Por que os pais não devem se desautorizar na frente dos filhos?

Todo mundo concorda que os pais não devem se desautorizar mutuamente na frente dos filhos. Porém, por mais que uma ideia pareça fazer sentido, para que ela possa funcionar como um guia para o nosso comportamento, é preciso que sejamos capazes de explicá-la, de compreender a fundo suas implicações. Afinal, por que os pais não devem se desautorizar mutuamente na frente da criança? Você já parou para pensar seriamente nisso? Já refletiu sobre as consequências que esse tipo de situação traz para a educação de seu filho?

Em primeiro lugar, é preciso entender o que estou querendo dizer com a palavra “desautorizar”. Imagine que a mãe (ou o pai) está dando uma ordem, um conselho, um limite, ou simplesmente repreendendo o filho. Se o cônjuge interfere, opondo-se ou questionando essa ação ou discurso na frente da criança, ele está contribuindo para minar as bases da autoridade do outro. Isso é desautorizar. E essa atitude pode ter consequências a curto, médio e longo prazo.

Para que possamos compreender exatamente porque isso é tão prejudicial para a criança, é preciso refletir um sobre o próprio objetivo da educação doméstica. Já falei algumas vezes aqui no blog que educar uma criança consiste em elevá-la acima de si mesma, e que isso implica, em ampla medida, ajudá-la a aceitar limites, adiar prazer, controlar impulsos e desejos. Quanto mais a autoridade dos pais é percebida pela criança como algo legítimo, mais fácil será para ela conquistar o autodomínio e aprender a obedecer. É como se ela pudesse contar com uma força externa, que a puxa na direção almejada pelos pais e torna razoável e inquestionável a necessidade de seguir as suas orientações.

Vamos recuar um pouco no tempo para olhar com mais cuidado esse ponto. Antigamente, a maioria das mães permanecia em casa enquanto os pais saíam para trabalhar. A educação das crianças na esfera doméstica era da alçada da mulher. Mas ela podia recorrer à autoridade do marido toda vez que a sua própria autoridade se mostrava fraca. Era muito comum, em tempos passados, que as crianças ouvissem a mãe dizer: “quando seu pai chegar, vou contar para ele o que você fez!” Embora o pai ocupasse o lugar de autoridade máxima, ele delegava a autoridade doméstica para a mãe e estava disposto a fazê-la valer. Em suma, a criança sabia que tinha que obedecer à mãe, e que esta última podia contar com o aval do pai.

Sei que essa descrição é um pouco simplista, e não compreende todos os matizes e gradações que havia nas diversas realidades de outros tempos. Se me permito generalizar desse modo é porque o meu propósito é apenas o de estabelecer um contraste com a situação que vivemos hoje. Quero deixar bem claro, também, que não estou idealizando o passado. Sabemos que a autoridade central do pai nem sempre era exercida de maneira justa, e que ocorria de mulheres e crianças sofrerem abusos que hoje não toleramos. Mas o ponto para o qual quero chamar atenção aqui é que as mudanças culturais ocorridas nas últimas décadas, e em especial aquelas que incidem sobre as relações entre os cônjuges no interior da família, trouxeram, junto com o igualitarismo que tanto prezamos, algumas questões que ainda precisam ser equacionadas no que diz respeito à educação dos filhos.

Hoje em dia, a autoridade do pai e da mãe se distribui de maneira horizontal e simétrica no ambiente da casa. No modelo de família sob o qual vivemos hoje, não há hierarquia. Quando um ou outro possui mais autoridade de fato, isso se deve provavelmente a questões de temperamento e visão educacional, e não ao modo como os papéis estão socialmente organizados. Mas o ponto que nos interessa aqui é que, nesse novo cenário, a criança tem que lidar com duas figuras de autoridade, que nem sempre estão de acordo em relação ao modo como as coisas têm que caminhar.

A criança logo percebe as diferenças no modo como o pai e a mãe se posicionam diante das questões relacionadas à educação. Por volta dos três anos de idade, elas já sabem qual dos dois é o mais exigente, e qual é o mais flexível. Isso não é necessariamente um problema. Aprender a lidar com duas figuras de autoridade pode até ser bastante interessante do ponto de vista existencial, desde que resguardadas duas condições: que ambas compartilhem os mesmos valores básicos, os mesmos princípios morais; que cada uma delas seja capaz de respeitar as decisões tomadas pelo outro. E aqui chegamos ao ponto crucial.

Por mais que o pai e a mãe compartilhem os mesmos valores básicos e os mesmos princípios morais, jamais compartilharão de maneira absoluta a mesma visão de mundo. Cada um tem sua própria história afetiva, forjada pelas experiências vividas no contexto de sua família de origem. Ou seja, cada um traz para o convívio com os filhos a memória dos exemplos e preceitos que guiaram a sua própria educação. Isso significa que, em muitos momentos, suas perspectivas vão divergir e eles vão discordar.

Essas divergências são inevitáveis. E, por isso, é importante que haja sempre espaço para o diálogo sobre métodos e decisões educacionais. O casal pode até discutir de maneira enfática e calorosa. Isso é normal e acontece nas famílias mais harmoniosas. Porém, é muito importante que se tome cuidado para que essas discussões não ocorram na frente dos filhos. Mesmo que um limite pareça exagerado e uma bronca pareça injusta, a melhor estratégia de quem discorda é esperar até o momento em que a questão possa ser discutida sem a presença da criança. Não se trata de fingir para as crianças que o pai e a mãe estão sempre de acordo. E sim de fazer com que percebam que, mesmo que haja pontos de discordância, o apoio será mútuo, porque, pensem o que pensarem, façam o que fizerem, ambos estão sempre comprometidos com o bem dos filhos.

É claro que isso só vale porque estamos falando de pais que tratam os filhos com carinho, que se dedicam genuinamente, não praticam excessos de autoridade, não são negligentes, nem cometem abusos físicos ou morais. Se você está lendo esse texto, se você segue uma página de educação de crianças, é porque seus filhos são prioridade em sua vida e provavelmente também na de seu cônjuge. Por isso, sinto-me segura para afirmar que é melhor ficar você ficar em silêncio do que interferir. Desde que não se tratar de algo grave o suficiente para colocar em risco o bem estar físico e emocional da criança, desautorizar o outro será mais prejudicial do que aguardar o contexto oportuno para discutir o assunto e tentar reconduzir a situação. E isso por três motivos.

O primeiro motivo diz respeito ao próprio fundamento da autoridade. A criança não é capaz de entender a racionalidade de uma regra se ela for imediatamente exposta ao seu contraditório. E no momento em que ela questiona a racionalidade do limite, passa a questionar também a autoridade de quem o estabeleceu. A autoridade parental precisa se apoiar sempre na razão. Devemos ser capazes, o tempo todo, de apresentar à criança uma explicação que justifique as nossas ordens. (Entenda bem: não estou dizendo que precisamos explicar tudo o tempo todo, e sim que é importante que haja uma explicação e que ela seja clara para nós.) E se uma ordem dada por um dos pais é imediatamente questionada pelo outro, o que ocorre é uma diminuição do nível de confiança da criança na figura de autoridade. É como se a criança pensasse assim: “Se o papai acha que a mamãe está errada, se ele precisa me defender, é porque nem tudo o que a mamãe faz é para o meu bem.”

A criança que vive submetida a mensagens diversas e contraditórias fica confusa, perdida, e essa falta de referência pode estar na origem de uma série de comportamentos neuróticos. Além disso, e aqui chegamos ao nosso segundo motivo, dependendo do temperamento da criança, ela pode começar a desenvolver estratégias de manipulação. Nem todas as crianças farão isso, mas aquelas que já possuem uma tendência a manipular situações, não hesitarão, para conseguir o que querem, em jogar o pai contra a mãe e vice-versa. E eu não preciso dizer o quanto isso será ruim para o seu próprio desenvolvimento como pessoa. É triste, mas é verdade: existem famílias em que os próprios pais criam condições para que a criança se torne uma pessoa manipuladora.

