O teste da (sua) atenção

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Cada criança é um indivíduo único no mundo. Jamais encontraremos duas que acolham e reajam às impressões do mundo exatamente do mesmo modo. Até aí, nenhuma novidade. Porém, ainda assim, poucas pessoas se dão conta de que não é possível falar em educação, principalmente em educação doméstica, se o fator individualidade não for levado seriamente em consideração. Para que possamos bem orientar nossos filhos, precisamos, antes de tudo, percebê-los como eles são. E construir, por meio da constância da nossa presença e do nosso cuidado cotidiano, um conhecimento compreensivo acerca de suas formas de estar no mundo, de seus modos típicos de sentir e reagir, de seus limites, de suas potencialidades. Quem tem mais de um filho sabe perfeitamente: o que funciona com um, não funcionará necessariamente com o outro. E o motivo é simples: pessoas são singularidades, e educar uma criança consiste em fazê-la realizar a sua condição singular do modo mais elevado possível.

Por outro lado, há uma característica comum a todas as crianças pequenas e que está ligada não ao domínio do temperamento, e sim à sua condição de pessoas ainda em formação, ou seja, à sua imaturidade física e cognitiva. Elas são naturalmente inseguras: assustam-se com facilidade, temem gente estranha, e por isso estão sempre buscando estar próximas de nós, e atrair o nosso olhar. Percebem-se extremamente dependentes de nossa intervenção em suas vidas, mas não conseguem representar mentalmente o afeto e o cuidado que lhes dispensamos. Essas características estão interconectadas e compõem o pano de fundo que todo pai e toda mãe de criança de menos de 4 ou 5 anos já conhece: para elas, é tudo ou nada, e só vale o aqui e agora.

Por mais que nossos filhos sejam bem atendidos e bem cuidados, muitas vezes, quando não estamos disponíveis naquele momento exato em que solicitam a nossa atenção, eles sentem e reagem como se o seu pequeno mundo estivesse a perigo. E isso não ocorre por mero capricho. Como Charlotte Mason formulou, há cerca de um século, em seu livro “Formation of Character”, ao contrário de nós, adultos, as crianças prescindem da experiência de vida que nos traz a esperança de que as coisas podem melhorar. E como são ainda incapazes de regular suas próprias emoções, elas se desesperam e se descontrolam. Por isso, enquanto realizamos a tarefa fundamental de ajudar nossos filhos a desenvolver o auto-controle e a empatia, capacidades tão importantes para uma vida adulta equilibrada, eles permanecem, por longos anos, extremamente dependentes de nossa atenção e da sensação de segurança que ela produz.

A verdade, porém, é que nem sempre conseguimos dar a eles toda a atenção que julgamos necessária, seja por razões de ordem interna (podemos estar cansados, preocupados, deprimidos, mal-humorados), seja devido às demandas externas, que muitas vezes nos atropelam e nos levam a deslocar o foco. Mas, ainda assim, vamos levando, com pequenos ajustes aqui e acolá. Pais realmente comprometidos e dedicados estão sempre tentando se superar para equilibrar as coisas de modo a favorecer as crianças. Isso não significa satisfazer todas as suas vontades, nem fazer com que se sintam o centro do mundo, e sim garantir condições de segurança emocional para que elas possam se desenvolver sem obstáculos afetivos muito impactantes.

Porém, o que dizer daquelas fases em que percebemos que o comportamento de nosso filho se desviou consideravelmente do padrão? Quando uma criança naturalmente serena e confiante amanhece um dia muito nervosa e insegura, assim permanecendo por um longo período? Ou quando uma criança apenas ligeiramente agitada torna-se de repente uma força da natureza impossível de se controlar, opondo-se a tudo e a todos com agressividade? Ou quando aquela, que é naturalmente atenta e solícita, mostra-se apática e desinteressada de tudo? Vários fatores podem levar uma criança a apresentar um comportamento fora da curva, que nos leve a suspeitar que algo está errado. O que fazer então?

Desde que descartada a possibilidade de uma causa física, antes de procurar ajuda ou aconselhamento, sugiro que você faça o teste da atenção. Ele consiste, simplesmente, em trabalhar com a hipótese de que seu filho esteja precisando ficar mais tempo com você. Intensifique a sua presença e a sua interação com ele. Dê-lhe atenção concentrada durante algumas horas, um suplemento de colo e de carinho, além do habitual. Converse, mostre-se disponível, leve para passear. Muitas vezes, você verá, um pequeno ajuste no foco já é suficiente para normalizar a situação e fazê-lo reencontrar o eixo.

Se, após essa intervenção, a criança voltar ao seu padrão habitual de comportamento, isso pode significar que você, de fato, andou ligando o piloto automático. Mas não necessariamente. É possível, também, que a alteração tenha sido deflagrada por outro fator, por algo que talvez estivesse mesmo fora de sua alçada. De todo modo, qualquer que tenha sido o motivo, só você (pai ou mãe) poderia tê-la ajudado a recuperar a estabilidade perdida.

