Dois mitos sobre o desenvolvimento da autonomia na criança

 

Trent Gudmundsen - Tutt'Art@ (4)

É bem sabido que, ao longo da infância, as crianças precisam ter oportunidade de vivenciar situações que lhes permitam lidar com o sentimento de frustração. Porém, do mesmo modo como não é conveniente produzir um ambiente artificial que proteja nossos filhos de qualquer incômodo ou aborrecimento, também não devemos criar artifícios frustrantes apenas com o objetivo de educá-los. As próprias circunstâncias da vida, das quais nós, os pais, somos, na maioria das vezes, os representantes ou porta-vozes, se encarregam de colocar limites à ânsia infantil de satisfação plena.

Nesse artigo, quero falar sobre dois mitos que podem levar pais naturalmente amorosos e atenciosos a lidar de maneira incorreta com as necessidades emocionais de seus filhos. É muito difundida, por exemplo, a ideia de que “colo demais estraga a criança.” Isso não é verdade. Colo não “estraga” a criança, se entendermos “estragar” como “afetar negativamente o seu desenvolvimento rumo à maturidade emocional”. Nesse sentido, é justamente a falta de colo que se torna um problema. A criança procura o colo quando precisa de consolo, aconchego ou proteção. Negar-lhe isso é falta de cuidado e empatia.

A criança carente de atenção e cuidados precisa gastar muita energia tateando às cegas o caminho da auto estruturação emocional, ao passo que aquela que confia no amor dos pais fica liberada para expandir as capacidades que lhe permitirão conquistar a autonomia afetiva. Agora, se “estragar” significa simplesmente que a criança vai se acostumar com o colo e vai solicitá-lo sempre que precisar ou desejar, isso é a mais pura verdade. E é muito bom que seja assim. Nada melhor do que conhecer o mundo e se familiarizar com ele do alto dos ombros das pessoas em quem mais se confia.

A mesma linha de raciocínio pode ser aplicada na desconstrução de outra tese também muito difundida e equivocada, a saber, de que deixar a criança chorar à noite faz com que ela se torne independente e aprenda a dormir sozinha. Do absurdo dessa ideia só podemos concluir que seus defensores jamais se deram ao trabalho de investigar os motivos do choro infantil noturno; ou que, pelo menos, preferem não levar isso em consideração.

Até cerca de 4 meses de idade, aproximadamente, o bebê chora durante a noite porque precisa ser alimentado em intervalos curtos. No entanto, mesmo passada essa fase, e quando os ciclos das mamadas se tornam mais longos e ritmados pela alternância entre o dia e a noite, a maioria ainda continua a chorar. É perfeitamente natural que as crianças, assim como os adultos, tenham o sono interrompido algumas vezes durante a noite. Porém, enquanto nós conseguimos retomá-lo sem mesmo nos darmos conta desses leves despertares, a criança pequena tem dificuldade para voltar a dormir sozinha.

Tudo isso é questão de maturidade hormonal e neurológica. Não há quase nada a se fazer para mudar essa situação. Talvez a única providência interessante seja criar uma rotina diária que não deixe a criança muito agitada e que a leve, aos poucos, a internalizar os padrões de horários de sua família. No mais, é preciso dar tempo ao tempo.

Em geral, a maioria das crianças se torna capaz de dormir a noite inteira aos três ou quatro anos de idade. Para algumas, porém, essa conquista pode vir ainda mais tarde. Os métodos que prometem fazer com que toda e qualquer criança durma como um adulto precisam ser vistos com suspeição. Quando se trata de educação e criação de filhos, devemos sempre desconfiar das fórmulas genéricas e universais, que na maioria dos casos só servem para criar nos pais ansiedade e sensação de derrota, além de estressar as crianças.

O fato é que uma criança pequena, em geral, só se percebe segura se estiver perto de seus adultos de referência. Quando acorda à noite e nota que está só, sente-se desprotegida. Você já reparou que quando pensamos em um problema durante a noite ele sempre parece mais grave? O mesmo acontece com a solidão e os medos infantis. Por isso, deixar uma criança chorar à noite é negar a ela a proteção e o aconchego de que necessita justamente no momento do dia em que se imagina mais vulnerável.

Se uma criança acumula a experiência de ser deixada a chorar sozinha à noite, é possível que em alguns dias ela de fato pare de chorar, como argumentam os defensores dessa estratégia. Mas o que eles não dizem, ou não levam em consideração, é que isso tudo tem um preço. Ninguém pode acreditar honestamente que o choro da criança cessou porque ela encontrou na falta de resposta dos pais a chave para o desenvolvimento repentino de sua autonomia e independência. É bem mais plausível supor que ela desistiu de chorar porque entendeu que eles, definitivamente, não estão disponíveis para atendê-la naquela situação.

