O apego na primeira infância

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A dependência extrema da criança pequena não resulta somente da necessidade de ser nutrida e fisicamente protegida. Incapaz de regular suas próprias emoções, ela também precisa contar com a mediação de um adulto para manter um estado de equilíbrio psíquico favorável ao seu desenvolvimento. Assim, durante toda a primeira infância, a criança se volta apaixonadamente para a mãe em busca dessa custódia afetiva da qual não pode prescindir. Até aproximadamente os cinco anos de idade, a figura materna será a sua fonte primordial de proteção e consolo.

Porém, para que tudo caminhe bem, é importante que a mãe esteja por perto e sensível às suas necessidades. Em outras palavras, é preciso que ela esteja disposta a se dedicar. O apego à figura materna será tanto mais seguro quanto melhor for a qualidade da resposta que a criança obtiver. E quanto mais seguro o apego, mais forte e preparada ela estará para viver as crises inevitáveis em seu processo de desenvolvimento.

Mas a natureza é realmente sábia. Como as circunstâncias da vida de uma mãe nunca são as ideais, a criança vem equipada com uma série de condutas inatas que lhe permitem exercer um papel ativo na obtenção dessa proximidade física e afetiva tão crucial. Essas condutas são denominadas na literatura de Comportamentos de Apego (Attachment Behaviours).

O primeiro ano
John Bowlby, cuja teoria já pincelei na postagem anterior, classifica os comportamentos de apego em dois tipos. De um lado estariam os comportamentos de sinalização, por meio dos quais o bebê busca atrair a atenção da mãe para que ela se aproxime, mantenha-se perto e ocupe-se dele. Os comportamentos de sinalização são os primeiros a aparecer no curso do desenvolvimento e predominam até aproximadamente os seis meses de idade. Os principais são o choro, o riso, a emissão de sons muito básicos e a busca de contato visual. Um pouco mais tarde, o bebê aprende a balbuciar e começa a estender os braços para pedir colo.

De outro lado, estariam os comportamentos de aproximação. A criança passa a utilizar seus próprios recursos de locomoção para buscar a proximidade de que tanto necessita. Esses comportamentos dependem de uma certa maturidade cognitiva e motora. Em geral, eles aparecem a partir do segundo semestre de vida, e passam a ocorrer concomitantemente aos comportamentos de sinalização. O bebê engatinha ou anda na direção da mãe quando ela se afasta. Segue-a pela casa e tenta escalar as suas pernas para ser pego no colo. Uma vez conquistado o colo, agarra-se ao corpo da mãe para não o perder. Pode afastar-se um pouco para realizar atividades exploratórias, mas logo retorna para verificar se ela ainda está por perto.

É muito comumo que a primeira palavra pronunciada pelo bebê seja “mamãe”. Dentro do quadro de referências da teoria do apego, é fácil compreender a enorme conquista que representa, para a criança, o fato de ser finalmente capaz de chamar a sua protetora!

Até o final do primeiro ano de vida, a criança cercada de atenção e cuidado materno já desenvolveu um vínculo de apego seguro com a mãe. Quando a presença do pai é consistente, ele também se torna uma referência importante de proteção e cuidado. E, paralelamente, a criança vai desenvolvendo apegos secundários às outras pessoas com as quais convive cotidianamente.

O segundo ano
No final do primeiro ano de vida, e ao longo de todo o segundo, outras mudanças importantes ocorrem. Aos poucos, a criança começa a desenvolver a consciência da possibilidade de um afastamento iminente da mãe e torna-se capaz de prevê-lo com base em sinais como a troca de roupa, uma bolsa pendurada no ombro, o barulho de chaves, ou mesmo com base em frases que ouve dos adultos. Nessa fase, ela está sempre atenta ao comportamento materno, procurando ler nos movimentos da mãe os menores indícios de que a proximidade tão desejada e necessária pode ser rompida.

