A Importância da Rotina

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Bons pais não são aqueles que se esforçam para realizar todos os desejos do filho. E isso por um motivo muito simples: nem todos os desejos merecem ou devem ser realizados. A preocupação de pais conscientes e seguros em relação às suas responsabilidades deve ser a de discernir com clareza quais são as necessidades da criança e criar condições para que, elas sim, sejam satisfeitas. A distinção clara entre desejo e necessidade é crucial para uma educação que se pretenda coerente e elevada. Mas quais seriam então as necessidades da criança pequena?

Essa questão precisa ser abordada por dois ângulos. Por um lado, precisamos estar atentos às necessidades da criança enquanto criança. Ou seja, enquanto ser humano que se encontra em uma fase específica de seu ciclo vital que chamamos de infância, fase caracterizada pela dependência extrema em relação aos adultos e pela imaturidade física, afetiva, cognitiva e social. Nesse sentido, ao descrevermos as necessidades de uma criança, estaríamos descrevendo as necessidades de todas as crianças de sua faixa etária. As diferenças pessoais e culturais, embora não devam ser de todo desconsideradas, assumiriam aqui uma importância superficial.

Por outro lado, sabemos que cada criança é um indivíduo único e insubstituível, com tendências, inclinações e modos particulares de reagir ao mundo. Nesse sentido, além de necessidades universais relacionadas ao nível etário, cada uma delas apresenta suas próprias necessidades, cujo conhecimento é absolutamente fundamental para que os pais sejam de fato capazes de dar a ela uma educação verdadeira. Cabe aos pais perceber e conhecer as necessidades pessoais de seu filho, e a partir desse conhecimento conduzir de maneira consciente a sua educação. Não existe educação elevada que não seja personalizada.

Mas então quais seriam as necessidades comuns a todas as crianças pequenas? Além das necessidades relacionadas à alimentação e à higiene, existem outras quatro que eu diria incontornáveis: atenção amorosa, estímulo para a imaginação, vida ao ar livre, e rotina. Sobre a atenção amorosa, creio que já falei o suficiente aqui no blog quando tratei da importância e da formação do vínculo de apego. Veja aqui, aqui e aqui, de preferência nessa ordem. Também já falei sobre a educação da imaginação, veja, por exemplo, aqui. Resta-me falar da importância do tempo ao ar livre, assunto que deixarei para outra ocasião; e da rotina, que é precisamente o tema deste artigo.

Toda criança precisa viver sob uma rotina estruturada, que lhe permita um certo grau de previsibilidade acerca dos eventos e emoções de cada dia. A sensação de insegurança da criança, decorrente de uma combinação entre o seu total desconhecimento do mundo e a percepção difusa de seu alto grau de dependência em relação aos adultos, precisa ser contrabalançada por uma rotina diária consistente e plena de atenção e cuidados. É preciso que seu ambiente imediato lhe inspire confiança e transmita segurança. A criança insegura precisa gastar muita energia tateando às cegas o caminho da auto estruturação emocional, ao passo que a criança segura fica inteiramente liberada para investir na expansão de suas potencialidades cognitivas e sociais.

A criança pequena é extremamente sensível à ordem exterior. Repare, por exemplo, como toda criança gosta de brincar de “esconde-esconde” mesmo estando cansada de saber o momento e o lugar em que a pessoa ou o objeto escondidos vão aparecer; de ouvir a mesma história duas, três, quatro, dezenas de vezes. Da possibilidade de prever  a aparição súbita do rosto amado, o ritmo encadeado e agradável do texto, o desfecho da história, a criança extrai uma sensação de controle que a acalma e a impele sempre em frente em sua busca pelo conhecimento. Essa extrema sensibilidade à ordem adquire uma dimensão ainda mais significativa e dramática se levarmos em conta que, para a criança, tudo é novo e excitante. É muito importante que a novidade quase infinita presente na vida infantil seja contrabalançada por uma estruturação externa do tempo e do espaço que lhe permita repousar na expectativa da regularidade.

Para a criança pequena, rotina significa, portanto, previsibilidade, e previsibilidade significa estruturação interna, confiança na vida e na capacidade de viver. Isso se traduz, na prática do dia a dia, em ter hora para comer, para dormir, para passear, para tomar banho. E em não ser exposta a estímulos dos quais ainda não é capaz de dar conta. Mas também não devemos esquecer, por outro lado, que cada criança é uma criança, e que a rotina boa para uma, pode não ser boa para a outra. Ao fim do terceiro ou quarto mês de vida, pais sensíveis e atentos já terão informação suficiente para ajustar a rotina do bebê aos seus ritmos individuais.

Um dos momentos mais importante da rotina diária é a hora de ir para a cama. Esse momento marca a alternância entre o dia e a noite, e costuma ser fonte de angústia para a maior parte das crianças pequenas. Por isso, é importante que essa hora seja sempre marcada por pequenos rituais, como o de tomar um banho relaxante, beber um leite morno. Mudanças na iluminação da casa também facilitam o processo. Mas a estratégia campeã, que eu sempre sugiro, é a de levar a criança para a cama ou para uma poltrona confortável e ler uma história em voz alta para ela. Aconchegada pelo contato físico e embalada pela voz do adulto, a criança vai percebendo e aceitando que a hora de dormir se aproxima.

De uma maneira geral, criança deve dormir cedo, e mais adiante vou explicar o porquê. Muitas vezes, porém, as circunstâncias da família não favorecem essa rotina. Por exemplo, se o pai sai muito cedo para trabalhar e chega muito tarde do trabalho, a criança que dorme cedo corre o risco de jamais o encontrar. Nesse caso, a rotina deve ser adaptada de modo a preservar o contato do pai com a criança. Devemos dar prioridade às coisas mais importantes.

Mas voltando à questão do horário: por que a criança deve dormir cedo? Na verdade, quando digo dormir cedo, o horário propriamente dito pouco importa. O que quero dizer, exatamente, é que ela deve dormir mais cedo que os pais. E isso porque a rotina da criança não serve apenas às sua próprias necessidades. Ela é importante também para a harmonia familiar como um todo. A pessoa adulta precisa de um tempo somente para si, pois sempre há outras coisas a fazer além de cuidar dos filhos. Os pais precisam ter um tempo, nem que seja o finzinho do dia, para resolver pequenos assuntos, organizar as próprias vidas, colocar a conversa em dia. Adultos sentem necessidade de conversar e interagir com outros adultos, ocupar-se com assuntos adultos, caso contrário, podem se sentir excessivamente sobrecarregados, desmotivados, e acabam se tornando menos interessantes para os filhos.

Contudo, é preciso estar sempre alerta. Rotina é para organizar, liberar, e não para aprisionar e gerar ansiedade ou conflito entre os membros da família. Nenhuma rotina, por mais pensada e bem estruturada que seja, funcionará o tempo todo de maneira perfeita. Vez ou outra, ela precisará ser quebrada, como quando estamos passeando ou temos visitas, quando membros da família adoecem, ou mesmo quando eventos corriqueiros impedem que a ordem do dia transcorra do modo planejado. O jeito é relaxar e aguardar, com tranquilidade, que tudo volte ao normal. Também é importante que a criança aprenda a lidar com esses momentos especiais, e tenha a oportunidade de sentir saudades da rotina cotidiana.

Rigidez excessiva leva à neurose, e não é isso o que queremos para os nossos filhos. Por tanto, lembre-se sempre: a rotina é muito benéfica, desde que guarde a possibilidade de ser flexibilizada, revista. Ela deve se adaptar às circunstâncias da família, e não o contrário.

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Imagem: 

John Morgan (1823-1886), “Hide and Seek”.