Não se trata de sugerir que os pais saiam correndo, desesperados, na direção da criança que chora no berço, como se fossem evitar uma tragédia. O importante é que lhe mostrem que estão sempre atentos às suas necessidades emocionais. Mas não há uma regra de como proceder na prática. Cada família deve criar as suas próprias estratégias, de acordo com o seu perfil e as suas particularidades.

Para muitas pessoas, ter que se levantar várias vezes à noite pode ser muito difícil, e até mesmo extenuante. Mas é sempre oportuno lembrar que criar bem uma criança requer uma boa dose de abnegação. De todos os sacrifícios que temos que fazer na vida, aqueles que realizamos pelos nossos filhos são os que mais valem a pena. Um dia eles serão capazes de dormir a noite inteira sem que precisemos confortá-los. E quando menos esperarmos já não caberão mais no colo. Será então gratificante saber que foi a nossa atenção que lhes propiciou a serenidade necessária para que aprendessem a enfrentar a vida apoiados em suas próprias pernas.

 

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A importância do apego

Por que o choro das crianças nunca deve ser ignorado?

 

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Trent Gudmundsen

Crescer de verdade: aprendendo a empatia e o autodomínio

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Volta e meia, aqui no blog, falo sobre ajudarmos nossos filhos a desenvolverem o autodomínio e a empatia. Embora o florescimento dessas capacidades esteja previsto no processo típico de amadurecimento que se desenrola durante a infância, a educação também possui um papel fundamental. Pois enquanto algumas crianças já estão naturalmente mais predispostas, por razões de temperamento, outras precisam de muito incentivo para atualizar de maneira satisfatória essas capacidades.

Principalmente no mundo de hoje, em que se celebra acima de tudo o utilitarismo, o individualismo, a impulsividade, e a busca sôfrega do prazer, uma criança mal orientada corre o risco de não conseguir, do ponto de vista cognitivo e emocional, crescer de verdade. Atualmente, o que mais vemos são adultos autocomplacentes, imaturos e cheios de vontades, que não conseguem adiar satisfação, sofrem por ter que fazer escolhas, tudo querem e tudo exigem para si. Adultos infantilizados que não suportam a estrutura da realidade, e vivem como se a ordem do mundo tivesse que se curvar aos seus desejos, e não o contrário.

Ora, para esse tipo de pessoa, tão característico de nossa época, qualquer projeto que implique controlar impulsos e aceitar perdas ou frustrações é experimentado como um fardo gigantesco. Isso se traduz na enorme dificuldade em lidar com relações que, por sua própria natureza, envolvem a necessidade de renunciar frequentemente à nossa própria satisfação para satisfazer as necessidades de outrem, como é o caso, sabidamente, das relações conjugais e parentais.

Mas, felizmente, enquanto nossos filhos estão debaixo de nossas asas, temos tempo hábil para defendê-los da cultura do infantilismo e do irrealismo, criando condições para que alcancem patamares mais elevados de autodomínio, consciência da realidade e de si mesmos. Precisamos levá-los a compreender que não podemos ter tudo o que desejamos, nem falar tudo o que pensamos; que todos os nossos atos e escolhas têm alguma consequência, e que lidar com isso não é nenhuma tragédia. Ao contrário: que é precisamente ao aceitar os limites dados pelas nossas circunstâncias – algumas herdadas, outras escolhidas – que nos tornamos capazes de nos projetar como seres realmente livres e autogovernados. Mas como transmitir-lhes essa mensagem?

As crianças aprendem valores e princípios morais de duas maneiras: pela assimilação dos preceitos que lhes são transmitidos (discursos) e pela imitação dos modelos que lhes são disponibilizados (exemplos). Depois de completados os dois primeiros anos de vida, já é perfeitamente viável conversar com elas, explicar por que essa ou aquela vontade não pode ser satisfeita naquele momento, ou mesmo por que certo desejo não poderá ser satisfeito jamais. Ensinar que, muitas vezes, vale a pena abrir mão de uma satisfação imediata em nome de outra mais duradoura ou de maior valor. Também já é possível, aproveitando o contexto de situações cotidianas muito simples, estimular a criança a observar e levar em conta a perspectiva dos outros. Tudo isso, é claro, dentro dos limites de sua capacidade cognitiva e de seu nível de compreensão linguística. Não devemos esperar que os pequenos reajam aos preceitos que lhes são passados com uma mudança imediata de comportamento. Educar é um projeto de longo prazo.