Por fim, o terceiro motivo pelo qual os pais não devem se desautorizar na frente dos filhos é que esse tipo de atitude pode gerar insatisfação, ressentimento e, por conseguinte, dar origem a conflitos desgastantes para a relação do casal. Sabemos o quanto é importante, para uma criança, crescer em um ambiente de harmonia e, quando desautorizamos frequentemente o nosso cônjuge na frente de nossos filhos, estamos contribuindo para que essa harmonia se torne algo ainda menos factível. Ao se perceber como pivô de conflitos frequentes entre os pais, a criança pode reagir de duas maneiras: tornando-se, como eu já disse, uma pessoa manipuladora, ou alimentando sentimentos de culpa ou remorso. Para a maioria das crianças, é difícil lidar com o fato de estarem no centro de uma briga entre as duas criaturas que elas mais amam no mundo.

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Imagem:
Constantin Émile Meunier (1831-1905), “Les Deux Amis”.

Mestre é aquele que ensina

Mestre é aquele que ensina, e triste é a sociedade na qual isso ainda precisa ser afirmado. 

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Fala-se muito, hoje em dia, que o professor deve exercer o papel de mediador entre o aluno e o conhecimento. Não concordo. E é nesse tipo de conceituação, estreitamente influenciada pelo movimento da Nova Escola nos modelos pedagógicos ao longo do século XX, que reside, a meu ver, a chave para a compreensão do grave problema educacional com o qual nos deparamos hoje.

Quando se fala em crise da educação, há muita coisa a ser discutida. Não é minha intenção aqui discutir tudo. E também não é minha intenção passar a ideia de que a educação escolar antiga não tinha lá seus problemas: autoritarismos, excessos disciplinares, desrespeito à pessoa da criança. Não estou aqui para romantismos passadistas. Mas o fato indiscutível é que, no processo de crítica, o movimento escola novista jogou o bebê fora junto com a água do banho. E esse erro não será corrigido enquanto não redimensionarmos o papel do professor, purificando a discussão de todas as falácias que costumam rondá-la. Se não restituirmos ao professor o lugar que lhe é devido, continuaremos falhando no objetivo de transmitir às crianças, e principalmente àquelas que vêm dos meios sociais menos favorecidos, o legado das disciplinas que compõem o currículo escolar. 

Professor não é mediador. Professor é vetor: portador e condutor do conhecimento. Mas o professor hoje é instado, veementemente, a menosprezar o seu papel. Fico impressionada como certas frases absolutamente banais são aplaudidas e alçadas a princípios pedagógicos inquestionáveis. A educação vive o império do sentimentalismo ilógico. Menos do que a assumir de mangas arregaçadas a tarefa de ensinar, o professor hoje é convidado a “aprender enquanto ensina”, a ver “o aluno como protagonista do seu próprio processo de aprendizagem”, e a si mesmo, antes de tudo, como um “agente de transformação social”. 

A primeira frase é de uma banalidade acachapante. Toda e qualquer profissão, sem nenhuma exceção eu diria, traz no processo de seu exercício a possibilidade de se aprender alguma coisa e sempre mais. Um médico aprende a ser um médico melhor na medida em que interage com seus pacientes, ou seja, na medida em que exerce a medicina. Do mesmo modo, um engenheiro, um cantor, um entregador de pizzas, um policial… Qual é a novidade? Também é um truísmo dizer que o aluno é o protagonista de seu processo de aprendizagem: se não fosse o aluno o protagonista da aprendizagem, quem seria? É em torno do aluno que se tece a trama do aprender, do mesmo modo, eu diria, como é em torno do professor que se tece a trama do ensinar. Mais uma obviedade piegas.

Já a terceira frase está na fronteira entre a megalomania e a tirania. Professor agente de transformação social? Há aqui dois problemas. O primeiro é ético. Se o professor for pensado como um agente de transformação social, o aluno será pensado como um instrumento político. Tratar alunos, ou qualquer outra classe de pessoas, como instrumentos, não me parece muito bonito. O segundo problema é que, antes de visar a qualquer transformação social, o professor deveria, isso sim, visar à transformação pessoal do aluno.

Os pais matriculam seus filhos na escola porque entendem que o professor será capaz de lhes ensinar aquilo que eles próprios, por falta de qualificação ou por força das circunstâncias, não são capazes de ensinar. O que eles desejam, para os filhos, é a transformação interna que se dá quando todo aquele que ignora ou desconhece alguma coisa passa a saber ou a conhecer. Em suma, os pais acreditam que o professor pode ajudar seu filho a se tornar uma pessoa instruída nos saberes escolares. Em que momento a sociedade deu à escola a autorização para transformar o aluno em um instrumento de transformação social no sentido político do termo? Famílias de camadas médias e altas têm a possibilidade de escolher a escola de seus filhos de acordo com a sua visão de mundo e de educação. Mas o que dizer dos mais pobres, que precisam recorrer à escola pública? Alguém lhes perguntou que papel eles conferem ao professor?

A escola ocidental, tal como ela se constitui hoje como instituição, nasceu de um esforço de universalizar a transmissão do legado de gerações e gerações de homens sábios e dedicados, célebres ou anônimos, que souberam dedicar a sua vida à construção de uma civilização em que os saberes são oferecidos a todos os indivíduos sem que eles precisem fazer parte de sua concepção e produção. Nesse sentido, como disse o Abade de Clunny: “Somos anões no ombro de gigantes.” E os professores, o que eles são? Nada menos do que a nossa escada.

Diante disso, conceber o professor como um mero mediador é tirar da criança a vantagem que ela possui por ter nascido hoje, e não ter tido ela mesma que inventar a roda ou a teoria dos números. Quaisquer que sejam os métodos empregados, sejam mais ou menos ativos do ponto de vista da criança, o professor jamais será um mero mediador. Ele precisa estar ali, com a sua presença, a sua voz, a sua qualificação. E isso não só porque é seu ofício e seu dever ensinar o que sabe, mas também porque é na relação entre professor e aluno que se produz a centelha do verdadeiro aprendizado.

A relação entre professor e aluno é uma relação pessoal. O bom professor é capaz de se colocar no lugar do aluno, identificar-se com ele, ajustar-se ao seu ponto de observação e, ali estando, buscar o melhor meio de levá-lo a aprender. E, para fazer isso, ele precisa mobilizar não só o seu conjunto de saberes, mas também o seu repertório de qualidades humanas, tudo isso emoldurado por um genuíno entusiasmo pelo conhecimento. Sim, porque é o próprio conhecimento que deve estar no centro. É o conhecimento – que será transmitido pelo professor e assimilado pelo aluno, nos dois casos de maneira personalizada – o valor a ser perseguido. Perdendo-se isso, perde-se tudo. Quando o conhecimento – no sentido do patrimônio de saberes que hoje se veem distribuídos e organizados em disciplinas – deixa de ser o principal bem a ser oferecido pela escola, abrimos mão do essencial para ficar com o acessório. E tudo passa então a ser política.

Todos nós já tivemos oportunidade de constatar, com nossa própria experiência, que se aprende melhor com professores que admiramos por seu saber e por suas características pessoais. Uma escola pode ter os melhores materiais, as mais avançadas tecnologias e métodos; se não tiver bons professores, professores admiráveis, capazes de servir de modelo e de referência, a verdadeira aprendizagem não acontece. 

