Entre o apego e a exploração

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Desde os primeiros dias de vida, o bebê observa o seu ambiente, tentando extrair dele informações. Ainda muito novinho, é capaz de agitar o corpo na direção de um estímulo auditivo. Com algumas semanas, presta atenção nas figuras com contorno, principalmente nos rostos humanos. Logo que consegue, pega objetos e os examina, apalpando-os e/ou colocando-os na boca. Aos seis meses, já gosta de olhar as ilustrações coloridas de um livro. Em todas essas ações, ele está sendo movido pelo instinto de exploração. Mas enquanto mantém um olho no mundo, o outro está ocupado em saber onde está a sua mãe.

De acordo com a teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby e seus seguidores, há sempre duas tendências instintivas influenciando as ações da criança pequena, e cada uma delas se atualiza em um conjunto específico de comportamentos. De um lado, estão os comportamentos de apego, por meio dos quais a criança procura manter-se perto da figura materna. De outro lado, os comportamentos de exploração, que visam alargar o seu conhecimento do mundo, e implicam a necessidade de deslocar o foco da mãe para outros objetos.

Embora esses dois conjuntos de comportamento coexistam, eles são, portanto, conflitantes. Mas o conflito entre a necessidade de se apegar e a necessidade de explorar só se torna de fato relevante quando o bebê adquire habilidades motoras que lhe permitem distanciar-se fisicamente de sua base protetora. Quando aprende a engatinhar ou a andar, ele começa a realizar explorações no entorno e para isso se afasta voluntariamente da figura materna. Porém, em geral, retorna imediatamente ao seu porto seguro logo que se percebe só. Isso ocorre porque, durante toda a primeira infância, o instinto do apego prepondera sobre o instinto de exploração.

A partir dos quatro anos de idade, quando o vínculo com a figura materna está (ou deveria estar) plenamente formado, aí sim o sistema de apego começa a se tornar menos ativo, permitindo que a criança desenvolva um interesse mais abrangente pelo mundo. Nessa fase, ela já está mais preparada física e cognitivamente para absorver estímulos que antes poderiam provocar alarme ou estresse. Além disso, as próprias circunstâncias de sua vida já se tornaram relativamente familiares. Isso não significa de modo algum que a criança se desapegue. Ao contrário. Significa apenas que, tendo cumprido a sua função de criar, nos primeiros anos, uma base segura para o desenvolvimento, o sistema de apego passa a atuar com menos amplitude e intensidade.

Com essa idade a criança também já avançou em duas outras conquistas importantes. Ela já é capaz de representar mentalmente o cuidado e a atenção maternos, o que lhe permite prescindir da presença física da mãe por intervalos de tempo mais longos. E também já percebe que as outras pessoas possuem sentimentos e motivações próprios, o que torna possível o seu engajamento em algumas situações sociais fora do círculo familiar.

Acontece, porém, que para a grande maioria das crianças, essa transição não é suave. Assim como todas as outras transições que marcam o desenvolvimento humano, ela envolve uma pequena crise, que ocorre em algum momento a partir dos dois anos de idade.

A criança de dois anos
Ao longo do terceiro ano de vida, encorajada por uma relativa autonomia motora e comunicacional, e tranquilizada pelo fato do mundo não ser mais um lugar tão novo e estranho, a criança começa a testar de maneira contundente a sua própria autonomia. Agora, em muitas ocasiões, ela faz questão de explorar o seu pequeno mundo (pretensamente) sem amparo ou ajuda. Nos limites da pequena e limitada esfera de vida que ela já conhece por hábito, nasce o desejo de ensaiar uma relativa independência.

Dependendo do temperamento da criança, esse impulso de independência se traduz na prática em atitudes de ardente teimosia, como querer escolher e/ou vestir sozinha suas próprias roupas, insistir em subir sem ajuda uma escada, recusar-se a ser conduzida pela mão na rua. Em outros casos, ele pode se limitar à vontade de tomar decisões sobre a sua rotina. “Não quero comer”, “não vou tomar banho”. O fato é que, em algum momento a partir dos dois anos de idade, a maioria das crianças começa a dizer “não” de um modo que, aos adultos, parece quase obsessivo.

Quando contrariadas, algumas fazem birra, deitam no chão e gritam até levar os pais a um nível de constrangimento e desespero que muitas vezes faz com que eles próprios se descontrolem. Com ou sem birra, é preciso ter serenidade para lidar com a criança nessa fase. O importante é que os pais não valorizem demais esses comportamentos, nem se intimidem com eles. A única coisa a fazer é tentar acalmá-la, ajudando-a a compreender e organizar as suas próprias emoções, e mostrando-lhe que é possível recuperar o equilíbrio perdido diante de uma frustração inevitável.

Porém, ter serenidade diante da birra não significa de modo algum retroceder e deixar que a criança faça o que quer. Provavelmente, a birra foi ocasionada por algum limite imposto pelos pais ou pelas circunstâncias do momento. Nos dois casos, é importante manter a firmeza, explicando a ela a razão de ser do limite.

auto-regulacao

Muitas vezes, a impressão que se tem nessa fase é que a criança está mais estressada. De certa forma, isso é verdade. Ela vive um conflito entre a necessidade, ainda premente, de estar fisicamente vinculada, e o impulso de se individualizar, que se manifesta principalmente pela vontade de testar a sua capacidade de agir e de descobrir coisas novas. O sistema de exploração vai se tornando cada vez mais ativo, mas ainda colide com o instinto de apego, que implica em se colocar inteiramente sob a proteção e os cuidados maternos. É preciso dar tempo ao tempo, sempre lembrando que tudo isso faz parte do processo típico de desenvolvimento infantil.

Por outro lado, é muito importante que os pais não percam de vista o seu papel de educadores. Nos momentos de descontrole da criança, é possível manter uma atitude compreensiva e paciente sem abandonar o dever de guiá-la no rumo certo. Aos poucos, ela deve ser levada a entender que nem todos os seus desejos podem ser satisfeitos e que há coisas que só os pais podem decidir.

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Imagem:
Cécile Veilham
http://www.veilhan-cecile.book.fr

Tradução da citação:

“Quando nossos pequenos se encontram tomados por fortes emoções, nosso dever é transmitir a eles a nossa tranquilidade, e não nos deixar levar pelo seu caos”. (L. R. Krost)

3 comentários sobre “Entre o apego e a exploração

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