A criança chora, por exemplo, na entrada da creche, no momento da separação, mesmo que a professora já represente uma figura de apego secundário. Mas se as pessoas responsáveis temporariamente pelo seu cuidado souberem consolá-la, tranquilizá-la e deixá-la segura, a ausência materna será mais suportável. É importante conversar com ela, explicar o que está se passando e o que vai se passar. Essas explicações não são frases lançadas ao vento. Ao contrário, são muito importantes para a construção da confiança e do vínculo com os adultos.

O terceiro ano
Ao longo do terceiro ano de vida, a criança começa a perceber que as outras pessoas também possuem sentimentos e motivações próprias. É possível lhe explicar, por exemplo, que a mãe precisa sair para trabalhar, mas que depois retornará e ficará muito feliz por estar com ela novamente.

Nessa fase, a criança também já adquiriu habilidades motoras, cognitivas e linguísticas que lhe permitem uma autonomia relativamente maior. É capaz de afastar-se voluntariamente da mãe por um tempo para brincar com coleguinhas ou para realizar uma atividade dirigida por outro adulto, desde que esteja em ambiente já conhecido. O importante passa a ser o seu grau de confiança no retorno da mãe e na qualidade dos cuidados que receberá durante a sua ausência.

Agora pode ser estabelecido, entre a mãe e a criança, um padrão de relação que Bowlby chamou de “parceria”. Dentro de certos limites definidos pelo seu universo linguístico e existencial, é perfeitamente viável conversar e argumentar com ela. Inicia-se aqui então uma nova etapa. Em condições satisfatórias de atenção e cuidado, o apego à mãe e às outras pessoas de referência já está segura e plenamente formado e a criança pode canalizar a maior parte de suas energias para as atividades de exploração.

Dos quatro anos em diante, portanto, amplia-se a sua perspectiva do mundo. Embora ainda seja muito dependente, e possua uma capacidade de auto regulação emocional precária, nessa idade a criança já consegue representar mentalmente a atenção e o cuidado materno, mesmo que esteja temporariamente longe da mãe. Assim, afetivamente segura e emocionalmente liberada pela certeza de que está protegida, ela pode investir sua vitalidade no aprendizado escolar e no alargamento de seu círculo de relações. Está pronta para os desafios e as explorações da segunda infância.

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Cécile Veilham, “Mon Tresor”
http://www.veilhan-cecile.book.fr

A importância do apego

 

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Desde que conheci a Teoria do Apego, desenvolvida pelo psicanalista e psiquiatra inglês John Bowlby (1907-1990) e por seus seguidores, penso no quanto seria importante que todos os candidatos a mães e pais a conhecessem antes do nascimento de seus filhos. Para se criar e educar bem uma criança, nada é mais importante do que estar consciente da natureza e da função do vínculo que se estabelece – ou deveria se estabelecer – entre ela e os adultos que a cercam. E é exatamente isso o que a Teoria do Apego nos esclarece.

John Bowlby dialoga com vários ramos do conhecimento: etologia, cibernética, psicologia do desenvolvimento e psicanálise. Mas a intenção aqui não é fazer uma apresentação acadêmica de suas ideias. Pretendo apenas compartilhar com os leitores do blog a minha leitura de sua teoria, uma leitura que focaliza os aspectos de maior relevância imediata para quem se ocupa de crianças pequenas no dia-a-dia.

Apego e cuidado

O bebê nasce absolutamente dependente do cuidado de outrem, sem o qual fatalmente perecerá. Naturalmente, essa função caberia à mãe biológica, que estaria mais equipada do que qualquer outra pessoa para exercê-la. Mas há casos em que, por fatores de ordem fisiológica, psíquica ou cultural, ela pode não estar preparada para esse papel. E também há casos em que a mãe está irremediavelmente ausente, por motivos de força maior.

Mas o bebê também vem equipado com um conjunto de comportamentos instintivos (isto é, padronizados) que visam evocar a atenção da mãe e manter a continuidade do contato físico após o nascimento. Ele sorri buscando contato visual quando ouve a sua voz, e protesta com choro quando ela o deixa sozinho. Estende os braços quando ela retorna, agarra-se ao seu corpo para não perder o colo. Mais crescidinho, ele chama a mãe quando ela se afasta, e a segue pela casa, engatinhando ou andando. Na falta ou na ausência da mãe, esses comportamentos serão direcionados à pessoa que a substitui, permanente ou ocasionalmente.