Porém, para a maioria das crianças, os preceitos não serão eficazes se não vierem acompanhados de exemplos consistentes.  A regra do “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço” pode até funcionar para algumas, mas não para a grande maioria. Isso é particularmente verdadeiro no caso da empatia, uma vez que o desenvolvimento dessa capacidade está estreitamente relacionado à qualidade da atenção parental. A criança não está plenamente pronta para agir movida pela empatia antes dos quatro anos de idade, mas ela tem a sua primeira lição a respeito do que significa “colocar-se no lugar dos outros” quando percebe que os pais são capazes de adivinhar os seus sentimentos e atender as suas necessidades. Nesta, sobretudo, mas também em todas as outras áreas da afetividade social, o seu comportamento vai sendo atualizado pela imitação do comportamento das pessoas encarregadas dos seus cuidados e às quais ela é apegada.

Mesmo levando em conta as variações individuais, sempre haverá imitação. Por isso, temos que tomar muito cuidado com o modo como nos comportamos e com as palavras que pronunciamos na frente das crianças. E nunca deixar de refletir sobre os seguintes pontos. Será que estamos, em alguma medida, impregnados, também nós mesmos, pela cultura do infantilismo e do irrealismo? Assumimos com coragem e maturidade a tarefa de dirigir a educação de nossos filhos? Eles encontram em casa bons modelos de adultos – e de pais? A quantas anda a nossa própria capacidade de autodomínio? Que exemplo lhes damos quando somos expostos a uma frustração? Temos sido capazes de compreender os seus estados emocionais e de nos fazer presentes sempre que eles precisam, mesmo que isso signifique alterar substancialmente as nossas agendas?

Somos imperfeitos e sempre passíveis de errar. Aceitar esse fato também é sinal de equilíbrio e sabedoria. Mas ao refletir e tomar consciência das falhas de nossa própria formação afetiva, podemos elevar as nossas expectativas e crescer na temperança junto com os nossos filhos. A busca permanente do aperfeiçoamento pessoal é a parte mais difícil da tarefa de quem educa. Mas não deixa, por isso, de ser gratificante. Nossas crianças têm este imenso poder: fazer com que nos tornemos pessoas melhores.

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Vickie Wade, “Dad`s Helper”.

O teste da (sua) atenção

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Cada criança é um indivíduo único no mundo. Jamais encontraremos duas que se comportem exatamente do mesmo modo. Até aí, nenhuma novidade. Porém, ainda assim, poucas pessoas se dão conta de que não é possível falar em educação, principalmente em educação doméstica, se o fator individualidade não for levado seriamente em consideração. Para que possamos bem orientar nossos filhos, precisamos, antes de tudo, percebê-los como eles são. E construir, por meio da constância da nossa presença e do nosso cuidado cotidiano, um conhecimento compreensivo acerca de suas formas de estar no mundo, de seus modos típicos de sentir e reagir, de seus limites, de suas potencialidades. Quem tem mais de um filho sabe perfeitamente: o que funciona com um, não funcionará necessariamente com o outro. E o motivo é simples: pessoas são singularidades, e educar uma criança consiste em fazê-la realizar a sua condição singular do modo mais elevado possível.

Por outro lado, há uma característica comum a todas as crianças pequenas e que está ligada não ao domínio do temperamento, e sim à sua condição de pessoas ainda em formação, ou seja, à sua imaturidade física e cognitiva. Elas são naturalmente inseguras: assustam-se com facilidade, temem gente estranha, e por isso estão sempre buscando estar próximas de nós, e atrair o nosso olhar. Percebem-se extremamente dependentes de nossa intervenção em suas vidas, mas não conseguem representar mentalmente o afeto e o cuidado que lhes dispensamos. Essas características estão interconectadas e compõem o pano de fundo que todo pai e toda mãe de criança de menos de 4 ou 5 anos já conhece: para elas, é tudo ou nada, e só vale o aqui e agora.

Por mais que nossos filhos sejam bem atendidos e bem cuidados, muitas vezes, quando não estamos disponíveis naquele momento exato em que solicitam a nossa atenção, eles sentem e reagem como se o seu pequeno mundo estivesse a desmoronar. E isso não ocorre por mero capricho. Como Charlotte Mason formulou, há cerca de um século, em seu livro “Formation of Character”, ao contrário de nós, adultos, as crianças prescindem da experiência de vida que nos traz a esperança de que as coisas podem melhorar. E como são ainda incapazes de regular suas próprias emoções, elas se desesperam e se descontrolam. Por isso, enquanto realizamos a tarefa fundamental de ajudar nossos filhos a desenvolver o auto-controle e a empatia, capacidades tão importantes para uma vida adulta equilibrada, eles permanecem, por longos anos, extremamente dependentes de nossa atenção e da sensação de segurança que ela produz.

A verdade, porém, é que nem sempre conseguimos dar a eles toda a atenção que julgamos necessária, seja por razões de ordem interna (podemos estar cansados, preocupados, deprimidos, mal-humorados), seja devido às demandas externas, que muitas vezes nos atropelam e nos levam a deslocar o foco. Mas, ainda assim, vamos levando, com pequenos ajustes aqui e acolá. Pais realmente comprometidos e dedicados estão sempre tentando se superar para equilibrar as coisas de modo a favorecer as crianças. Isso não significa satisfazer todas as suas vontades, nem fazer com que se sintam o centro do mundo, e sim garantir condições de segurança emocional para que elas possam se desenvolver sem obstáculos afetivos muito impactantes.