Ensinar é fazer compreender. E a experiência de aprender com um bom professor será sempre muito mais rica. Nenhum material bibliográfico ou concreto pode substituir o verdadeiro mestre. Simplesmente porque vai faltar aquele elemento humano, o olho no olho, a relação, a vontade de imitar, de chegar perto de onde ele chegou. Nenhuma criança vai mimetizar um autor que nunca viu ou uma placa de material dourado de madeira. O aluno só precisa acreditar que vale a pena saber as coisas que o seu professor sabe. Porque o conhecimento pode ser, por si só, um motivo de alegria e de satisfação.

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Imagem:

Albert Bettanyer, “Les taches sombres.” 

 

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A escolha da escola de educação infantil: critérios incontornáveis

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A educação da afetividade nos primeiros seis anos de vida

O conceito de educação que baseia todo o meu trabalho, no blog e nas redes sociais, tem como referência iluminadora a tradição clássica, não em seus métodos, mas em sua motivação principal, que é a de colocar a criança ou o jovem no caminho da autoconsciência e da excelência moral. Nesse sentido, minha perspectiva se distancia tanto de uma visão pragmática de educação, centrada na ideia de utilidade, quanto de uma visão libertária, centrada na ideia de auto-satisfação individual. Ambas são, a meu ver, demasiadamente medíocres em seus objetivos. Penso que nós, humanos, devemos almejar mais do que isso.

É, portanto, tendo em vista a busca da excelência moral que se deve entender a minha formulação, já tantas vezes reiterada, de que “educar uma criança não consiste em dominar a sua natureza, e sim em conduzi-la, sempre e incansavelmente, para a frente e para o alto, ou seja, para o melhor de si mesma”.

Mas como colocar em ação esse projeto de educação nos primeiros anos de vida? O que significa exatamente educar para a excelência moral em período de tamanha imaturidade? Em primeiro lugar, é preciso compreender que a excelência moral não é um ponto de chegada, que possamos descrever ou caracterizar previamente, e de maneira concreta. Ela deve ser, antes, um norte, uma direção, que imprimimos à educação da criança sem deixar de levar em conta a sua própria individualidade. No sentido educacional, a excelência moral será específica para cada pessoa. E, para ajudarmos a criança a encontrar o seu caminho, devemos começar pela base, pelo plano dos afetos.

Na fase de extrema dependência que se estende do nascimento aos seis anos de idade, a preocupação fundamental de quem educa deve ser com a organização da afetividade da criança. Nesse período, todos os outros objetivos educacionais – aprendizagens sociais, formação de hábitos, construção do imaginário, desenvolvimentos cognitivo e motor – devem estar subsumidos no objetivo de ajudar a criança a construir um caminho interno que a leve gradativamente a conhecer os seus afetos e a manejá-los de forma relativamente segura. Isso tudo, é claro, com muita paciência, dentro dos limites impostos por sua imaturidade.

A organização afetiva é parte integrante do processo de amadurecimento e, sendo assim, não podemos ajudar a criança a se organizar afetivamente pressupondo uma maturidade que ela ainda não possui. A natureza faz a sua parte, predispondo a criança à maturação, mas cabe aos educadores colaborarem ativamente com o processo de organização dos afetos, de modo que ele se integre ao desenvolvimento da linguagem, da memória, do imaginário e da volição. Em outras palavras, de modo que ele se integre a um quadro cultural e existencial mais amplo.

A criança pequena é governada pelos afetos, e os afetos costumam se expressar por meio de suas emoções correlatas. Entendo por “afetos”, aqui, as disposições internas que determinam o modo como a criança será afetada pelas informações e estímulos que colhe do mundo. Essas disposições têm base em sua própria constituição individual e nas experiências que ela já viveu. A “afetividade” seria o sistema, a configuração resultante do modo como os afetos estão organizados no psiquismo da criança. E as “emoções” seriam as expressões psicofísicas do fato de ela estar sendo afetada por algo. Quero esclarecer que apresento essas definições de maneira bem livre, e faço uso delas do modo que me parece mais útil para o nosso propósito, que é o de compreender como podemos ajudar no processo de organização da afetividade infantil.

Então, voltando ao nosso ponto: nessa definição, os afetos são tudo o que a criança pequena possui para receber e absorver as impressões que lhe chegam do mundo, impressões as quais ela expressa por meio das emoções. Para conhecer a vida afetiva da criança, é fundamental, assim, que prestemos atenção à sua vida emocional. As emoções são os elementos observáveis, materializáveis, a partir dos quais poderemos de fato atuar. E, inicialmente, para ajudar a criança em seu processo de organização afetiva, é preciso partir da análise da observação das emoções mais básicas. Do que ela gosta, e do que não gosta? O que a faz ficar triste ou alegre? Do que tem medo? O que desperta a sua raiva? Ajudar a criança a transitar no território dessas emoções é dar os primeiros passos na direção do autoconhecimento, da compreensão de si mesma.

Resumindo, podemos dizer que auxiliar a criança em seu processo de organização afetiva consiste, inicialmente, em ajudá-la a conhecer as suas emoções, a nomeá-las, a identificar as suas causas, a sua origem, e a conectar esse conhecimento à sua capacidade de decisão. No decorrer das interações cotidianas, devemos mostrar à criança, suave e naturalmente, que existe a possibilidade de exercer um domínio relativo sobre as suas emoções, ou, pelo menos, de manejá-las de maneira consciente e equilibrada, frente aos limites inevitáveis apresentados pela vida. Tais limites podem ser postos tanto pela própria estrutura da realidade, quanto pela ação dos pais no exercício de sua autoridade. Em ambos os casos, a criança deve aprender a aceitar esses limites e a manejar conscientemente as emoções decorrentes dessa aceitação.

A partir dos dois anos, é importante também que a criança comece a ser apresentada a noções básicas de moralidade, a diferenciar o que é certo do que é errado, o que é justo do que é injusto, o que é adequado do que não é. Essa é a fase de começar a ouvir histórias que distinguem o Bem e o Mal de maneira inequívoca, por meio de personagens claramente definidos desse ponto de vista. O seu discernimento psicológico ainda é demasiadamente primitivo para que ela seja capaz de entender as complexidades da alma humana sem prejuízo do seu desenvolvimento moral.

Por fim, a criança, nessa idade, também deve ser estimulada a exercitar a capacidade de se colocar no lugar dos outros, a entender que não deve fazer com ninguém aquilo que não gostaria que fizessem com ela própria, ou seja, a desenvolver aquela atitude moral que costumamos chamar de “empatia”. Isso tudo será fundamental para que ela se torne capaz de lidar com as suas próprias frustrações e desenvolver o senso de dever.

Para que todo esse trabalho de organização da afetividade possa se realizar de maneira consistente e tranquila, é preciso contar com uma condição básica. A criança precisa se sentir segura de que é amada e protegida. Em dois artigos aqui no blog, mostrei que o amor dos adultos é a base sobre a qual ela se apoiará para dar os primeiros passos na direção de todas as aprendizagens que a vida vai lhe impor, começando pela organização da vida afetiva. (Leia A Importância do Apego e O Apego na Primeira Infância)

Tudo o que estou sugerindo pode parecer grave demais para uma criança de três, quatro anos. Mas não se trata de passar o dia inteiro chamando a atenção da criança para suas emoções, fazendo-a hiper consciente de si mesma o tempo todo. Trata-se, simplesmente, de não deixar passar as ocasiões que a interação cotidiana oferece para ensiná-la a se conhecer e a encontrar os seus pontos de equilíbrio. Também não estou dizendo, notem bem, que os pais têm o poder de organizar os afetos dos filhos. O processo de organização afetiva é algo que pertence à criança e que ela precisará administrar ao longo de toda a sua vida. A nossa responsabilidade, repito, é apenas a de auxiliá-la, ajudando-a a enquadrar a sua afetividade num ambiente moral mais amplo. 