Nossos filhos precisam ter a certeza de que podem repousar em nosso amor, sempre que precisarem. E a atenção é a forma como o amor se exprime aos olhos da criança pequena.

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Imagem: 

Lilla Cabot Perry (1848-1933), “My Lamb”, 1912.

 

Devotamento materno: por que e como não perder o foco?

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A maternidade costuma chegar para a mulher contemporânea como um acontecimento festivo, uma conquista pessoal. Porém, ela logo se depara com a sua própria falta de disponibilidade interna para exercer o papel de mãe com devotamento e entrega. Em muitos momentos, a despeito de todo o amor que sente pelo pequeno ser que colocou no mundo, o alto grau de dedicação que ele demanda parece estar além de suas forças físicas e psicológicas. Pelo menos, essa é a experiência concreta das mulheres do meio em que eu nasci, cresci e me tornei mãe.

Por que será que nos sentimos existencialmente tão despreparadas para a maternidade? A resposta é simples. Porque nossa cultura individualista, materialista e hedonista não valoriza o devotamento materno. Ao contrário, ela desqualifica a mulher que coloca os filhos no centro de sua existência. Há sempre aquelas que, corajosamente, teimam. Mas como a cultura não lhes ofereceu modelos, elas precisam realizar um enorme e solitário esforço de reconfiguração existencial, além de mobilizar muita energia para nadar contra a corrente.

Não é a primeira vez na história que uma cultura desestimula as mulheres a assumirem de corpo e alma suas responsabilidades maternas. Outros exemplos poderiam ser citados. Mas meu objetivo aqui é falar de nós, e a verdade é que há algumas décadas as mulheres ocidentais urbanas vêm sendo bombardeadas, por todos os lados, com uma intensa propaganda contra a mãe devotada. Não vou nem tratar aqui da militância das correntes feministas que, seguindo o argumento equivocado de Simone de Beauvoir, veem a maternidade como uma forma de opressão. Estou me dirigindo às mulheres que valorizam sinceramente a maternidade, mas ainda assim hesitam, temendo se desconstruir diante do projeto maternal.

Crescemos ouvindo que ter filhos é algo desejável, desde que eles não sejam um obstáculo às nossas conquistas pessoais. Como se criar bem um filho não fosse, em si, uma grande conquista! Disseram-nos que os filhos, o trabalho, o lazer e a vida amorosa/sexual, são aspectos equivalentes e igualmente imprescindíveis de nossas vidas, que devem ser equacionados de modo que possamos satisfazer cada uma de nossas necessidades, sem perder nada. Crescemos como adultos mimados, incapazes de abrir mão de coisa alguma. E como, de todas as pessoas com as quais nos relacionamos, as crianças são as que possuem menos recursos para fazer valer sua perspectiva e expressar suas necessidades, acabamos terceirizando demasiadamente os seus cuidados para fazer frente às outras demandas.

Acontece que nossos filhos não são artigos de consumo, eles não vieram ao mundo apenas para satisfazer o nosso desejo de possuí-los. A maternidade não deve ser encarada como uma experiência narcísica. Ela é o projeto de produzir pessoas, e requer da mulher uma boa dose de maturidade. Como superar a dificuldade de abrir mão, consciente e voluntariamente, de certos prazeres e hábitos que nos distraem e nos levam a perder esse foco?

O primeiro passo é nos convencermos da relevância, ou melhor, da grandiosidade da tarefa materna. Como pode alguém achar, honestamente e em sã consciência, que dirigir empresas, bater meta de vendas, salvar baleias, ou qualquer outra atividade que uma mulher possa exercer fora de casa, compara-se em importância ao trabalho de cuidar bem dos pequenos seres humanos que colocou no mundo? Essa pergunta deve ser repetida para nós mesmas como se fosse um mantra, principalmente naqueles momentos em que sentimos falta dos aplausos dos outros.

Amamos nossos filhos mais do que tudo. E por eles seríamos capazes de dar a nossa vida. Mas nem sempre conseguimos abrir, em nossa rotina, o espaço prioritário que eles ocupam em nosso coração, e por isso vivemos em conflito. Ficamos enredadas em nossos próprios desejos individualistas, que se transformam e se amplificam na medida mesma em que são satisfeitos. Para escapar dessa armadilha, precisamos de uma profunda mudança de perspectiva, que começa por sermos capazes de discernir entre o que é prioritário e o que é secundário, de valorizar o essencial em lugar do acessório. Essa mudança pode ser libertadora, porque a energia de uma pessoa deve estar ali onde está o seu coração. Exercer a liberdade nada mais é do que fazer o que deve ser feito.

Ninguém faria tanta falta em nossas vidas quanto nossos filhos. E ninguém precisa mais de nós do que eles. Não seriam essas duas constatações já suficientes para nos convencer de que todas as outras coisas devem estar em segundo plano? Diferentemente dos demais projetos com os quais podemos eventualmente nos comprometer, o projeto materno não admite fugas ou escapes honrosos. E isso porque do outro lado da gangorra está um pequeno ser inocente e dependente que possui menos recursos do que nós para lidar com as frustrações. Por isso, o certo é equilibrar todas as outras coisas de modo que ele não seja prejudicado.

