O sentimento de culpa e a perspectiva materna

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Toda mãe zelosa e responsável conhece o sentimento, sempre desconfortável e muitas vezes doloroso, de ter falhado no atendimento ou no cuidado do filho. Seja por uma falta inócua, seja por um erro de maior consequência, somos constantemente espreitadas pela tal “culpa materna”. Na verdade, para a maioria de nós, esse sentimento se manifesta antes mesmo da criança nascer.

Há mães que não sentem culpa? Creio que sim. Sabemos bem que, na escala de atenções de algumas mulheres, as crianças disputam posição com o trabalho, o romance, o lazer, os cuidados com a beleza, podendo, inclusive, aparecer bem abaixo nessa lista. Ora, se uma mulher não coloca os filhos no topo de sua hierarquia de prioridades, é natural que não esteja atenta às suas próprias falhas. E se não percebe quando e o quanto falha, como poderia se sentir culpada?

Porém, não é a essas mães que me dirijo aqui, e sim àquelas que acalentam expectativas elevadas de devotamento materno, mas, inevitavelmente, cometem erros, sentem culpa e sofrem. A intenção não é fazer uma análise psicológica da culpa. Quero apenas dizer algumas palavras sobre como lidar com ela. Em primeiro lugar, não devemos fugir desse sentimento a qualquer custo, recorrendo a subterfúgios ou a estratégias de autoengano. Fazendo assim, só conseguiremos jogar uma cortina de fumaça sobre o seu objeto. Por outro lado, também não devemos nos martirizar. A culpa que nos oprime, degrada e maltrata, de nada serve para os nossos filhos.

Acontece, porém, que, para a maioria de nós, uma atitude mais propositiva diante do sentimento de culpa exigirá um considerável esforço de reorganização afetiva. Ao longo da infância e da juventude, fomos programadas para só aceitar e absorver os sentimentos de prazer e de contentamento. Embora sempre tenhamos experimentado momentos de tensão, angústia e tristeza, aprendemos a fugir deles como se não nos pertencessem. E, desse modo, ao invés de adquirir potência para enfrentar a vida, acabamos por nos tornar mais frágeis e vulneráveis. Podemos dizer que, nesse sentido, ainda não conseguimos crescer de verdade.

O jeito como lidamos com o sofrimento é a medida mais precisa de nossa força moral, sem a qual não é possível exercer a maternidade de modo sereno e equilibrado. Antes de mais nada, é preciso que acreditemos em nossa própria capacidade de suportar o sentimento de culpa, colocando-o em seu devido lugar. Em outras palavras, o segredo consiste em entender que, embora seja inteiramente nosso, esse sentimento não se confunde com a nossa pessoa. Vencida essa etapa, podemos então usá-lo em nosso benefício.

O único modo de darmos o máximo de nós mesmas é perseguindo um ideal elevado e, nesse sentido, o sentimento de culpa pode ser um grande aliado, por nos fazer parar, identificar nossas dificuldades e avaliar nossas possibilidades. A ideia é que o encaremos como sinal objetivo de uma discrepância entre as nossas expectativas e a nossa prática, como um alerta de que precisamos retornar o foco para os nossos filhos.

Porém, é muito importante que estejamos cientes de que desse ideal conseguiremos, no máximo, nos aproximar. Em primeiro lugar, porque há habilidades e talentos que só se desenvolvem na medida em que nos dedicamos às nossas crianças. Por mais que estejamos técnica e psicologicamente preparadas para receber esses pequenos seres no centro de nossa existência, é no exercício da maternidade que aprendemos a ser mães. Em segundo lugar, porque a própria realidade nos impõe alguns limites. Muitas vezes, temos que agir dentro de circunstâncias de vida resistentes ou mesmo antagônicas aos nossos melhores propósitos. Além disso, precisamos lidar com inúmeras e variadas situações cotidianas que nos exigem decisões imediatas, muitas das quais são tomadas no calor da emoção. Em resumo, o que estou querendo dizer é que, em alguns momentos, vamos falhar.

Sempre haverá, portanto, alguma lacuna entre o nosso ideal e a nossa prática. O importante é que estejamos sempre atentas e dispostas a estreitar essa distância, liberando as nossas energias criativas para o futuro, ao invés de nos manter presas a um passado irreparável. A boa mãe é aquela que acerta no conjunto da obra. E o truque é que, ao invés de ficar paralisada diante de seu próprio sofrimento, alimentando sentimentos negativos como a raiva ou a pena de si mesma, ela olha para a frente e aprende com seus próprios erros. Com isso atinge, dia após dia, patamares mais elevados de autoconsciência, e amplia a sua própria capacidade de se dedicar aos filhos.

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Imagem:

Elizabeth Nourse, “The Mother”, 1988.

Qual é o seu projeto para o seu filho?

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Além de muita dedicação cotidiana, educar um filho exige uma boa dose de imaginação. Em primeiro lugar, é preciso que tenhamos clareza sobre o tipo de pessoa que queremos ajudá-lo a se tornar. Não se trata evidentemente de imaginar aspectos como a sua profissão, ou o lugar onde vai morar quando crescer. Essas são decisões de foro íntimo, que ele vai tomar no momento apropriado, gozando da liberdade que toda pessoa tem – ou deveria ter – de escrever a sua própria história. Estou me referindo a um projeto moral, que diz respeito a valores e princípios que estarão na base de sua orientação geral para a vida.