A partir dos sete anos, aproximadamente, uma criança afetivamente bem cuidada e bem provida já estará em condições de dar alguns passos mais largos. Nesse momento, com a afetividade já organizada ainda que em um nível primário, o foco da educação dos afetos deve mudar um pouco. Não será uma mudança radical, apenas um deslocamento de ênfase. Uma vez que a criança já adquiriu as noções básicas de certo e errado, compreendeu que as coisas nem sempre podem ser do modo como ela deseja, e já percebeu que pode ter alguma ingerência sobre as suas próprias emoções, o processo de educação moral deve então ser infletido na direção da capacidade de agir no mundo. O ambiente da família, que é vivenciado pela criança como uma extensão afetiva de si mesma, continuará sendo por muito tempo o seu porto e o seu refúgio, mas agora ela precisa ir ampliando os seus horizontes de maneira gradativa e segura.    

Nessa nova fase, a criança deve então ser encorajada a desenvolver capacidades de ação, força e resistência para transitar em círculos sociais mais amplos, menos protegidos de maneira imediata pelos pais. Na escola de ensino fundamental, por exemplo, ela será confrontada com novas exigências, bem mais próximas das exigências da vida futura, e precisará desenvolver a sua força de vontade, a sua resiliência. É no contato com o mundo que será permanentemente animada e testada a sua fortaleza. E se o trabalho de organização da afetividade tiver sido bem conduzido nos primeiros anos, ela já terá meio caminho andado nesse sentido. A capacidade de lidar com as frustrações, de adiar o prazer, e de prever e manejar as suas próprias reações diante das intempéries do cotidiano social, representa uma mão na roda quando a criança começa a se deparar com a necessidade de se esforçar para superar obstáculos e fazer as suas primeiras conquistas realmente pessoais.

Para finalizar, tentando fechar o raciocínio, volto então à questão da excelência moral, com a qual iniciei esse artigo. Nós, pais, costumamos nos perder com muita facilidade ao longo da trajetória de condução de nossas crianças. São muitas as hesitações com as quais nos deparamos no meio do caminho, e que nos levam a duvidar de nossas próprias escolhas educacionais. O meu conselho é o seguinte. Mantenha o foco na formação da pessoa de seu filho. O que ele vai realizar, o que ele vai conquistar, depende fundamentalmente do modo como vai exercer a sua própria liberdade no momento oportuno. Não cabe a você decidir. Por isso, tenha sempre em mente que o que realmente importa é a sua qualidade moral, a sua força pessoal. De nada serve uma inteligência brilhante, uma cultura grandiosa, uma instrução impecável, sem autoconsciência e auto domínio. E isso porque o desenvolvimento moral não se refere somente ao discernimento entre o Bem e o Mal. Ele se refere, sobretudo, à nossa capacidade de colocar uma certa noção de Bem acima de nossos desejos e interesses individuais. Essa capacidade é o único sinal inequívoco de uma educação elevada.  

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Imagem: Donald Zolan (1937-2009)

A escola de Ensino Fundamental: alguns cuidados na hora da escolha

Na hora de escolher a escola de primeiro ano para o seu filho, a primeira preocupação deve ser a de discernir qual é o compromisso fundamental da instituição: transmitir conhecimento ou “transformar a sociedade”? Se for transformar a sociedade, elimine de seu leque de opções. Concentre-se nas outras. Explico por quê.

Dificilmente se encontrará hoje em dia uma escola (elas existem, mas são muito poucas) que não traga em sua carta de apresentação, por exemplo, frases como “formar cidadãos críticos”, “atuantes na sua comunidade” e coisas do tipo. Essas frases não são problemáticas em si mesmas e até soam bonitinhas. Quem não quer que seu filho se torne uma pessoa com capacidade crítica e apta a atuar de maneira positiva para melhorar a vida de sua comunidade ou sociedade? Mas o ponto crucial é precisamente a visão da escola acerca de como se forma o tal do espírito crítico. Em geral, quando a escola se coloca essa tarefa em primeiro lugar, é porque entende como “espírito crítico” uma visão de mundo e de sociedade já formatada e que será passada ao aluno sem que ele próprio tenha acesso, justamente, aos meios de criticá-la. Como formulou, com precisão, Catherine L´Eccuyer:

“É curioso que, embora haja uma obsessão para que os alunos sejam ´críticos`, tenhamos tanta alergia à transmissão de critérios. É quando o espírito crítico se torna um espírito caprichoso.”

Sim, pois não pode haver espírito crítico sem transmissão de critérios. E os critérios são formados ao longo dos anos escolares com base na aquisição de um patrimônio de conhecimentos que, por sua vez, se formou ao longo de séculos de trabalho intelectual abrangente e heterogêneo. Quando a escola se compromete com a formação de um espírito crítico sem comprometer-se, antes e sobretudo, com a transmissão desse patrimônio intelectual milenar, isso significa que ela está disposta a doutrinar seus alunos, ou seja, a transmitir a eles somente um tipo de critério, a corroborar apenas uma determinada visão de mundo e de sociedade. Em outras palavras, ela está disposta a alistá-los politicamente, a cercear na base a sua liberdade intelectual, a tratá-los como massa de manobra. Isso é o que acontece em boa parte das escolas de Ensino Fundamental hoje em dia. Os alunos saem da escola sem saber quem foi Camões, o escritor mais importante da língua portuguesa, mas perfeitamente encorajados a emitir sua opinião sobre processos políticos complexos sobre os quais não seriam capazes de responder três perguntas objetivas.  

Escolher a escola de Ensino Fundamental é bem mais difícil do que escolher a escola de Educação Infantil. No caso dessa última, os critérios são visíveis e quantificáveis (vejam o meu artigo sobre esse assunto). Já para a escolha da escola de 1º ano, você vai precisar usar a sua intuição, ler nas entrelinhas, perceber as motivações profundas envolvidas na prática pedagógica. Isso não é fácil. Por isso, a primeira providência é baixar as expectativas, controlar a ansiedade e observar tudo isso de um ponto de vista bem realista: a escola que você escolher não precisa ser a escola da vida inteira. A qualquer momento, você pode mudar de ideia e escolher outra, buscando aproximar-se cada vez mais de uma escolha correta, entendendo aqui como correta a escolha de uma escola que prioriza a transmissão de conhecimentos e a formação de um aluno que seja, ao fim do processo, capaz de pensar por si mesmo, e não saia simplesmente repetindo o jargão ideológico de seus professores.

Mas, para além da questão ideológica, existe ainda a questão da ordem e da disciplina. Uma escola sem ordem e sem disciplina pode, dependendo das circunstâncias, tornar-se uma fábrica de delinquentes. Crianças e jovens precisam de limites e de modelos dignos de autoridade. Além disso, sem ordem e sem disciplina a transmissão eficiente dos conhecimentos escolares se torna algo simplesmente impossível. E existem alguns critérios de que você pode lançar mão para tentar perceber se uma determinada escola está de fato estruturada de modo que o fluxo dessa transmissão se dê de maneira razoavelmente sólida e segura.

Primeiro ponto a ser observado: a escola possui uma carta disciplinar, ou seja, um conjunto de normas formuladas de maneira clara e sólida?  As regras de convivência são apresentadas de maneira explícita, bem como os mecanismos de correção e sanção a quem as desrespeitar? A autoridade do professor é garantida pela direção da escola? O que acontece com um aluno que xingar o professor, ou colocar um prego na cadeira do colega? A gestão dos conflitos é feita de forma a garantir aos alunos e professores, prioritariamente, um clima propício à aprendizagem? Se a escola não garantir que o ambiente escolar seja minimamente civilizado, todo o processo de transmissão de conteúdos fica prejudicado. A sala de aula precisa ser, no mínimo, um espaço seguro e organizado.