Mas que fique claro: o meu elogio ao devotamento materno não envolve emocionalismos ou idealizações. Não existe a mãe impecável, pois, como seres humanos que somos, nascemos inevitavelmente imperfeitas. Porém existe, sim, a mãe madura e responsável, que não se furta a assumir com zelo e determinação o seu papel. Quaisquer que sejam as circunstâncias concretas de sua vida, ela sempre acaba acertando no conjunto da obra. Porque se uma criança tem a atenção e o cuidado de sua mãe, tudo o mais virá como consequência.

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Lucia Coghetto, “Dolce Amore”

Por que o choro da criança nunca deve ser ignorado?

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O choro é a única forma eficaz de comunicação que a criança pequena possui. Até que a fala esteja desenvolvida a ponto de permitir que se expresse de maneira competente, ela vai chorar toda vez que estiver diante de uma situação que não pode enfrentar sozinha e que lhe causa um nível de stress físico ou emocional além de sua própria capacidade de auto regulação.

Não se deve esperar que uma criança seja capaz de substituir o choro pela comunicação verbal, ou por qualquer outro tipo de comunicação, antes dos 3 anos de idade. Mas a verdade é que poucas coisas incomodam tanto um adulto quanto o choro infantil. E isso não é à toa. Da mesma forma que as crianças são programadas pela natureza para chorar quando experimentam algum tipo de desconforto físico ou emocional, os adultos são programados para reagir ao choro com estratégias para fazê-lo cessar.

A primeira e mais natural reação da mãe que ouve o choro de seu filho pequeno é ir até ele, e pegá-lo no colo. É precisamente por ser estressante que o choro funciona como tem que funcionar: direcionando a atenção do adulto para a criança que chora e estimulando-o a entrar em campo no seu papel de mediador entre ela e o mundo.

Muitas vezes, porém, o choro se torna algo difícil de se lidar, principalmente quando as causas não são evidentes ou de fácil solução. Antes de mais nada, é preciso manter a calma. O fundamental é que a criança perceba que você está disponível e que ela terá a sua atenção. Se a causa for algum mal-estar físico, será preciso agir objetivamente, oferecendo o antídoto certo para o seu desconforto. Quando a criança chora porque está se sentindo só, desprotegida, entediada, ou porque se desestabilizou com algum estímulo externo, o choro tende a cessar quando ela é levada ao colo, aconchegada e (principalmente no caso do bebê novinho) embalada. Ouvir a voz dos pais também tem um efeito calmante.

Até o final do primeiro ano de vida, o choro é sempre sinal de algum desconforto físico ou emocional imediato. A partir dos doze meses, porém, o cenário se complica um pouco. Na medida em que adquire maior competência motora e cognitiva para explorar o ambiente que a cerca, a criança começa a ampliar a sua gama de necessidades. Ela passa a colecionar desejos que nem sempre podem ser satisfeitos. Surgem então outros tipos de choro, a que costumamos nos referir como “manha”, “birra”, ou “chilique”.

É sempre importante ter em mente que não existe choro sem motivo. Para uma criança pequena, ter que ir embora da pracinha, por exemplo, pode representar uma grande tragédia! Não obstante, existem motivos a que os adultos não podem ou não devem ceder. É preciso ensinar à criança que nem todos os seus desejos poderão ser satisfeitos, que existem limites ao que ela pode obter do mundo. Mas sempre de maneira gentil e acolhedora. Muitas vezes, basta distrair a criança para que ela esqueça o motivo do choro. Quando isso não ocorre, o melhor é tentar acalmá-la; de maneira afetuosa, porém firme.

Antes dos três anos de idade, a criança não é capaz de representar mentalmente o afeto e a atenção que recebe. Ela só entende os adultos com base na forma como eles se comportam: o que dizem, o que fazem, como reagem. Por isso, quando os pais simplesmente ignoram o seu choro, transmitem-lhe a mensagem de que ignoram os seus sentimentos, mesmo que isso não seja verdade. É preciso chegar junto da criança nesses momentos, conversar com ela e ajudá-la a compreender as suas próprias emoções e reações.

Voltando ao exemplo da saída da pracinha: você pode lhe dizer, por exemplo, que entende o seu aborrecimento, mas que é realmente necessário voltar para casa, e que a pracinha estará lá, no mesmo lugar, quando ela retornar no dia seguinte. Talvez ela não pare logo de chorar, mas certamente vai aprender que existe uma conexão entre aquilo que sente e a forma como reage. Conhecer suas próprias emoções é um passo importante para que ela aprenda a lidar com as frustrações.

Para resumir, o choro é uma janela que nos permite ver o mundo com os olhos da criança, nos dá acesso ao seu universo afetivo e nos possibilita guiá-la na direção do autoconhecimento e da auto regulação emocional. Se você conseguir encará-lo dessa forma, vai lidar com ele com muito mais segurança e tranquilidade.

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Lilla Cabot Perry (1848 – 1933), “Mère et enfant”, 1910.

