Como ajudar a criança a conquistar o autocontrole?

Ao longo dos primeiros anos de vida, no curso do processo de seu desenvolvimento afetivo e cognitivo, a criança vai se tornando gradativamente capaz de regular as suas emoções, tanto no que diz respeito às reações fisiológicas quanto ao comportamento social. Essa capacidade de auto-regulação da resposta emocional depende do desenvolvimento e da maturação de certas estruturas neurobiológicas.

Porém, como em tudo o que é humano, a educação, a influência do meio social, o ambiente de vida e, sobretudo, a relação da criança com seus cuidadores, também possuem um papel muito importante. Ou seja: precisamos ajudar a natureza em seu trabalho.

As bases neurobiológicas da auto-regulação emocional só se consolidam ao final da adolescência. Porém, isso não significa que o processo esteja definitivamente finalizado quando se adentra a fase adulta. Ao longo de toda a nossa vida, somos testados e submetidos a desafios emocionais inéditos, que podem nos desestruturar e exigir novas aprendizagens e reformulações. Pode ocorrer também que o processo não seja sido bem realizado, como constatamos ao nos relacionar com adultos imaturos, incapazes de controlar e administrar suas emoções frente a qualquer situação que lhes imponha a menor frustração. Não é muito difícil encontrar adultos que, diante de situações que exigem resiliência emocional, comportam-se como crianças.

Essa imaturidade pode resultar tanto de uma educação falha e ineficiente do ponto de vista da organização afetiva, quanto de problemas de natureza neuropsíquica que impactam os processos regulatórios, como ansiedade, impulsividade, irritabilidade, disfunções sensoriais, entre outros. Mas a questão é complexa, e é sempre muito bom lembrar que a simples observação de um padrão de comportamento emocional disruptivo ou desequilibrado, seja de uma criança ou adulto, não nos permite identificar as suas causas.

Porém, se, por lado, devemos evitar julgamentos desinformados sobre o comportamento de crianças cujas circunstâncias pessoais e familiares não conhecemos, por outro, enquanto pais e cuidadores devemos estar sempre atentos ao nosso papel de coadjuvantes do processo de regulação emocional daquelas que estão sob os nossos cuidados.

Em outras palavras, se é verdade que o fator educacional não é capaz de explicar tudo, isso não significa que ele não tenha uma importância considerável. A pergunta necessária é a seguinte: observado o fato de que, em alguns casos, a família precisará contar com a ajuda de um profissional especializado para melhor conduzir o processo, o que os pais de fato podem fazer para ajudar a criança a desenvolver a capacidade de se auto-regular da maneira mais adequada possível? Qual é a parte que nos cabe? Como devemos agir para ajudar a natureza? Nesse artigo, vou propor um passo-a-passo que, se bem implementado e adaptado às circunstâncias específicas de cada criança e cada família, pode nos ajudar a colocar em prática aquilo que se costuma chamar de co-regulação emocional. O processo de co-regulação consiste em emprestar a criança o nosso equilíbrio emocional para ajudá-la a construir o seu.

O primeiro movimento é o de exercitar a empatia. Devemos sempre nos esforçar ao máximo para, no contexto de situações de alarme ou stress envolvendo crianças, lembrar que estamos diante de um ser humano em desenvolvimento, que ainda depende em ampla medida dos aportes do meio para ser capaz de se auto-regular. E o meio somos nós. O primeiro passo é, portanto, compreender as motivações do comportamento disruptivo. Quais são as emoções em jogo? Se uma criança se joga no chão e faz uma birra homérica, a nossa capacidade de ajudá-la a extrair daquele episódio uma aprendizagem efetiva, que lhe permita conduzir-se melhor da próxima vez, depende primordialmente de termos compreendido o que se passou em seu campo emocional.