Porém, o que dizer daquelas fases em que percebemos que o comportamento de nosso filho se desviou consideravelmente do padrão? Quando uma criança naturalmente serena e confiante amanhece um dia muito nervosa e insegura, assim permanecendo por um longo período? Ou quando uma criança apenas ligeiramente agitada torna-se de repente uma força da natureza impossível de se controlar, opondo-se a tudo e a todos com agressividade? Ou quando aquela, que é naturalmente atenta e solícita, mostra-se apática e desinteressada de tudo? Vários fatores podem levar uma criança a apresentar um comportamento fora da curva, que nos leve a suspeitar que algo está errado. O que fazer então?

Desde que descartada a possibilidade de uma causa física, antes de procurar ajuda ou aconselhamento, sugiro que você faça o teste da atenção. Ele consiste, simplesmente, em trabalhar com a hipótese de que seu filho esteja precisando ficar mais tempo com você. Intensifique a sua presença e a sua interação com ele. Dê-lhe atenção concentrada durante algumas horas, um suplemento de colo e de carinho, além do habitual. Converse, mostre-se disponível, leve para passear. Muitas vezes, você verá, um pequeno ajuste no foco já é suficiente para normalizar a situação e fazê-lo reencontrar o eixo.

Se, após essa intervenção, a criança voltar ao seu padrão habitual de comportamento, isso pode significar que você, de fato, andou ligando o piloto automático. Mas não necessariamente. É possível, também, que a alteração tenha sido deflagrada por outro fator, por algo que talvez estivesse mesmo fora de sua alçada. De todo modo, qualquer que tenha sido o motivo, só você (pai ou mãe) poderia tê-la ajudado a recuperar a estabilidade perdida.

Nossos filhos precisam ter a certeza de que podem repousar em nosso amor, sempre que precisarem. E a atenção é a forma como o amor se exprime aos olhos da criança pequena.

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Imagem: 

Lilla Cabot Perry (1848-1933), “My Lamb”, 1912.

 

 

Dica simples para ensinar seu filho a lidar com a frustração

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Se você está lendo este texto, é porque se preocupa com a formação afetiva de seu filho e quer ajudá-lo a se tornar uma pessoa equilibrada. Mas esse é precisamente o aspecto do trabalho parental que costuma vir mais acompanhado de dúvidas e hesitações. A maioria dos pais se pergunta, por exemplo: como agir naquelas situações em que a criança perde o controle de si mesma por não ser capaz de lidar com alguma frustração? Estou falando daquele tipo de comportamento que costumamos chamar de “chilique”.

Não está em nosso poder definir a configuração afetiva de nossos filhos quando adultos. Mas é, sim, nosso papel ajudá-los em duas conquistas fundamentais: a autoconsciência e o autocontrole. Sem esse auxílio, o caminho deles pode ser muito mais árduo e tortuoso. E, dependendo do temperamento da criança, corremos o risco de ver o chilique se cristalizar como padrão de reação vida afora. Afinal de contas, quem não conhece adultos incapazes de lidar com frustrações sem perder o controle de si mesmos…?

Mas como ajudar a criança nesse sentido? Se você é leitor assíduo de meus textos, já sabe que eu não acredito em fórmulas educacionais prontas e universais. Cada criança é um indivíduo único no mundo e o que funciona com uma não funcionará necessariamente com outra.

Recentemente, porém, me deparei com uma dica simples e útil. Ela me pareceu tão interessante que resolvi compartilhá-la aqui. Encontrei-a num artigo intitulado “Como desarmar o chilique de um filho com uma pergunta”, de autoria de Fabiana Santos, e publicado no blog “Tudo Sobre Minha Mãe”. Transcrevo o trecho central:

“(…) quando um chilique começar – seja porque o braço da boneca saiu do lugar, seja porque está na hora de dormir, seja porque o dever de casa não saiu do jeito que ela queria, seja porque ela não quer fazer uma tarefa – seja o motivo que for, podemos fazer a seguinte pergunta para a criança, olhando nos olhos dela e com bastante calma: “Isto é um problema grande, um problema médio ou um problema pequeno?