Segundo critério: a escola possui uma estratégia clara de avaliação da aprendizagem dos alunos? Essa estratégia é posta em prática de maneira regular e contínua? A avaliação é parte fundamental do processo de ensino e aprendizagem. Quando estamos falando de escola, ou seja, de uma transmissão de conhecimento em massa, não há como ter segurança a respeito do sucesso da aprendizagem sem mecanismos de avaliação regulares, e perfeitamente quantificáveis. A avaliação não diz respeito somente a testes e provas, principalmente se estamos falando dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Por exemplo, os cadernos dos alunos são vistos pela professora? Os trabalhinhos de casa são corrigidos? Os erros são somente apontados ou os alunos são levados a refazer o exercício e a consertá-los?  

Por fim, um terceiro critério: o sucesso acadêmico dos alunos da instituição. Procure saber se as crianças e jovens da escola prospectiva estão de fato aprendendo os seus conteúdos. Se for possível, peça para ver os cadernos. Mais importante que tudo, procure saber se os alunos dos anos mais avançados possuem uma escrita correta. Uma escola que se preza precisa se preocupar em ensinar corretamente a seus alunos a língua portuguesa, pois o conhecimento profundo de sua própria língua é o recurso mais relevante para que uma pessoa seja capaz de aprender com autonomia e se expressar com verdadeira liberdade.  

Perdoem-me se esse artigo for um pouco decepcionante, na medida em que não oferece a vocês uma lista de critérios perfeitamente observáveis em uma mera visita oficial à escola. Quadras poliesportivas, instrumentos tecnológicos, convênios com instituições internacionais, tudo isso é muito bom, mas acessório. Uma boa escola é aquela que valoriza o patrimônio de conhecimentos universais acumulados pelas gerações anteriores e estimula o desenvolvimento de habilidades que permitam o seu manejo inteligente e pessoalizado. E, para isso, basta uma sala de aula silenciosa e segura, e um professor bem preparado, bem intencionado e que valorize o conhecimento não como um instrumento político, e sim como um bem inalienável e precioso por si mesmo.

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Imagem:

Jean Geoffroy, “En classe, les travail des petits”

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A escolha da escola de educação infantil: critérios incontornáveis

Até os cinco anos de idade, o que a criança precisa é de acolhimento individualizado, tratamento cuidadoso e paciente, que respeite o seu temperamento e o seu ritmo próprio de desenvolvimento. E carinho, muito carinho. Nesse sentido, a escola deve de certa forma mimetizar o ambiente doméstico, como se fosse uma segunda casa para a criança. É fundamental que ela perceba que será cuidada e atendida em todas as suas necessidades.

A apresentação de conteúdos próprios à faixa etária, o estímulo ao desenvolvimento de habilidades cognitivas e sociais, a introdução à arte e à literatura, e o treinamento para as atividades de vida diária, que são parte integrante dos currículos da educação infantil, devem ser realizados, sempre, de modo a respeitar duas necessidades básicas da criança pequena – a de se sentir segura e a de ter liberdade para brincar.

Por isso, dois elementos fundamentais a serem pesquisados na hora de escolher uma escola de educação infantil são o espaço físico e o número de adultos por criança nas turmas. Em escola alguma a criança terá um atendimento tão individualizado como o que ela tem em casa, mas o número de adultos por criança numa escola é um indicativo seguro da disposição da escola de tratar as crianças com o cuidado necessário. E o espaço físico é importante por motivos óbvios: crianças pequenas precisam se movimentar, correr, desenvolver suas habilidades motoras. E isso, evidentemente, em um ambiente limpo, arejado e bem organizado.

Quando chega a idade de entrar na escola de ensino fundamental, a perspectiva deve ser outra. Nessa fase, a criança já estabeleceu, ou já deveria ter estabelecido, vínculos seguros com os pais e com outros adultos cuidadores, já confia na possibilidade de ser cuidada fora de casa, e já está mais preparada para ampliar o seu círculo de relações sociais e explorar novos ambientes. Sempre, é claro, sob a supervisão de adultos responsáveis e bem treinados.

Os critérios para a escolha da escola de ensino fundamental serão abordados em outro post.

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Autoridade: como entender e como exercer?

A dificuldade enfrentada pelos pais atuais para conduzir, de maneira firme e consciente, o processo de formação da pessoa dos filhos, nada mais é do que o efeito de uma crise de autoridade, que possui raízes intelectuais e culturais muito longínquas, e vem sendo aprofundada ao longo das últimas duas gerações. A análise desse processo mereceria um artigo inteiro. Neste texto, porém, quero apenas esclarecer a minha visão acerca da natureza e da função daquilo que chamamos de autoridade parental, e dar algumas indicações sobre as boas maneiras de exercê-la.

Educar uma criança é conduzi-la para fora de si mesma, de modo que ela desenvolva as suas melhores possibilidades pessoais na direção da bondade, da beleza, da justiça e da verdade. Para percorrer essa trajetória, que, sabemos, nunca será perfeitamente regular e retilínea, a criança precisa da ajuda do adulto. Sozinha, ela não conseguirá superar os seus próprios limites, controlar as suas más inclinações, transcender a perspectiva auto-referenciada característica do psiquismo infantil, para ajustar o seu caminho de modo a seguir sempre para a frente e para o alto.

Orientar a criança é dever intransferível dos pais. Com pouco tempo de vida, a própria criança já percebe a sua imaturidade e incapacidade de lidar com a realidade que a cerca. Ela logo se dá conta do quanto precisa de nossa mão experiente para guiá-la em seu percurso, e isso a predispõe, de saída, a aceitar, e mesmo a ansiar, pela autoridade dos pais. O diferencial, o que vai ser decisivo para que a percepção, por parte da criança, de sua própria fragilidade ontológica, seja transformada de fato em uma disposição para ouvir e seguir a orientação do adulto, é o modo como nos comportamos diante dessa tarefa. 

Para que esse processo de orientação e condução se torne mais fácil e suave, devem ser preenchidas duas condições básicas, relacionadas estritamente à conduta dos pais. Em primeiro lugar, é preciso que tenhamos segurança e firmeza. A segurança nasce da consciência da importância de nosso papel, e da aceitação de nossa grande responsabilidade, com todo o peso que ela possui. E a firmeza, por sua vez, se estabelece à medida em que conseguimos ter uma visão clara de nossos objetivos, ou seja, de onde queremos chegar. A outra condição é a nossa capacidade de oferecer bons exemplos para os nossos filhos, começando, obviamente, com o nosso próprio exemplo.

O adulto será, portanto, uma figura de autoridade, quanto mais ele puder ser percebido pela criança como um farol e um modelo, como alguém que ao mesmo tempo lhe sirva de guia e lhe desperte o impulso de se espelhar. É nesse sentido, portanto, que podemos dizer que, para uma educação norteada pelo desenvolvimento das virtudes, a autoridade emanará da própria virtude, da habilidade do adulto em demonstrar à criança o quanto ele é capaz de ser equilibrado, forte, justo, prudente.

Isso significa que todo bom educador é um adulto perfeitamente virtuoso? Claro que não, pois esse adulto perfeitamente virtuoso não existe! Mas significa, isso sim, que precisamos perseguir essas qualidades a todo custo, e colocá-las a serviço de nossa relação com a criança. O que vamos oferecer à criança, para que ela cresça, não é um conjunto pronto e objetificável de regras e modos de proceder. O que vamos oferecer a ela é, antes de mais nada, uma relação, na qual a criança poderá se apoiar para se tornar a melhor versão de si mesma.   

Essa forma de relação que construímos com a criança, para que ela se desenvolva na direção certa, será necessariamente uma relação assimétrica, em que um polo (o nosso) terá ao mesmo tempo mais poder e mais responsabilidade. E, para que essa relação de fato ajude a criança em sua trajetória, duas coisas se fazem necessárias. A primeira delas é a atenção. Se não prestarmos atenção em nossos filhos, se não os conhecermos, não seremos capazes de orientá-los da maneira certa e no momento certo. A segunda é a aceitação. Nossos filhos precisam estar sempre seguros de que nós os amamos do jeito que eles são, e de que embora estejamos aqui para ajudá-los a se desenvolverem em uma certa direção, isso não significa de modo algum que não sejamos capazes de aceitá-los incondicionalmente. Sentindo-se atendidos e aceitos, eles poderão repousar em nossa autoridade, para manejar com relativa tranquilidade seus próprios limites, dificuldades e más inclinações, e assim seguir adiante no processo de crescimento pessoal.