O segundo movimento é o da conexão. No momento da crise, devemos nos fazer presentes, por meio de contato visual e físico, mostrando à criança que o seu descontrole não nos desequilibra, e não nos torna incapazes de ajudá-la. Quando o seu filho tiver uma crise, chegue perto, abaixe-se para falar com ele.  Os contatos visual e físico geram uma sensação de conforto e proteção, e funcionam como pontos de apoio para a criança encontrar o seu equilíbrio. É claro que, para isso, precisamos estar com as nossas próprias emoções sob controle. Para ajudar nossos filhos, é necessária uma boa dose de serenidade e paciência, principalmente nesses momentos mais críticos. Tudo o que uma criança em estado de caos emocional não precisa é que juntemos o nosso caos ao dela.

Depois de acalmar a criança, acolhendo-a com carinho e apaziguando as intensas reações físicas que acompanham os ataques emocionais infantis, podemos então passar ao terceiro movimento, que é o da validação das emoções da criança. Por mais que sejam negativas, as emoções que deram origem à crise não devem ser tratadas como ilegítimas. Emoções negativas não são exclusividade das crianças. Nós também as temos. A diferença está (ou deveria estar) no fato de nós já termos desenvolvido a nossa capacidade de nos controlar.

Devemos conversar com a criança sobre o que aconteceu, nomear as emoções que estiveram ali presentes e deram origem ao comportamento disruptivo, explicar que essas emoções (medo, insegurança, raiva, frustração, que é um misto de raiva e tristeza) voltarão a aparecer muitas vezes e precisarão ser controladas.

Em seguida, passamos então ao quarto movimento, o de orientação. Aqui, ajudamos a criança a extrair um aprendizado de tudo o que aconteceu, com uma direção clara. Esse movimento só começará a ser realmente efetivo a partir dos 2 anos de idade, e precisará ser modulado de acordo com as motivações da birra. É a hora de nos colocarmos como figuras de autoridade, explicando à criança quais os limites que foram ultrapassados, no caso de uma birra de frustração ou desobediência; ou quais fantasias foram criadas, no caso de um ataque por medo ou insegurança.

O objetivo é levar a criança a compreender que existe uma distância entre o seu pensamento (o que ela quer, o que ela deseja, ou o que ela imagina), e a realidade do mundo, e que essa distância precisa ser respeitada. O recado a ser passado é algo mais ou menos assim: “Não podemos fazer tudo o que pensamos ou desejamos. Do mesmo modo como muitas vezes, criamos fantasmas e problemas que não habitam de fato a realidade.” Diga isso de um modo que seu filho seja capaz de compreender.

Esses quatro movimentos também podem nos ajudar a lidar com as crises emocionais de adolescentes. Quando um adolescente perde o controle, se não formos capazes de nos conectar com ele, mostrar que o compreendemos, e validar suas emoções, mesmo as mais negativas, a conversa dificilmente transcorrerá de maneira satisfatória, principalmente se tiver que ser dura. O fato de um adolescente já ter passado por um longo processo de educação não evitará que ele viva algumas crises. A adolescência é um período de transição, em que a vida psíquica passa por um processo de profunda reorganização estrutural. Toda mudança importante gera algum tipo de crise, e mesmo os adolescentes bem resolvidos e educados passarão por momentos emocionais difíceis. Nesses momentos, a nossa ajuda ainda pode ser muito benéfica.

É preciso dizer, contudo, que esses quatro movimentos não compõem uma técnica infalível. O que estou sugerindo aqui, portanto, não é uma fórmula. Antes, é um modelo, que vai lhe ajudar a organizar suas ideias antes de agir, com consciência de seus propósitos e dos efeitos de sua ação no tempo. O sucesso de nossa atuação vai depender de muitos fatores: do estado de nossas próprias emoções no momento, da reatividade emocional da criança e, sobretudo, da intensidade de nossa conexão emocional anterior com ela. Em ampla medida, é a qualidade da nossa relação com a criança que vai definir o quanto ela poderá ser beneficiada pela nossa ajuda

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Links Relacionados:

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Imagem: Cecrope Barilli, Mom and Child, 1870-71.

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