Aqueles momentos pensando a respeito do que está acontecendo à sua volta, sinceramente, pelo menos aqui em casa, se tornaram mágicos. E todas as vezes que faço a pergunta e ela responde, a gente dá um jeito de resolver o problema a partir da percepção dela de onde buscar a solução. Um pequeno sempre é rápido e tranquilo de resolver. Algum que ela considera médio, muito provavelmente será resolvido mas não na mesma hora e ela vai entender que há coisas que precisam de algum desdobramento para acontecer. Se um problema for grave – e obviamente que grave na cabeça de uma criança não pode ser algo a ser desprezado mesmo que para a gente pareça bobo – talvez seja preciso mais conversa e atenção para ela entender que há coisas que não saem exatamente como a gente quer.”

Levar a criança a refletir sobre o tamanho do problema, e a colocar-se em perspectiva de resolvê-lo, é uma estratégia bem interessante. Mas ela me parece particularmente indicada quando o descontrole surge a partir de uma situação com a qual a criança se deparou sozinha (um brinquedo que se desencaixa, uma atividade difícil de realizar). No caso de uma frustração resultante da ação dos pais ou de circunstâncias mais amplas, o cenário é um pouco mais complexo, porque entram em jogo questões de relacionamento, autoridade, hierarquia, respeito às regras. Há uma diferença clara entre perceber que um brinquedo desencaixado pode ser um problema de fácil solução e aceitar que está na hora de ir para a cama. Nesse último caso, não se trata tanto de dimensionar um problema, e sim da criança entender que há certas decisões que sempre caberão aos adultos.

Mas quando o motivo do descontrole não envolve questões de autoridade e respeito às regras, o mais importante é mesmo levá-la a prestar atenção no ocorrido e nos sentimentos que ele suscitou. Nem sempre o resultado da conversa será como desejamos. E é preciso inclusive ter a sensibilidade de avaliar se o estado de descontrole da criança permitirá que ela entenda o que você vai dizer. Sempre vale acalmá-la antes de propor a questão.

De todo modo, mesmo que a criança se recuse a responder, a pergunta sobre o tamanho do problema vai ficar reverberando em sua mente. Com o tempo, ela compreenderá que um problema sempre parece menor quando somos capazes de observá-lo à distância. E também perceberá que boa parte deles não merece tanto dispêndio de emoção e energia. Com isso, ela estará dando um passo importante na direção da auto regulação emocional e da construção de uma personalidade equilibrada.

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Imagem: 

Frederik Morgan (1847-1927), “Never mind”, 1881.

Por que o choro da criança nunca deve ser ignorado?

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O choro é a única forma eficaz de comunicação que a criança pequena possui. Até que a fala esteja desenvolvida a ponto de permitir que se expresse de maneira competente, ela vai chorar toda vez que estiver diante de uma situação que não pode enfrentar sozinha e que lhe causa um nível de stress físico ou emocional além de sua própria capacidade de auto regulação.

Não se deve esperar que uma criança seja capaz de substituir o choro pela comunicação verbal, ou por qualquer outro tipo de comunicação, antes dos 3 anos de idade. Mas a verdade é que poucas coisas incomodam tanto um adulto quanto o choro infantil. E isso não é à toa. Da mesma forma que as crianças são programadas pela natureza para chorar quando experimentam algum tipo de desconforto físico ou emocional, os adultos são programados para reagir ao choro com estratégias para fazê-lo cessar.

A primeira e mais natural reação da mãe que ouve o choro de seu filho pequeno é ir até ele, e pegá-lo no colo. É precisamente por ser estressante que o choro funciona como tem que funcionar: direcionando a atenção do adulto para a criança que chora e estimulando-o a entrar em campo no seu papel de mediador entre ela e o mundo.

Muitas vezes, porém, o choro se torna algo difícil de se lidar, principalmente quando as causas não são evidentes ou de fácil solução. Antes de mais nada, é preciso manter a calma. O fundamental é que a criança perceba que você está disponível e que ela terá a sua atenção. Se a causa for algum mal-estar físico, será preciso agir objetivamente, oferecendo o antídoto certo para o seu desconforto. Quando a criança chora porque está se sentindo só, desprotegida, entediada, ou porque se desestabilizou com algum estímulo externo, o choro tende a cessar quando ela é levada ao colo, aconchegada e (principalmente no caso do bebê novinho) embalada. Ouvir a voz dos pais também tem um efeito calmante.

Até o final do primeiro ano de vida, o choro é sempre sinal de algum desconforto físico ou emocional imediato. A partir dos doze meses, porém, o cenário se complica um pouco. Na medida em que adquire maior competência motora e cognitiva para explorar o ambiente que a cerca, a criança começa a ampliar a sua gama de necessidades. Ela passa a colecionar desejos que nem sempre podem ser satisfeitos. Surgem então outros tipos de choro, a que costumamos nos referir como “manha”, “birra”, ou “chilique”.