Acontece, porém, que mesmo que a nossa autoridade seja de fato apoiada em atitudes de justiça, prudência, bondade e equilíbrio, a criança nem sempre vai ter vontade de obedecer, simplesmente porque é da natureza da criança resistir, reagir – algumas mais, outras menos. As qualidades dos pais, por melhor que sejam, não representam uma garantia para o exercício da autoridade. Elas são, antes, o seu fundamento, o solo seguro no qual podemos exercer a nossa autoridade sem hesitação. E muitas vezes, para que nossa atuação seja eficaz, precisaremos estar preparados para conduzir ativamente a criança, levando-a a obedecer, a despeito de ela ser tomada, eventual ou frequentemente, pelo impulso de resistir.

Existe um saber bem consolidado a respeito de como levar a criança a obedecer sem desrespeitar a sua individualidade e quero indicar aqui um livro que me parece bastante completo nesse sentido. Trata-se de Carinho e Firmeza com os Filhos, do psiquiatra e psicoterapeuta Alexander Lyford-Pike, publicado em 2003. Nesse livro, Lyford-Pike nos ensina, tecnicamente, como estabelecer com nossos filhos uma comunicação eficaz, que iniba as más condutas, corrija as recalcitrâncias, e os leve a perceber que nossos atos sempre têm consequências. Não deixe de ler esse livro! Ele vai lhe ajudar a exercer a sua autoridade com paciência e segurança, sem nenhum receio de que ela possa se confundir com desrespeito e autoritarismo. 

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Imagem:

Vickie Wade, Father and Son First Bike Ride

As crises de oposição da criança: como lidar, o que fazer?

Toda vez que abro uma caixinha de perguntas no Instagram, aparece alguém com dúvida sobre como lidar com a birra da criança pequena. Quase que invariavelmente. Por esse motivo, resolvi esclarecer o meu pensamento acerca desse assunto com o nível de detalhamento que ele merece. Na verdade, no processo de escritura desse texto, eu me dei conta de que o que vou dizer aqui a respeito de como os pais devem se conduzir durante as crises de oposição poderia, de certa forma, ser estendido à questão mesma de como devem construir a sua relação de autoridade com os filhos.

A partir dos dois e até os três ou quatro anos de idade, a birra é um comportamento normal e esperado. O que estamos chamando de birra, aqui, é um tipo de reação em que a criança chora, estende o corpo no chão, esperneia, e parece impermeável a qualquer tentativa de apaziguamento por parte dos adultos, levando os pais a um nível de desespero que muitas vezes faz com que eles próprios se descontrolem. Quando a birra ocorre em público, é muito comum que os pais se sintam impotentes e constrangidos. Não obstante o fato de o protagonista da cena ser a criatura que eles mais amam no mundo, naquele momento, eles se sentem tomados por emoções muito negativas: irritação, vergonha, raiva.

Assim como a birra é um comportamento esperado, também é normal que os pais experimentem esse tipo de reação ao se perceberem impotentes. Porém, se você tem uma criança de dois ou três anos em casa, eu tenho uma boa notícia: você não é de fato impotente, existe luz no fim do túnel. Para deixar de se sentir impotente, é preciso apenas que você entenda o que está acontecendo com o seu filho quando ele tem um ataque de birra, e adquira algumas ferramentas conceituais que vão lhe ajudar a se conduzir de maneira correta e eficiente durante essas crises. Vamos, então, nessa sequência.

A criança pequena ainda não teve tempo de desenvolver a capacidade de se controlar, que depende da maturação de algumas estruturas psicofísicas. Por isso, ela tende a reagir de forma disruptiva, e até mesmo agressiva, às frustrações do dia a dia. Mesmo em condições educacionais extremamente favoráveis, ela não estará pronta para o autocontrole. Além disso, encorajada por uma relativa autonomia motora e linguística, e tranquilizada pelo fato do mundo não ser mais um lugar tão novo e estranho, a criança começa a testar de maneira contundente a sua própria autonomia. Agora, em muitas ocasiões, ela faz questão de explorar o seu entorno (pretensamente) sem amparo ou ajuda. Nos limites da diminuta esfera de vida que ela já conhece por hábito, nasce o impulso de exercitar a sua vontade. E isso está na origem de muitas frustrações, seja porque a criança nem sempre consegue fazer sozinha o que planeja, seja porque muitas vezes os pais precisam colocar freio em suas pretensões.

Em resumo, a birra nada mais é do que um efeito da incapacidade da criança de lidar com a frustração que lhe assalta sempre que seus desejos se chocam com a estrutura da realidade, tanto com a realidade em seus aspectos mais “naturais”, como quando a torre de lego cai ou um brinquedo se quebra, quanto em seus aspectos mais “culturais”, como quando os adultos impõem ativamente limites e regras à criança.

O impulso de autonomia nem sempre resulta em ataques de birra, mas, para a maioria das crianças, costuma se traduzir em atitudes de ardente teimosia. Elas passam a querer escolher sozinhas suas próprias roupas, insistem em fazer coisas sem ajuda, recusam-se a colocar o cinto de segurança ou a serem conduzidas pela mão na rua. Em outros casos, o impulso de autonomia pode se limitar à vontade de tomar decisões sobre a rotina. “Não quero comer”, “não vou tomar banho”. O fato é que, em algum momento a partir dos dois anos de idade, a maioria das crianças começa a dizer “não” de um modo que, aos adultos, parece quase obsessivo. Com ou sem birra, é preciso ter serenidade para lidar com a criança nessa fase.

A primeira coisa é não valorizar demais esses comportamentos, e não se intimidar com eles. Sim, eles fazem parte do processo natural de desenvolvimento de seu filho. Porém, isso não significa que você deva fazer vista grossa, simplesmente dar tempo ao tempo. Ao contrário. O nosso papel é auxiliar a natureza, de maneira consciente e ativa. A maturação de certas estruturas psicofísicas é um fator necessário, mas não suficiente, para a conquista do auto-controle. E, além disso, ela só se completa no final da adolescência. Os adultos que cuidam da criança precisam, portanto, fazer a sua parte, ensinando-a a lidar com as suas próprias frustrações, a comportar-se de maneira mais equilibrada diante de uma vontade não satisfeita.

O impulso natural da criança é na direção da maturidade, mas não é verdade que existem hoje em dia o que mais vemos por aí são adultos imaturos? Um adulto normal já não se joga no chão quando é impedido de fazer algo que deseja. Porém, quantos adultos não conhecemos que são incapazes de lidar com a frustração? Quantos não reagem à estrutura da realidade fazendo sempre algum tipo de birra e infernizando a vida de quem está à sua volta?

Mas voltemos às crianças.

Algumas crianças fazem mais birra que outras e, inicialmente, podemos dizer que isso está ligado às disposições do temperamento. Por que eu digo “inicialmente”? Porque, independentemente do temperamento da criança, fatores como o ambiente doméstico, as circunstâncias cotidianas e o modo como os pais se conduzem, podem ajudar ou atrapalhar o desenvolvimento do autocontrole. Existem crianças que, por sua própria natureza, tentarão impor a sua vontade mesmo que isso tenha um custo para elas. Porém, até a criança cordata, naturalmente pouco disposta ao conflito e ao enfrentamento com os pais, pode se tornar birrenta se for afetivamente negligenciada, tratada com permissividade excessiva, ou exposta diariamente a circunstâncias estressantes.