Entre o apego e a exploração

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Desde os primeiros dias de vida, o bebê observa o seu ambiente, tentando extrair dele informações. Ainda muito novinho, é capaz de agitar o corpo na direção de um estímulo auditivo. Com algumas semanas, presta atenção nas figuras com contorno, principalmente nos rostos humanos. Logo que consegue, pega objetos e os examina, apalpando-os e/ou colocando-os na boca. Aos seis meses, já gosta de olhar as ilustrações coloridas de um livro. Em todas essas ações, ele está sendo movido pelo instinto de exploração. Mas enquanto mantém um olho no mundo, o outro está ocupado em saber onde está a sua mãe.

De acordo com a teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby e seus seguidores, há sempre duas tendências instintivas influenciando as ações da criança pequena, e cada uma delas se atualiza em um conjunto específico de comportamentos. De um lado, estão os comportamentos de apego, por meio dos quais a criança procura manter-se perto da figura materna. De outro lado, os comportamentos de exploração, que visam alargar o seu conhecimento do mundo, e implicam a necessidade de deslocar o foco da mãe para outros objetos.

Embora esses dois conjuntos de comportamento coexistam, eles são, portanto, conflitantes. Mas o conflito entre a necessidade de se apegar e a necessidade de explorar só se torna de fato relevante quando o bebê adquire habilidades motoras que lhe permitem distanciar-se fisicamente de sua base protetora. Quando aprende a engatinhar ou a andar, ele começa a realizar explorações no entorno e para isso se afasta voluntariamente da figura materna. Porém, em geral, retorna imediatamente ao seu porto seguro logo que se percebe só. Isso ocorre porque, durante toda a primeira infância, o instinto do apego prepondera sobre o instinto de exploração.

A partir dos quatro anos de idade, quando o vínculo com a figura materna está (ou deveria estar) plenamente formado, aí sim o sistema de apego começa a se tornar menos ativo, permitindo que a criança desenvolva um interesse mais abrangente pelo mundo. Nessa fase, ela já está mais preparada física e cognitivamente para absorver estímulos que antes poderiam provocar alarme ou estresse. Além disso, as próprias circunstâncias de sua vida já se tornaram relativamente familiares. Isso não significa de modo algum que a criança se desapegue. Ao contrário. Significa apenas que, tendo cumprido a sua função de criar, nos primeiros anos, uma base segura para o desenvolvimento, o sistema de apego passa a atuar com menos amplitude e intensidade.

Com essa idade a criança também já avançou em duas outras conquistas importantes. Ela já é capaz de representar mentalmente o cuidado e a atenção maternos, o que lhe permite prescindir da presença física da mãe por intervalos de tempo mais longos. E também já percebe que as outras pessoas possuem sentimentos e motivações próprios, o que torna possível a sua participação em algumas situações sociais fora do círculo familiar.

Acontece, porém, que para a grande maioria das crianças, essa transição não é suave. Assim como todas as outras transições que marcam o desenvolvimento humano, ela envolve uma pequena crise, que ocorre em algum momento a partir dos dois anos de idade.

A criança de dois anos
Ao longo do terceiro ano de vida, encorajada por uma relativa autonomia motora e comunicacional, e tranquilizada pelo fato do mundo não ser mais um lugar tão novo e estranho, a criança começa a testar de maneira contundente a sua própria autonomia. Agora, em muitas ocasiões, ela faz questão de explorar o seu pequeno mundo (pretensamente) sem amparo ou ajuda. Nos limites da pequena e limitada esfera de vida que ela já conhece por hábito, nasce o desejo de ensaiar uma relativa independência.

Dependendo do temperamento da criança, esse impulso de independência se traduz na prática em atitudes de ardente teimosia, como querer escolher e/ou vestir sozinha suas próprias roupas, insistir em subir sem ajuda uma escada, recusar-se a ser conduzida pela mão na rua. Em outros casos, ele pode se limitar à vontade de tomar decisões sobre a sua rotina. “Não quero comer”, “não vou tomar banho”. O fato é que, em algum momento a partir dos dois anos de idade, a maioria das crianças começa a dizer “não” de um modo que, aos adultos, parece quase obsessivo.

Quando contrariadas, algumas fazem birra, deitam no chão e gritam até levar os pais a um nível de constrangimento e desespero que muitas vezes faz com que eles próprios se descontrolem. Com ou sem birra, é preciso ter serenidade para lidar com a criança nessa fase. O importante é que os pais não valorizem demais esses comportamentos, nem se intimidem com eles. A única coisa a fazer é tentar acalmá-la, ajudando-a a compreender e organizar as suas próprias emoções, e mostrando-lhe que é possível recuperar o equilíbrio perdido diante de uma frustração inevitável.

Porém, ter serenidade diante da birra não significa de modo algum retroceder e deixar que a criança faça o que quer. Provavelmente, a birra foi ocasionada por algum limite imposto pelos pais ou pelas circunstâncias do momento. Nos dois casos, é importante manter a firmeza, explicando a ela a razão de ser do limite.