É sempre importante ter em mente que não existe choro sem motivo. Para uma criança pequena, ter que ir embora da pracinha, por exemplo, pode representar uma grande tragédia! Não obstante, existem motivos a que os adultos não podem ou não devem ceder. É preciso ensinar à criança que nem todos os seus desejos poderão ser satisfeitos, que existem limites ao que ela pode obter do mundo. Mas sempre de maneira gentil e acolhedora. Muitas vezes, basta distrair a criança para que ela esqueça o motivo do choro. Quando isso não ocorre, o melhor é tentar acalmá-la; de maneira afetuosa, porém firme.

Antes dos três anos de idade, a criança não é capaz de representar mentalmente o afeto e a atenção que recebe. Ela só entende os adultos com base na forma como eles se comportam: o que dizem, o que fazem, como reagem. Por isso, quando os pais simplesmente ignoram o seu choro, transmitem-lhe a mensagem de que ignoram os seus sentimentos, mesmo que isso não seja verdade. É preciso chegar junto da criança nesses momentos, conversar com ela e ajudá-la a compreender as suas próprias emoções e reações.

Voltando ao exemplo da saída da pracinha: você pode lhe dizer, por exemplo, que entende o seu aborrecimento, mas que é realmente necessário voltar para casa, e que a pracinha estará lá, no mesmo lugar, quando ela retornar no dia seguinte. Talvez ela não pare logo de chorar, mas certamente vai aprender que existe uma conexão entre aquilo que sente e a forma como reage. Conhecer suas próprias emoções é um passo importante para que ela aprenda a lidar com as frustrações.

Para resumir, o choro é uma janela que nos permite ver o mundo com os olhos da criança, nos dá acesso ao seu universo afetivo e nos possibilita guiá-la na direção do autoconhecimento e da auto regulação emocional. Se você conseguir encará-lo dessa forma, vai lidar com ele com muito mais segurança e tranquilidade.

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Imagem:

Lilla Cabot Perry (1848 – 1933), “Mère et enfant”, 1910.

Entre o apego e a exploração

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Desde os primeiros dias de vida, o bebê observa o seu ambiente, tentando extrair dele informações. Ainda muito novinho, é capaz de agitar o corpo na direção de um estímulo auditivo. Com algumas semanas, presta atenção nas figuras com contorno, principalmente nos rostos humanos. Logo que consegue, pega objetos e os examina, apalpando-os e/ou colocando-os na boca. Aos seis meses, já gosta de olhar as ilustrações coloridas de um livro. Em todas essas ações, ele está sendo movido pelo instinto de exploração. Mas enquanto mantém um olho no mundo, o outro está ocupado em saber onde está a sua mãe.

De acordo com a teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby e seus seguidores, há sempre duas tendências instintivas influenciando as ações da criança pequena, e cada uma delas se atualiza em um conjunto específico de comportamentos. De um lado, estão os comportamentos de apego, por meio dos quais a criança procura manter-se perto da figura materna. De outro lado, os comportamentos de exploração, que visam alargar o seu conhecimento do mundo, e implicam a necessidade de deslocar o foco da mãe para outros objetos.

Embora esses dois conjuntos de comportamento coexistam, eles são, portanto, conflitantes. Mas o conflito entre a necessidade de se apegar e a necessidade de explorar só se torna de fato relevante quando o bebê adquire habilidades motoras que lhe permitem distanciar-se fisicamente de sua base protetora. Quando aprende a engatinhar ou a andar, ele começa a realizar explorações no entorno e para isso se afasta voluntariamente da figura materna. Porém, em geral, retorna imediatamente ao seu porto seguro logo que se percebe só. Isso ocorre porque, durante toda a primeira infância, o instinto do apego prepondera sobre o instinto de exploração.

A partir dos quatro anos de idade, quando o vínculo com a figura materna está (ou deveria estar) plenamente formado, aí sim o sistema de apego começa a se tornar menos ativo, permitindo que a criança desenvolva um interesse mais abrangente pelo mundo. Nessa fase, ela já está mais preparada física e cognitivamente para absorver estímulos que antes poderiam provocar alarme ou estresse. Além disso, as próprias circunstâncias de sua vida já se tornaram relativamente familiares. Isso não significa de modo algum que a criança se desapegue. Ao contrário. Significa apenas que, tendo cumprido a sua função de criar, nos primeiros anos, uma base segura para o desenvolvimento, o sistema de apego passa a atuar com menos amplitude e intensidade.

Com essa idade a criança também já avançou em duas outras conquistas importantes. Ela já é capaz de representar mentalmente o cuidado e a atenção maternos, o que lhe permite prescindir da presença física da mãe por intervalos de tempo mais longos. E também já percebe que as outras pessoas possuem sentimentos e motivações próprios, o que torna possível o seu engajamento em algumas situações sociais fora do círculo familiar.

Acontece, porém, que para a grande maioria das crianças, essa transição não é suave. Assim como todas as outras transições que marcam o desenvolvimento humano, ela envolve uma pequena crise, que ocorre em algum momento a partir dos dois anos de idade.