O que seriam, mais precisamente, circunstâncias estressantes? Assim como acontece com os adultos, a fome, o sono e a agitação excessiva são estados que costumam produzir irritabilidade. Por isso, a primeira providência educacional dos pais deve ser a de estabelecer uma rotina de alimentação, sono, higiene e lazer que restrinja as possibilidades de que a criança adentre esses estados fisiológicos de irritação que funcionam como gatilhos quase imediatos para a birra.

Mas o que fazer quando, mesmo controladas essas condições, a criança se joga no chão, chora de forma estridente, e se recusa a aceitar que as coisas não se passem exatamente como ela quer? Diante de uma criança fazendo birra, devemos sempre ter em mente que o nosso papel é ajudá-la a desenvolver a capacidade de se acalmar e se controlar. Devemos administrar os ataques de birra como situações de aprendizagem para a criança. Nossa tarefa é ajudar a criança a compreender e organizar as suas próprias emoções, e mostrar a ela que é possível recuperar o equilíbrio perdido diante de uma frustração inevitável.

Na hora da crise, fique junto de seu filho, conectado, não o abandone. Abrace-o para acalmá-lo ou simplesmente mantenha algum contato físico para que ele sinta a sua presença e a sua atenção. Deixe claro que você compreende o seu sentimento, embora não aprove o seu comportamento. Quando perceber que ele está um pouco mais calmo, e isso pode levar tempo, aí, sim, converse com ele e explique o que está se passando. Em uma linguagem acessível, diga que você entende que ele está frustrado mas que, na vida, as coisas nem sempre são como nós queremos. A estratégia pode ser resumida em conectar-se com a criança mantendo a sua perspectiva de adulto. Em outras palavras, você mostra que entende a sua chateação mas não sai correndo para dar o que ela quer.

Vamos imaginar a situação. A boneca se quebrou e a criança começa a ter um ataque. O que você faz? Corre desesperadamente para buscar a cola? Não. Quando agimos assim, a mensagem que estamos transmitindo à criança é a de que o problema ocorrido justifica o mau comportamento dela. A nossa missão é ajudá-la a sair do estado de descontrole para, em seguida, pensar em uma solução. Outra situação: a criança se joga no chão do shopping porque você não quer comprar um brinquedo. A solução é comprar o brinquedo? Claro que não. Até quando você vai suportar ficar refém dos desejos de seu filho toda vez que entra em uma loja? Você quer que ele aprenda que pode ter tudo o que quer? A equação é simples: se você correr para buscar a cola ou para comprar o brinquedo, o seu filho não vai aprender nada, não vai avançar na conquista do autocontrole, porque você estará atrapalhando o trabalho da natureza.

Diante de um ataque de birra nada é mais importante do que manter a calma e a serenidade, acolher a frustração da criança sem se deixar contaminar afetivamente. Não grite com ela, não a abandone. Mas não deixe que ela faça o que quer. Não recue! A não ser que a sua ordem ou limite tenha sido completamente sem sentido. Nesse caso, aí sim, é melhor dar um passo para trás. É melhor ceder do que ser injusto. A justiça é uma virtude, e os pais não devem jamais agir de maneira injusta. Por isso, antes de dar uma ordem ou colocar um limite, reflita. Escolha as batalhas que você considera realmente importantes. Não aja impulsivamente. Se queremos que nossos filhos desenvolvam a capacidade de autocontrole, temos que começar cuidando da nossa.

Imagem: 

“In Disgrace”, Charles Burton Barber (1845-1894) (detalhe).

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Como montar uma bela biblioteca para a criança pequena?

Ter acesso à boa literatura desde a mais tenra infância é fundamental para a estruturação do pensamento, o desenvolvimento da linguagem compreensiva e expressiva, a formação do imaginário, e a organização dos afetos. Acontece, porém, que a vida é corrida. Somos diariamente atropelados por diversos afazeres, e o projeto de montar uma boa biblioteca para crianças envolve um considerável esforço de reflexão, pesquisa e seleção. Foi por isso, precisamente, que resolvi ajudar você, com o ebook “Como Montar uma Bela Biblioteca para Seus Filhos (de um a seis anos): Guia Prático e Conceitual”.

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Quem conhece o meu trabalho sabe o quanto ele se pauta por uma atitude de atenção, cuidado e respeito pela pessoa da criança. O Guia segue essa mesma perspectiva, como não poderia deixar de ser. Não se trata apenas de ajudar você a montar uma biblioteca de qualidade para o seu filho. Trata-se, principalmente, de lhe fornecer um suporte conceitual para que essa biblioteca esteja comprometida com uma formação literária pessoal e intransferível.

Se você tem filhos entre um e seis anos e deseja proporcionar a eles esse tipo de experiência, não deixe de adquirir o Guia. São 43 páginas contendo informações, orientações conceituais, dicas práticas e duas listas de livros organizadas por faixa etária. Tudo cuidadosamente pensado e elaborado para que você possa entregar para cada uma das suas crianças, com muita segurança, o que há de melhor no universo dos livros infantis. Da melhor maneira e no melhor momento.

GUIA BELA BIBLIOTECA

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O que são fábulas e como apresentá-las à criança

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No artigo anterior, falei dos contos de fadas e sugeri uma lista de livros para apresentar às crianças esse gênero literário. Hoje, vamos falar das fábulas, um gênero portador de uma tradição ainda mais longa do que a dos contos de fadas. Com as fábulas, voltamos ao tempo da Grécia Antiga.

Trata-se de pequenas composições literárias protagonizadas na maioria dos casos por animais, e cujo desfecho contém um ensinamento sobre a vida, o comportamento humano e a realidade do mundo. Quem não conhece a história da cigarra que passou o verão cantando e no inverno teve que pedir abrigo à formiga trabalhadeira, que havia juntado provisões para o inverno e se recusava a dar? Ou a da lebre convencida que, achando que a corrida estava ganha, foi tirar um cochilo e, quando acordou, havia sido ultrapassada pela lenta, porém obstinada, tartaruga?

Em sua origem ocidental, as fábulas são histórias atribuídas a Esopo, escravo grego que teria vivido no século VI AC. Elas eram tão conhecidas e valorizadas na Grécia, que sua função educativa chegou a ser citada por Platão e Aristóteles. No século I da Era Cristã, as fábulas de Esopo foram escritas, em latim, por Fedro, escravo liberto do imperador Augusto. Posteriormente, no século XVII, foram recontadas em forma de verso pelo francês Jean de La Fontaine. E o mais incrível é que, assim como ocorre com os contos de fadas, o conteúdo das fábulas continua absolutamente atual.

Embora sejam em sua maioria animais, os personagens dessas histórias apresentam qualidades e defeitos tipicamente humanos. Por isso, La Fontaine dizia que a fábula “é uma pintura em que cada um de nós pode encontrar seu próprio retrato.” Sua leitura enriquece o imaginário e a compreensão da criança sobre as circunstâncias de sua vida, sobre ela mesma e sobre as pessoas que a cercam.

Porém, é preciso ter alguns cuidados ao apresentar as fábulas às crianças, para evitar que o seu imenso potencial educativo seja desperdiçado. Em comparação com os contos de fadas, as versões originais das fábulas exigem um pouco mais de maturidade, tanto pelo conteúdo quanto pela linguagem. Apesar de sempre estarem referenciadas a um ideal ético, as fábulas são mais realistas, elas nos falam da vida como ela é, expondo a mesquinharia e a corrupção que espreita todo coração humano. É importante que o adulto faça a mediação, ajudando a criança a assimilar bem a moral da fábula, tirando da história o seu ensinamento.