Muitas vezes, a impressão que se tem nessa fase é que a criança está mais estressada. De certa forma, isso é verdade. Ela vive um conflito entre a necessidade, ainda premente, de estar fisicamente vinculada, e o impulso de se individualizar, que se manifesta principalmente pela vontade de testar a sua capacidade de agir e de descobrir coisas novas. O sistema de exploração vai se tornando cada vez mais ativo, mas ainda colide com o instinto de apego, que implica em se colocar inteiramente sob a proteção e os cuidados maternos. É preciso dar tempo ao tempo, sempre lembrando que tudo isso faz parte do processo típico de desenvolvimento infantil.

Por outro lado, é muito importante que os pais não percam de vista o seu papel de educadores. Nos momentos de descontrole da criança, é possível manter uma atitude compreensiva e paciente sem abandonar o dever de guiá-la no rumo certo. Aos poucos, ela deve ser levada a entender que nem todos os seus desejos podem ser satisfeitos e que há coisas que só os pais podem decidir.

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Imagem:
Cécile Veilham
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Tradução da citação:

“Quando nossos pequenos se encontram tomados por fortes emoções, nosso dever é transmitir a eles a nossa tranquilidade, e não nos deixar levar pelo seu caos”. (L. R. Krost)

O apego na primeira infância

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A dependência extrema da criança pequena não resulta somente da necessidade de ser nutrida e fisicamente protegida. Incapaz de regular suas próprias emoções, ela também precisa contar com a mediação de um adulto para manter um estado de equilíbrio psíquico favorável ao seu desenvolvimento. Assim, durante toda a primeira infância, a criança se volta apaixonadamente para a mãe em busca dessa custódia afetiva da qual não pode prescindir. Até aproximadamente os cinco anos de idade, a figura materna será a sua fonte primordial de proteção e consolo.

Porém, para que tudo caminhe bem, é importante que a mãe esteja por perto e sensível às suas necessidades. Em outras palavras, é preciso que ela esteja disposta a se dedicar. O apego à figura materna será tanto mais seguro quanto melhor for a qualidade da resposta que a criança obtiver. E quanto mais seguro o apego, mais forte e preparada ela estará para viver as crises inevitáveis em seu processo de desenvolvimento.

Mas a natureza é realmente sábia. Como as circunstâncias da vida de uma mãe nunca são as ideais, a criança vem equipada com uma série de condutas inatas que lhe permitem exercer um papel ativo na obtenção dessa proximidade física e afetiva tão crucial. Essas condutas são denominadas na literatura de Comportamentos de Apego (Attachment Behaviours).

O primeiro ano
John Bowlby, cuja teoria já pincelei na postagem anterior, classifica os comportamentos de apego em dois tipos. De um lado estariam os comportamentos de sinalização, por meio dos quais o bebê busca atrair a atenção da mãe para que ela se aproxime, mantenha-se perto e ocupe-se dele. Os comportamentos de sinalização são os primeiros a aparecer no curso do desenvolvimento e predominam até aproximadamente os seis meses de idade. Os principais são o choro, o riso, a emissão de sons muito básicos e a busca de contato visual. Um pouco mais tarde, o bebê aprende a balbuciar e começa a estender os braços para pedir colo.

De outro lado, estariam os comportamentos de aproximação. A criança passa a utilizar seus próprios recursos de locomoção para buscar a proximidade de que tanto necessita. Esses comportamentos dependem de uma certa maturidade cognitiva e motora. Em geral, eles aparecem a partir do segundo semestre de vida, e passam a ocorrer concomitantemente aos comportamentos de sinalização. O bebê engatinha ou anda na direção da mãe quando ela se afasta. Segue-a pela casa e tenta escalar as suas pernas para ser pego no colo. Uma vez conquistado o colo, agarra-se ao corpo da mãe para não perdê-lo. Pode afastar-se um pouco para realizar atividades exploratórias, mas logo retorna para verificar se ela ainda está por perto.

É muito comum que a primeira palavra pronunciada pelo bebê seja “mamãe”. Dentro do quadro de referências da teoria do apego, é fácil compreender a enorme conquista que representa, para a criança, o fato de ser finalmente capaz de chamar a sua protetora!

Até o final do primeiro ano de vida, a criança cercada de atenção e cuidado materno já desenvolveu um vínculo de apego seguro com a mãe. Quando a presença do pai é consistente, ele também se torna uma referência importante de proteção e cuidado. E, paralelamente, a criança vai desenvolvendo apegos secundários às outras pessoas com as quais convive cotidianamente.

O segundo ano
No final do primeiro ano de vida, e ao longo de todo o segundo, outras mudanças importantes ocorrem. Aos poucos, a criança começa a desenvolver a consciência da possibilidade de um afastamento iminente da mãe e torna-se capaz de prevê-lo com base em sinais como a troca de roupa, uma bolsa pendurada no ombro, o barulho de chaves, ou mesmo com base em frases que ouve dos adultos. Nessa fase, ela está sempre atenta ao comportamento materno, procurando ler nos movimentos da mãe os menores indícios de que a proximidade tão desejada e necessária pode ser rompida.