A criança de dois anos
Ao longo do terceiro ano de vida, encorajada por uma relativa autonomia motora e comunicacional, e tranquilizada pelo fato do mundo não ser mais um lugar tão novo e estranho, a criança começa a testar de maneira contundente a sua própria autonomia. Agora, em muitas ocasiões, ela faz questão de explorar o seu pequeno mundo (pretensamente) sem amparo ou ajuda. Nos limites da pequena e limitada esfera de vida que ela já conhece por hábito, nasce o desejo de ensaiar uma relativa independência.

Dependendo do temperamento da criança, esse impulso de independência se traduz na prática em atitudes de ardente teimosia, como querer escolher e/ou vestir sozinha suas próprias roupas, insistir em subir sem ajuda uma escada, recusar-se a ser conduzida pela mão na rua. Em outros casos, ele pode se limitar à vontade de tomar decisões sobre a sua rotina. “Não quero comer”, “não vou tomar banho”. O fato é que, em algum momento a partir dos dois anos de idade, a maioria das crianças começa a dizer “não” de um modo que, aos adultos, parece quase obsessivo.

Quando contrariadas, algumas fazem birra, deitam no chão e gritam até levar os pais a um nível de constrangimento e desespero que muitas vezes faz com que eles próprios se descontrolem. Com ou sem birra, é preciso ter serenidade para lidar com a criança nessa fase. O importante é que os pais não valorizem demais esses comportamentos, nem se intimidem com eles. A única coisa a fazer é tentar acalmá-la, ajudando-a a compreender e organizar as suas próprias emoções, e mostrando-lhe que é possível recuperar o equilíbrio perdido diante de uma frustração inevitável.

Porém, ter serenidade diante da birra não significa de modo algum retroceder e deixar que a criança faça o que quer. Provavelmente, a birra foi ocasionada por algum limite imposto pelos pais ou pelas circunstâncias do momento. Nos dois casos, é importante manter a firmeza, explicando a ela a razão de ser do limite.

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Muitas vezes, a impressão que se tem nessa fase é que a criança está mais estressada. De certa forma, isso é verdade. Ela vive um conflito entre a necessidade, ainda premente, de estar fisicamente vinculada, e o impulso de se individualizar, que se manifesta principalmente pela vontade de testar a sua capacidade de agir e de descobrir coisas novas. O sistema de exploração vai se tornando cada vez mais ativo, mas ainda colide com o instinto de apego, que implica em se colocar inteiramente sob a proteção e os cuidados maternos. É preciso dar tempo ao tempo, sempre lembrando que tudo isso faz parte do processo típico de desenvolvimento infantil.

Por outro lado, é muito importante que os pais não percam de vista o seu papel de educadores. Nos momentos de descontrole da criança, é possível manter uma atitude compreensiva e paciente sem abandonar o dever de guiá-la no rumo certo. Aos poucos, ela deve ser levada a entender que nem todos os seus desejos podem ser satisfeitos e que há coisas que só os pais podem decidir.

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Imagem:
Cécile Veilham
http://www.veilhan-cecile.book.fr

Tradução da citação:

“Quando nossos pequenos se encontram tomados por fortes emoções, nosso dever é transmitir a eles a nossa tranquilidade, e não nos deixar levar pelo seu caos”. (L. R. Krost)

O apego na primeira infância

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A dependência extrema da criança pequena não resulta somente da necessidade de ser nutrida e fisicamente protegida. Incapaz de regular suas próprias emoções, ela também precisa contar com a mediação de um adulto para manter um estado de equilíbrio psíquico favorável ao seu desenvolvimento. Assim, durante toda a primeira infância, a criança se volta apaixonadamente para a mãe em busca dessa custódia afetiva da qual não pode prescindir. Até aproximadamente os cinco anos de idade, a figura materna será a sua fonte primordial de proteção e consolo.

Porém, para que tudo caminhe bem, é importante que a mãe esteja por perto e sensível às suas necessidades. Em outras palavras, é preciso que ela esteja disposta a se dedicar. O apego à figura materna será tanto mais seguro quanto melhor for a qualidade da resposta que a criança obtiver. E quanto mais seguro o apego, mais forte e preparada ela estará para viver as crises inevitáveis em seu processo de desenvolvimento.

Mas a natureza é realmente sábia. Como as circunstâncias da vida de uma mãe nunca são as ideais, a criança vem equipada com uma série de condutas inatas que lhe permitem exercer um papel ativo na obtenção dessa proximidade física e afetiva tão crucial. Essas condutas são denominadas na literatura de Comportamentos de Apego (Attachment Behaviours).