A linguagem concisa e direta empregada por fabulistas como Fedro, por exemplo, pode parecer desinteressante para crianças muito pequenas. Já a poesia de La Fontaine pode lhes ser demasiadamente difícil. Por isso, para os pequeninos, na faixa etária de três a cinco anos, vou indicar “Fábulas de Esopo Para os Mais Novinhos”, da Editora Usborne. As ilustrações de página inteira despertam a atenção e o interesse da criança, e as fábulas são recontadas em narrativas curtas, simples e divertidas, sem prejuízo do seu conteúdo original. Outra boa opção, com um texto um pouco mais extenso, mas ainda fartamente ilustrado, é o  Minhas Fábulas de Esopo, de Michael Morpurgo, editado pela Companhia das Letrinhas.

Para crianças de cinco anos em diante, indico “Fábulas de Esopo”, também da Companhia das Letrinhas. Essa edição é muito bonita, com ilustrações clássicas. Nessa idade, porém, elas também já podem ser apresentadas aos versos de La Fontaine. A edição da Martin Claret reúne suas mais importantes composições poéticas, traduzidas por escritores brasileiros, e ilustradas por J. J. Granville.

A leitura de Fedro, por sua vez, poderá ser aproveitada pela criança mais tarde, na medida de sua maturidade intelectual e linguística. Sugiro que você adquira o livro, selecione as fábulas que julgar mais oportunas e adequadas para o seu filho, e vá aos poucos ajudando-o a explorar o seu potencial.

Resumindo:

“Fábulas de Esopo Para os Mais Novinhos”, Edições Usborne

“Minhas Fábulas de Esopo”, Michael Morpurgo, Companhia das Letrinhas.

“Fábulas de Esopo”, Companhia das Letrinhas.

“Fábulas”, La Fontaine (Antologia). Martin Claret

“Fábulas”, Fedro. Editora Escala. (Veja na Estante Virtual)

Por fim, é preciso dizer que esse gênero literário está presentes em muitas culturas. Tratamos aqui das fábulas da tradição ocidental. À medida em que a criança for ampliando o seu conhecimento histórico e geográfico, ela pode ser apresentada a fábulas originadas em outras tradições literárias.

 

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Como montar uma bela biblioteca de contos de fadas para o seu filho


Já fiz um artigo aqui no blog a respeito dos gêneros literários que seu filho não pode deixar de conhecer. Tratei dos contos de fadas, das fábulas e da obra de Monteiro Lobato. Se você ainda não leu, clique aqui neste link para conhecer o meu argumento em detalhes. No texto de hoje, atendendo a pedidos, vou dar algumas dicas de livros de contos de fadas por faixa etária e, para introduzir o assunto, reproduzo o trecho relativo a esse gênero literário:

“Os Contos de Fadas têm origem no folclore medieval europeu. Ambientados em castelos, florestas ou pequenas aldeias, são povoados por fadas boas e bruxas más, aristocratas e plebeus, animais falantes e outros seres fantásticos que se relacionam com os humanos e contribuem, por meio de estratagemas ou encantamentos, para transformar o seu destino.

As narrativas orais dos camponeses medievais começaram a ser transpostas para a forma escrita a partir do século XII, mas foi com autores modernos como Charles Perrault (século XVII) e os irmãos Grimm (séculos XVIII/XIX) que elas adquiriram a feição que conhecemos hoje. As histórias originais eram mais violentas e trágicas do que as que contamos às nossas crianças. No processo de fixação dos contos na forma escrita, certos aspectos dos enredos e dos personagens foram sendo suavizados para se adaptar à sensibilidade urbana do leitor moderno.

Contudo, as histórias continuam muito atuais, pois tratam de temas centrais da experiência humana, como a angustiosa transição da infância para a vida adulta, o ciúme entre irmãos, a inveja da beleza, da riqueza e do sucesso, etc. Na maioria delas, o núcleo da narrativa é um conflito existencial: o herói ou a heroína buscam algum tipo de realização pessoal. No caminho, eles encontram obstáculos terríveis que precisam transpor.

Os contos de fadas cumprem ainda a importante função de acalmar a ansiedade infantil em relação à existência do perigo e do mal no mundo. O Bem e o Mal são apresentados de forma dicotômica, absoluta e explícita, permitindo às crianças trabalhar sua angústia de forma construtiva e otimista – porque nessas histórias, o Bem quase sempre vence. Os contos permitem, assim, à criança, organizar suas percepções e sentimentos, ao mesmo tempo em que ela é apresentada a arquétipos importantes da tradição ocidental.”

Explicado o porquê dos contos de fadas serem incontornáveis para a educação de seu filho, vamos então às dicas. Vou recomendar aqui quatro coletâneas que considero boas e adequadas, por faixa etária.

Para crianças entre 3 e 5 anos, sugiro “Meu Primeiro Livro de Contos de Fadas”, com adaptação de Mary Hoffman, publicado pela Cia das Letrinhas. Este livro é especialmente apropriado para as crianças pequenas tanto pela linguagem cuidadosa e mais acessível, quanto pela extensão abreviada das narrativas. Ele compreende quatorze contos de Grimm, Perrault, Andersen, Mme de Beaumont e Oscar Wild. A adaptação é da escritora britânica Mary Hoffman, que dedicou boa parte de sua carreira literária à divulgação de histórias clássicas.

Se o seu filho tem 5 anos ou mais, indico “Contos de Fadas”, da Clássicos Zahar, com apresentação de Ana Maria Machado. O livro reúne os mais conhecidos contos de Perrault, Grimm, Andersen, Joseph Jacob e outros, traduzidos a partir das versões escritas originais. São ao todo vinte contos. A edição é bem cuidada e fácil de manusear. Ideal para a leitura em voz alta, na hora de dormir.

Sugiro, porém, que você leia as histórias antes de narrá-las a seu filho. Pois, embora as versões apresentadas no livro tenham sido adaptadas à sensibilidade moderna, algumas ainda contêm elementos de violência física e moral que podem criar desconforto em nossos pequenos leitores. Você pode conversar com o seu filho sobre os trechos mais “pesados”, deixando que ele expresse as suas emoções a respeito, ou pode simplesmente  suavizar esses trechos durante a leitura e seguir adiante.

Recomendei esse volume para crianças maiores de cinco anos, por já serem mais amadurecidas tanto do ponto de vista afetivo, quanto em sua capacidade de separar fantasia de realidade. Estando mais maduras, elas poderão aproveitar melhor a beleza e a riqueza existencial contida nas histórias, sem grandes sobressaltos emocionais. De todo modo, cabe a você decidir quando apresentar cada conto ao seu filho, pois ninguém o conhece mais do que você.

Por fim, para famílias com crianças maiores, a partir dos seis, sete anos, recomendo os Fabulosos Livros Coloridos de Andrew Lang, que reúnem contos de diversos países e culturas. Recentemente, a Editora Concreta publicou o Livro Azul (37 contos), o Livro Vermelho (37 contos) e o Livro Verde (42 contos), com edições visualmente cuidadosas,  lindamente ilustradas. A princípio, eu os indico para crianças acima de seis anos porque, a meu ver, a linguagem e a extensão dos contos torna a sua assimilação mais difícil para as crianças menores. Em relação ao conteúdo, vale o mesmo que eu disse em relação à coletânea anterior. É bom que você leia os contos previamente, para que esteja preparado para fazer alguma mediação, caso seja necessário.

Esses títulos vão compor uma biblioteca de contos de fadas de alta qualidade e bem representativa. Pesquise preços, anote os títulos em sua lista de desejos. Se quiser ir ainda mais além, você pode comprar também a coletânea de contos de Charles Perrault, “Contos de Mamãe Gansa”, e “O Patinho Feio e Outras Historias”, de Hans Christian Andersen. E fique atento às publicações do blog. No próximo artigo, vou indicar antologias de fábulas para crianças, também especificadas por faixa etária. Até lá!

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Imagem:

Jessie Wilcox-Smith, João e o Pé de Feijão.