A criança chora, por exemplo, na entrada da creche, no momento da separação, mesmo que a professora já represente uma figura de apego secundário. Mas se as pessoas responsáveis temporariamente pelo seu cuidado souberem consolá-la, tranquilizá-la e deixá-la segura, a ausência materna será mais suportável. É importante conversar com ela, explicar o que está se passando e o que vai se passar. Essas explicações não são frases lançadas ao vento. Ao contrário, são muito importantes para a construção da confiança e do vínculo com os adultos.

O terceiro ano
Ao longo do terceiro ano de vida, a criança começa a perceber que as outras pessoas também possuem sentimentos e motivações próprias. É possível lhe explicar, por exemplo, que a mãe precisa sair para trabalhar, mas que depois retornará e ficará muito feliz por estar com ela novamente.

Nessa fase, a criança também já adquiriu habilidades motoras, cognitivas e linguísticas que lhe permitem uma autonomia relativamente maior. É capaz de afastar-se voluntariamente da mãe por um tempo para brincar com coleguinhas ou para realizar uma atividade dirigida por outro adulto, desde que esteja em ambiente já conhecido. O importante passa a ser o seu grau de confiança no retorno da mãe e na qualidade dos cuidados que receberá durante a sua ausência.

Agora pode ser estabelecido, entre a mãe e a criança, um padrão de relação que Bowlby chamou de “parceria”. Dentro de certos limites definidos pelo seu universo linguístico e existencial, é perfeitamente viável conversar e argumentar com ela. Inicia-se aqui então uma nova etapa. Em condições satisfatórias de atenção e cuidado, o apego à mãe e às outras pessoas de referência já está segura e plenamente formado e a criança pode canalizar a maior parte de suas energias para as atividades de exploração.

Dos quatro anos em diante, portanto, amplia-se a sua perspectiva do mundo. Embora ainda seja muito dependente, e possua uma capacidade de auto regulação emocional precária, nessa idade a criança já consegue representar mentalmente a atenção e o cuidado materno, mesmo que esteja temporariamente longe da mãe. Assim, afetivamente segura e emocionalmente liberada pela certeza de que está protegida, ela pode investir sua vitalidade no aprendizado escolar e no alargamento de seu círculo de relações. Está pronta para os desafios e as explorações da segunda infância.

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Cécile Veilham, “Mon Tresor”
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A importância do apego

 

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Desde que conheci a Teoria do Apego, desenvolvida pelo psicanalista e psiquiatra inglês John Bowlby (1907-1990) e por seus seguidores, penso no quanto seria importante que todos os candidatos a mães e pais a conhecessem antes do nascimento de seus filhos. Para se criar e educar bem uma criança, nada é mais importante do que estar consciente da natureza e da função do vínculo que se estabelece – ou deveria se estabelecer – entre ela e os adultos que a cercam. E é exatamente isso o que a Teoria do Apego nos esclarece.

John Bowlby dialoga com vários ramos do conhecimento: etologia, cibernética, psicologia do desenvolvimento e psicanálise. Mas a intenção aqui não é fazer uma apresentação acadêmica de suas ideias. Pretendo apenas compartilhar com os leitores do blog a minha leitura de sua teoria, uma leitura que focaliza os aspectos de maior relevância imediata para quem se ocupa de crianças pequenas no dia-a-dia.

Apego e cuidado

O bebê nasce absolutamente dependente do cuidado de outrem. Sem esse cuidado fatalmente perecerá. Naturalmente, essa função caberia à mãe biológica, que estaria mais equipada do que qualquer outra pessoa para exercê-la. Mas há casos em que, por fatores de ordem fisiológica, psíquica ou cultural, ela pode não estar preparada para esse papel. E também há casos em que a mãe está irremediavelmente ausente, por motivos de força maior.

Mas o bebê também vem equipado com um conjunto de comportamentos instintivos (isto é, padronizados) que visam evocar a atenção da mãe e manter a continuidade do contato físico após o nascimento. Ele sorri buscando contato visual quando ouve a sua voz, e protesta com choro quando ela o deixa sozinho. Estende os braços quando ela retorna, agarra-se ao seu corpo para não perder o colo. Mais crescidinho, ele chama a mãe quando ela se afasta, e a segue pela casa, engatinhando ou andando. Na falta ou na ausência da mãe, esses comportamentos serão direcionados à pessoa que a substitui, permanente ou ocasionalmente.

Bowlby explicou esse conjunto de comportamentos à luz do que denominou de Sistema de Apego (Attachment System). O objetivo seria manter a proximidade entre a criança e o adulto. Guardadas as individualidades de cada bebê, todos eles buscam naturalmente assegurar-se da presença de sua figura protetora. Certas condições fisiológicas (como fome, sede, mal-estar, dor e sono), bem como certas emoções (como medo, tristeza, angústia ou frustração), ameaçam o equilíbrio psicofísico da criança e ativam os seus mecanismos de alarme, demandando uma resposta acolhedora e tranquilizadora do adulto encarregado de seus cuidados. (Como esse adulto nem sempre será a mãe biológica, Bowlby preferiu usar o termo ´figura materna`. Para simplificar, eu direi ´mãe`.)