O primeiro ano
John Bowlby, cuja teoria já pincelei na postagem anterior, classifica os comportamentos de apego em dois tipos. De um lado estariam os comportamentos de sinalização, por meio dos quais o bebê busca atrair a atenção da mãe para que ela se aproxime, mantenha-se perto e ocupe-se dele. Os comportamentos de sinalização são os primeiros a aparecer no curso do desenvolvimento e predominam até aproximadamente os seis meses de idade. Os principais são o choro, o riso, a emissão de sons muito básicos e a busca de contato visual. Um pouco mais tarde, o bebê aprende a balbuciar e começa a estender os braços para pedir colo.

De outro lado, estariam os comportamentos de aproximação. A criança passa a utilizar seus próprios recursos de locomoção para buscar a proximidade de que tanto necessita. Esses comportamentos dependem de uma certa maturidade cognitiva e motora. Em geral, eles aparecem a partir do segundo semestre de vida, e passam a ocorrer concomitantemente aos comportamentos de sinalização. O bebê engatinha ou anda na direção da mãe quando ela se afasta. Segue-a pela casa e tenta escalar as suas pernas para ser pego no colo. Uma vez conquistado o colo, agarra-se ao corpo da mãe para não o perder. Pode afastar-se um pouco para realizar atividades exploratórias, mas logo retorna para verificar se ela ainda está por perto.

É muito comumo que a primeira palavra pronunciada pelo bebê seja “mamãe”. Dentro do quadro de referências da teoria do apego, é fácil compreender a enorme conquista que representa, para a criança, o fato de ser finalmente capaz de chamar a sua protetora!

Até o final do primeiro ano de vida, a criança cercada de atenção e cuidado materno já desenvolveu um vínculo de apego seguro com a mãe. Quando a presença do pai é consistente, ele também se torna uma referência importante de proteção e cuidado. E, paralelamente, a criança vai desenvolvendo apegos secundários às outras pessoas com as quais convive cotidianamente.

O segundo ano
No final do primeiro ano de vida, e ao longo de todo o segundo, outras mudanças importantes ocorrem. Aos poucos, a criança começa a desenvolver a consciência da possibilidade de um afastamento iminente da mãe e torna-se capaz de prevê-lo com base em sinais como a troca de roupa, uma bolsa pendurada no ombro, o barulho de chaves, ou mesmo com base em frases que ouve dos adultos. Nessa fase, ela está sempre atenta ao comportamento materno, procurando ler nos movimentos da mãe os menores indícios de que a proximidade tão desejada e necessária pode ser rompida.

A criança chora, por exemplo, na entrada da creche, no momento da separação, mesmo que a professora já represente uma figura de apego secundário. Mas se as pessoas responsáveis temporariamente pelo seu cuidado souberem consolá-la, tranquilizá-la e deixá-la segura, a ausência materna será mais suportável. É importante conversar com ela, explicar o que está se passando e o que vai se passar. Essas explicações não são frases lançadas ao vento. Ao contrário, são muito importantes para a construção da confiança e do vínculo com os adultos.

O terceiro ano
Ao longo do terceiro ano de vida, a criança começa a perceber que as outras pessoas também possuem sentimentos e motivações próprias. É possível lhe explicar, por exemplo, que a mãe precisa sair para trabalhar, mas que depois retornará e ficará muito feliz por estar com ela novamente.

Nessa fase, a criança também já adquiriu habilidades motoras, cognitivas e linguísticas que lhe permitem uma autonomia relativamente maior. É capaz de afastar-se voluntariamente da mãe por um tempo para brincar com coleguinhas ou para realizar uma atividade dirigida por outro adulto, desde que esteja em ambiente já conhecido. O importante passa a ser o seu grau de confiança no retorno da mãe e na qualidade dos cuidados que receberá durante a sua ausência.

Agora pode ser estabelecido, entre a mãe e a criança, um padrão de relação que Bowlby chamou de “parceria”. Dentro de certos limites definidos pelo seu universo linguístico e existencial, é perfeitamente viável conversar e argumentar com ela. Inicia-se aqui então uma nova etapa. Em condições satisfatórias de atenção e cuidado, o apego à mãe e às outras pessoas de referência já está segura e plenamente formado e a criança pode canalizar a maior parte de suas energias para as atividades de exploração.

Dos quatro anos em diante, portanto, amplia-se a sua perspectiva do mundo. Embora ainda seja muito dependente, e possua uma capacidade de auto regulação emocional precária, nessa idade a criança já consegue representar mentalmente a atenção e o cuidado materno, mesmo que esteja temporariamente longe da mãe. Assim, afetivamente segura e emocionalmente liberada pela certeza de que está protegida, ela pode investir sua vitalidade no aprendizado escolar e no alargamento de seu círculo de relações. Está pronta para os desafios e as explorações da segunda infância.

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Imagens:
Topo da postagem:
Cécile Veilham, “Mon Tresor”
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