O fato é que, quando questionados sobre o que projetam para os filhos, os pais atuais, em sua maioria, não conseguem ir além de clichês do tipo: “que ele seja livre para ser o que quiser”, ou, ainda, “que ele seja um agente de transformação social”. Isso ocorre, em parte, porque eles nunca se dedicaram a pensar seriamente sobre essa questão e, quando confrontados com ela, falta-lhes a linguagem para expressar qualquer ângulo de sua experiência parental que não esteja traduzido no senso comum da cultura educacional contemporânea, que, por sua vez, é organizada em torno desses slogans vazios.

É imprescindível que os pais reflitam de maneira mais realista sobre o seu papel na formação da pessoa dos filhos. Há todo um trabalho a ser feito no sentido de garantir que eles cresçam e se desenvolvam num contexto social rico em exemplos, modelos e preceitos que os conduzam na direção desejada. E isso inclui não só o ambiente familiar imediato, mas também os círculos sociais mais amplos nos quais serão gradativamente inseridos. Se não assumirmos com tenacidade a tarefa de lhes oferecer o substrato principal para a formação de sua visão de mundo, isso será feito por pessoas que não os conhecem e nem os amam como nós.

Claro que, em algum momento e em alguma medida, nossos filhos serão expostos a influências cujos efeitos não poderemos controlar inteiramente. Estou falando, por exemplo, dos colegas, dos professores, dos porta-vozes da mídia e da indústria cultural, das celebridades, dos “amigos” das redes sociais. Por isso, devemos cuidar para que a nossa autoridade moral esteja bem resguardada, de modo que eles se mantenham sempre abertos à nossa interferência. Quanto mais a família recua em seu papel, mas as crianças e os jovens se tornam expostos à ingerência desses agentes externos.

Atualmente, é muito comum que as pessoas tentem justificar a sua própria hesitação em orientar os filhos pelo receio de tolher a sua liberdade. Trata-se de um temor infundado, baseado em premissas inconsistentes. Em primeiro lugar, é importante entender que o projeto moral de que estou falando só diz respeito aos objetivos que vão nortear a nossa atuação. Ele não se confunde, de modo algum, com o projeto de vida que eles construirão por si sós quando já estiverem prontos. Em outras palavras, orientar não é sinônimo de determinar.

O segundo ponto de inconsistência desse argumento está na suposição de que o exercício consciente e responsável da liberdade seja possível sem uma base moral consolidada que lhe dê sustentação. Para que uma pessoa possa se dizer realmente livre, precisa estar genuinamente convicta de que o que faz é o que deve ser feito. Caso contrário, ela estará apenas imitando, seguindo o fluxo. E essa convicção só pode existir quando se está de posse de uma hierarquia clara de princípios e valores. Ora, de quem é a tarefa de ajudar a criança a construir essa base moral, senão dos pais?

Para que eu deixe uma criança livre para decidir a que valores vai aderir e que virtudes vai desenvolver, eu não preciso ser sua mãe. Basta que eu não esteja relacionada a ela por um vínculo amoroso e acredite que os rumos de seu projeto existencial não me digam respeito. E, como não temos nenhum motivo para imaginar, de antemão, que os pais vacilantes não amem os seus filhos, só podemos interpretar a sua hesitação como decorrência do fato de não se sentirem moralmente preparados para assumir o seu papel. Talvez porque se vejam, eles próprios, num estado de dependência e imaturidade típico das crianças.

Vivemos numa época de adultos infantilizados, e isso não poderia deixar de produzir uma situação de torpor educacional generalizado. Do ponto de vista dos valores, nossa cultura foi de tal forma contaminada pela vulgata do relativismo, que os pais de hoje em dia não se sentem autorizados sequer a ensinar os filhos a discernir entre o Bem e o Mal, capacidade que as crianças de outras épocas adquiriam antes de sair do berço.

A liberdade é, sem dúvida, um valor importante para quem educa. Mas dar liberdade aos filhos não significa nada lhes ensinar ou propor. Há sempre um lastro de individualidade que determina o modo e a medida em que os preceitos, exemplos e modelos serão assimilados e internalizados pela criança, de maneira estritamente pessoal. E há também aqueles aspectos de seu ser que permanecerão impermeáveis à influência externa. Com esses traços irredutíveis precisamos aprender a lidar, cuidando para que sejam acomodados da melhor maneira possível no projeto que temos em mente.

É por tudo isso que costumo insistir na necessidade de que os pais estejam sempre atentos e sensíveis à individualidade dos filhos. Sem essa atenção, nenhuma educação elevada é possível. Mas o ponto que quero destacar aqui é o seguinte: o respeito à pessoa da criança não justifica que a deixemos à sua própria sorte, supondo que possa encontrar suas referências de vida de maneira espontânea e solitária. Não, ela não pode. As crianças se voltam natural e avidamente para os adultos em busca de preceitos pelos quais se guiar e modelos para imitar.

A verdade, sem rodeios, é que se não fizermos o nosso trabalho, outros estarão prontos para preencher o espaço que deixaremos vazio. O que temos diante de nós, portanto, é uma escolha de amplas consequências: ou bem assumimos a tarefa de influenciar nossos filhos, com determinação e coragem, ou nos omitimos e, consequentemente, os abandonamos à influência de conselheiros cujos valores podem ser diametralmente opostos aos nossos. Deixaremos que pessoas estranhas determinem a visão de mundo de nossas crianças?

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Imagem:

Jessie Willcox Smith (1863-1935), “Dream Blocks”.