Mães atentas ou bem preparadas são mais capazes de reconhecer nos comportamentos de apego as necessidades de conforto e proteção de seu filho. É na dinâmica entre o apego da criança e o cuidado da mãe que se desenvolve o vínculo entre ambos. Ao satisfazer de maneira rotineira tais necessidades, a mãe torna-se uma base segura e confiável a partir da qual a criança pode explorar o seu ambiente e se desenvolver. E quanto mais segura da presença e do cuidado materno, mais preparada estará para ampliar, no momento certo, o seu círculo de relações afetivas.

As figuras de apego

Hoje em dia, diferentemente do que ocorria nos tempos de Bowlby, boa parte dos homens procura investir uma parte significativa de seu tempo na interação cotidiana com os filhos. O resultado disso é que, em boa parte das famílias, tanto o pai quanto a mãe estão em posição de se tornarem figuras principais de apego logo nos primeiros meses.

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Mas nos casos em que a mãe ou o pai não são presentes ou atuantes, seja porque precisam trabalhar o dia todo e não dispõem de tempo para os filhos, seja porque preferem mesmo delegar os seus cuidados a terceiros para se dedicar a outras atividades, os comportamentos de apego serão direcionados preferencialmente para a pessoa com quem a criança interage de forma mais constante e contínua. Essa será a sua principal referência, à qual ela tenderá a se reportar em caso de alarme ou stress.

Bowlby fez questão de frisar que a satisfação das necessidades fisiológicas e higiênicas da criança não é o fator que desencadeia o apego. Ou seja, a criança não se apega a uma pessoa simplesmente porque ela lhe dá comida ou troca a sua fralda. Embora a satisfação rotineira dessas necessidades seja muito importante para a sua estabilidade psicofísica, o que faz o bebê se apegar é a sensação de proteção que advém da interação espontânea, do contato visual face a face, da conversa carinhosa. O fator decisivo é a percepção, por parte da criança, de que o adulto está presente, disponível e atento às suas necessidades. Em suma, o bebê se apega à pessoa que lhe der mais atenção genuína.

É claro que, na fase inicial de extrema dependência, em que a criança precisa ser observada e cuidada o tempo todo, o adulto que se ocupa de sua alimentação, de sua higiene e dos outros pormenores ligados à segurança e ao bem-estar físico, estará em posição mais favorável à interação e, consequentemente, à criação de um vínculo de apego. Porém, se essa interação não for interessada, ou seja, se ela não for amorosa, o resultado será um apego instável e inseguro. Por isso, no melhor dos mundos para o bebê, ele passará a maior parte do seu dia sob os cuidados de alguém que o ame e que queira estar ao seu lado.

A formação do apego na primeira infância é tão importante que resolvi dedicar a esse tema uma série de postagens. Nas próximas, vou falar de como o apego se desenvolve no tempo, e de como, ajustando o nosso foco e afinando a nossa sensibilidade, podemos representar para os nossos filhos uma base segura a partir da qual eles vão explorar o mundo e desenvolver as suas melhores potencialidades.

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Imagens:
Cécile Veilham
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Educação começa em casa

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A educação que recebemos em casa, durante os anos da infância, determina, em ampla medida, o modo como nos comportamos e nos relacionamos com as pessoas à nossa volta. A tragédia educacional que vivemos hoje origina-se, portanto, dentro de nossos lares.

Aos seis ou sete anos de idade, uma criança já deve ser capaz de se comportar de maneira adequada nas situações do dia a dia. Porém, o que observamos por aí é o contrário. Crianças que atropelam os adultos na porta do elevador, que não respeitam os mais velhos, que se comportam nos lugares públicos como se o espaço e o tempo lhes pertencessem. Hoje em dia, a maior parte das crianças cresce sem norte, reféns de seus próprios desejos, com uma visão de mundo estreita e auto referenciada. Em qualquer situação que demande a capacidade de se colocar no lugar dos outros, frear impulsos ou seguir regras, logo constatamos que aquelas que de fato receberam orientação em casa compõem uma esmagada minoria.

Vou exemplificar com uma cena que observei, tempos atrás, em uma casa de festas infantis. Tudo transcorria como de costume: muita balbúrdia, música alta, luzes piscando, a voz estridente do animador e o ruído constante dos jogos eletrônicos espalhados no salão. O cenário, obviamente, concorria para aumentar a agitação já natural das crianças. A certa altura, um grupo de meia dúzia de meninos de cerca de sete ou oito anos começou a subir nas mesas de jogos, a pular e a gritar, sob o olhar atônito e desesperado dos funcionários do estabelecimento. A bagunça só acabou quando as próprias crianças chegaram à exaustão.

