de assumir a responsabilidade por seus próprios atos.

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Imagem: Émile Munier (1840-1895), “Pardon, mama”.

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6 comentários sobre “Por que é importante criar filhos obedientes?

  1. Olá, Igor.
    Realmente, fácil não é. Mas existem algumas condições que tornam o exercício da autoridade mais natural. Sem elas, fica praticamente impossível criar filhos obedientes. E é disso que pretendo falar no próximo artigo.
    Obrigada pelo seu comentário!

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  2. Ótimo texto!

    Ansioso pela continuação.

    Infelizmente não me parece fácil obter essa obediência na prática, visto que todo o contexto cultural no qual estamos inseridos afirma constantemente que isso é bobagem, que as crianças vão descobrir tudo sozinhas, que ninguém deve obedecer à ninguém e que pais são apenas mais um grupo opressor com o qual se precisa lidar.

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  3. Oi, Ludi. Obrigada pelo seu retorno e pelo seu depoimento. Mas tenho certeza que vocês, pais tão presentes, conseguirão ocupar o espaço devido na vida da Camille. O importante é estar sempre atento e disponível, pois a atenção é o passaporte para a autoridade. Dêem uma olhada no livro do Gordon Neufeld, ele está disponível para Kindle. É um autor muito lúcido e antenado com os problemas envolvidos na criação dos filhos no mundo contemporâneo. Beijos!

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  4. Querida Cris Adorei o post, mais uma vez. Ontem eu e Sandro tivemos uma conversa exatamente sobre esse tema com a Camille.

    Na terça, numa livraria, o Sandro aconselhou um livro para ela, mas ela respondeu que não lhe interessava. Na sexta, descobrimos que ela resolveu emprestar este livro na biblioteca da escola, porque um colega falou para ela que era legal.

    Não questionamos com ela o fato dela ter mudado de ideia, mas dela dar mais “crédito” para o colega do que para o pai…. Senal, para nós, que ela está mudando.. . Bjos

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