Bowlby explicou esse conjunto de comportamentos à luz do que denominou de Sistema de Apego (Attachment System). O objetivo seria manter a proximidade entre a criança e o adulto. Guardadas as individualidades de cada bebê, todos eles buscam naturalmente assegurar-se da presença de sua figura protetora. Certas condições fisiológicas (como fome, sede, mal-estar, dor e sono), bem como certas emoções (como medo, tristeza, angústia ou frustração), ameaçam o equilíbrio psicofísico da criança e ativam os seus mecanismos de alarme, demandando uma resposta acolhedora e tranquilizadora do adulto encarregado de seus cuidados. (Como esse adulto nem sempre será a mãe biológica, Bowlby preferiu usar o termo ´figura materna`. Para simplificar, eu direi ´mãe`.)

Mães atentas ou bem preparadas são mais capazes de reconhecer nos comportamentos de apego as necessidades de conforto e proteção de seu filho. É na dinâmica entre o apego da criança e o cuidado da mãe que se desenvolve o vínculo entre ambos. Ao satisfazer de maneira rotineira tais necessidades, a mãe torna-se uma base segura e confiável a partir da qual a criança pode explorar o seu ambiente e se desenvolver. E quanto mais segura da presença e do cuidado materno, mais preparada estará para ampliar, no momento certo, o seu círculo de relações afetivas.

As figuras de apego

Hoje em dia, diferentemente do que ocorria nos tempos de Bowlby, boa parte dos homens procura investir uma parte significativa de seu tempo na interação cotidiana com os filhos. O resultado disso é que, em boa parte das famílias, tanto o pai quanto a mãe estão em posição de se tornarem figuras principais de apego logo nos primeiros meses.

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Mas nos casos em que a mãe ou o pai não são presentes ou atuantes, seja porque precisam trabalhar o dia todo e não dispõem de tempo para os filhos, seja porque preferem mesmo delegar os seus cuidados a terceiros para se dedicar a outras atividades, os comportamentos de apego serão direcionados preferencialmente para a pessoa com quem a criança interage de forma mais constante e contínua. Essa será a sua principal referência, à qual ela tenderá a se reportar em caso de alarme ou stress.

Bowlby fez questão de frisar que a satisfação das necessidades fisiológicas e higiênicas da criança não é o fator que desencadeia o apego. Ou seja, a criança não se apega a uma pessoa simplesmente porque ela lhe dá comida ou troca a sua fralda. Embora a satisfação rotineira dessas necessidades seja muito importante para a sua estabilidade psicofísica, o que faz o bebê se apegar é a sensação de proteção que advém da interação espontânea, do contato visual face a face, da conversa carinhosa. O fator decisivo é a percepção, por parte da criança, de que o adulto está presente, disponível e atento às suas necessidades. Em suma, o bebê se apega à pessoa que lhe der mais atenção genuína.

É claro que, na fase inicial de extrema dependência, em que a criança precisa ser observada e cuidada o tempo todo, o adulto que se ocupa de sua alimentação, de sua higiene e dos outros pormenores ligados à segurança e ao bem-estar físico, estará em posição mais favorável à interação e, consequentemente, à criação de um vínculo de apego. Porém, se essa interação não for interessada, ou seja, se ela não for amorosa, o resultado será um apego instável e inseguro. Por isso, no melhor dos mundos para o bebê, ele passará a maior parte do seu dia sob os cuidados de alguém que o ame e que queira estar ao seu lado.

A formação do apego na primeira infância é tão importante que resolvi dedicar a esse tema uma série de postagens. Nas próximas, vou falar de como o apego se desenvolve no tempo, e de como, ajustando o nosso foco e afinando a nossa sensibilidade, podemos representar para os nossos filhos uma base segura a partir da qual eles vão explorar o mundo e desenvolver as suas melhores potencialidades.

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Imagens:
Cécile Veilham
http://www.veilhan-cecile.book.fr