Você deve estar se perguntando: mas, e os pais dessas crianças, não estavam lá? Sim, eles conversavam nas mesas a alguns metros de distância. E ali permaneceram, visivelmente constrangidos, é verdade, mas limitando-se a balançar a cabeça, de longe, em sinal de reprovação. Nenhum deles se levantou, nenhum deles se dirigiu ao filho para lembrá-lo da necessidade de se comportar como gente. Foi uma cena chocante: total falta de limites das crianças e total falta de limites dos pais.

Toda criança precisa de orientação. A palavra “orientação”, quando aplicada à educação, remete à ideia de presença, de vigilância, de zelo, enfim, de um envolvimento criativo e reflexivo do adulto no processo de formação da pessoa de seu filho. Pois, para se orientar uma criança da maneira adequada, é preciso estar genuinamente disponível, prestar atenção, ocupar-se dela como quem se ocupa de uma vida. E é preciso, sobretudo, conhecê-la, porque cada criança é um indivíduo único no mundo e as estratégias que funcionam com uma não servem necessariamente para outra. Em suma, para que os pais consigam exercer o seu papel de orientadores, eles devem ser capazes de um certo malabarismo: identificar-se com a criança mantendo, não obstante, a sua postura de adultos.

Mas a disponibilidade de tempo e a capacidade de dedicação, por si sós, não são suficientes para garantir uma boa orientação. Atualmente, muitos pais atentos e dedicados mostram-se igualmente perdidos, não sabem o sentido da educação que querem dar para seus filhos, e são incapazes de dizer o mais simplório “não”. Isso ocorre, em parte, porque eles estão confusos em relação à legitimidade de sua própria autoridade. São reféns de uma visão deturpada a respeito do que significa educar.

Esse problema tem uma história. O aprofundamento dos saberes relativos à infância no século XX alterou – podemos dizer mesmo que revolucionou – a nossa percepção e a nossa sensibilidade em relação à criança e nos fez desejar uma educação menos autoritária e inflexível do que a de antigamente. Hoje sabemos que a criança não é um mini adulto que precisa apenas ser adestrado. O psiquismo infantil tem sua especificidade e o desenvolvimento em direção à maturidade plena e sadia depende daquilo que Winnicott chamou de “ambiente facilitador”. Sabemos também que a autoridade dos pais deve estar ancorada na razão e na coerência. Não queremos mais ser rígidos com nossos filhos, queremos respeitar sua individualidade e construir com eles uma relação de confiança mútua.

Porém, como toda revolução conceitual tende a radicalizar um novo ponto de vista, as ideias modernas sobre a infância disseminaram uma visão negativa e distorcida da autoridade e da regra, uma visão que não distingue entre autoridade e autoritarismo, e que entende a regra como imposição de uma violência à individualidade da criança. Informados por essa visão equivocada, os pais acreditam que, sendo firmes, estarão sendo autoritários. Desse modo, educar passou a ser uma atividade praticamente impossível. E o resultado é que a maioria dos pais permite que a criança tome decisões que não lhe cabem e se entregue a comportamentos que a deixarão cada vez mais insegura, descontrolada e sem rumo. Ora, é perfeitamente possível – e necessário – combinar autoridade e afeto. O mais inegociável dos “nãos” pode ser dito com o mais genuíno respeito pela pessoa da criança.

A criança nasce com o potencial de se tornar um adulto plenamente sociável, mas esse potencial não se realiza se ela não puder contar com o auxílio dos adultos. Desde cedo, ela percebe a fragilidade de sua situação. Sabe o quanto depende do adulto para viver, o quanto precisa de sua mão generosa e experiente para se movimentar num mundo organizado a partir de regras cuja lógica ela desconhece. Por tudo isso, a criança sem orientação é a que mais sofre. Ela se sente sozinha, desamparada, desprovida de recursos para lidar com as pequenas adversidades e frustrações do dia-a-dia. Não encontra nos pais a autoridade protetora de que tanto precisa. Ela navega sem bússola e sem farol.

Orientar a criança é responsabilidade inescapável dos pais. Eles devem não só ajudá-la a ampliar o seu conhecimento do mundo, mas também destrinchar para ela os primeiros códigos da vida e ensiná-la a se comportar adequadamente. Isso é como estreitá-la nos braços e dizer: “Estou aqui para te ensinar o que você precisa saber até que seja capaz de entender o mundo e seguir sozinho. Não se preocupe, enquanto for necessário, eu vou te dizer o que é o certo e o que é o errado. Eu vou te guiar.”

A orientação coerente e equilibrada permite que a criança vá aos poucos compreendendo, sem que seja necessário explicar demais, que por detrás das regras há sempre um motivo e que por trás das atitudes dos pais há sempre uma lógica. À medida em que ela introjeta a pertinência das regras, torna-se mais segura, mais consciente de si mesma e de seus próprios atos. Aos poucos, vai conquistando o autocontrole.

A criança desorientada corre o risco de tornar-se um adulto infantilizado, frágil, incapaz de lidar com a frustração. Uma boa orientação, por outro lado, produz adultos fortes, conscientes de seus deveres, seguros de seus valores e capazes de enfrentar as dificuldades da vida com firmeza e altivez.