Sobre a responsabilidade de quem fala pela criança

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Não raro ouço alguém dizer, com ares de conselho, que “o que é bom para a mãe é bom para a criança”. Por exemplo, quando uma mulher precisa se decidir entre deixar ou não o filho pequeno exclusivamente aos cuidados de outra pessoa por um período de tempo prolongado. Mas não se trata de um dito popular. Geralmente, essa frase é disparada por supostos especialistas em alguma área do saber relacionada à criação ou à educação de crianças.

Outro dia me narraram a seguinte situação. A mãe de um bebê de três meses, ainda em aleitamento exclusivo, pediu ajuda da pediatra para resolver um conflito. Ela queria muito viajar para participar de um evento relacionado à sua área de atuação profissional, mas teria que deixar o bebê com a avó por mais de uma semana e, consequentemente, introduzir a alimentação artificial. Adivinhe o que a médica respondeu? “Pode ir. O que é bom para você é bom para o seu filho”. A ideia por trás dessa frase é a seguinte: se a mãe estiver feliz e satisfeita, isso repercutirá positivamente na criança. E aí eu me pergunto: que mágica é essa? Qual é a base conceitual que permite a alguém fazer tal afirmação?

É claro que uma mãe cronicamente deprimida ou estressada dificilmente poderá cuidar do filho de maneira adequada. Não estará em condições de representar para ele a base segura tão essencial ao seu desenvolvimento. Ela precisa de ajuda para sair da triste situação em que se encontra e recuperar o seu eixo, caso contrário, muito provavelmente, deixará a criança insegura e nervosa. O mesmo se aplica obviamente a uma mãe gravemente enferma. Assim, em casos extremos – bem extremos, digo patológicos ou de força maior – o afastamento temporário pode ser necessário para que ela se reabilite física ou mentalmente e retome a sua rotina com a criança com o mínimo de disposição e serenidade. O inverso, porém, não é necessariamente verdadeiro. A mãe pode estar exultante por realizar algo que desejava ou que lhe dá prazer, mas se isso implica afastar-se do filho e privá-lo de sua principal referência afetiva, de que modo o seu estado emocional poderá favorecê-lo?

Os três primeiros anos de vida compõem a fase de formação e consolidação do apego e por isso a presença constante e cotidiana da mãe é fundamental. É com base na segurança decorrente dessa proximidade que a criança vai se expandir em direção ao mundo e se desenvolver. Sabemos que, para a maioria das mulheres, chega um momento em que é necessário se afastar por algum período do dia para trabalhar. Mas quanto mais curto for esse período, tanto melhor. A não ser nos casos em que a figura principal de apego não é a mãe, o que pode ocorrer quando ela está efetiva e continuamente indisponível, seja por escolha própria, seja por força das circunstâncias.

O fato é que a criança pequena ainda não consegue representar mentalmente o afeto e o cuidado maternos, ou seja, a memória da atenção que a mãe habitualmente lhe dispensa não é suficiente para deixá-la segura. Como já mostrei aqui no blog, nos primeiros anos, o que vale é a atenção que lhe é dispensada “aqui e agora”. Bem diferente do que ocorre com as crianças maiores, que podem ser acalmadas por explicações, ou por substitutos como um telefonema ou até mesmo uma fotografia. Portanto, muito embora haja situações em que afastamentos prolongados não podem ser evitados, eles devem ser evitados sempre que possível, porque nunca deixam de envolver algum custo afetivo para a criança. E mesmo que isso implique em frustração para a mãe, não é justo que seja ela a se frustrar? Pois veja a assimetria: de um lado, uma mulher adulta, com capacidade de autodomínio, e que compreende tudo o que se passa; de outro, uma criança imatura, vulnerável e dependente, que não possui recursos para expressar as suas necessidades e para lidar com o estresse causado pela ausência materna.

O que é bom para a criança é estar junto da mãe, considerando-se que, como ocorre na maioria dos casos, ela seja a sua principal referência afetiva. Isso foi demonstrado de maneira cuidadosa e detalhada pelo psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby em sua incontornável Teoria do Apego, à qual já dediquei três artigos. E, ademais, qualquer pessoa que lide cotidianamente com crianças pequenas pode confirmar: em caso de alarme ou stress, é a presença materna que a maioria delas solicita de imediato.

O que leva, então, um especialista em assuntos da infância a afirmar o contrário? Das duas uma. Pode ser que ele desconheça a natureza, a função e a importância do vínculo de apego nos três primeiros anos de vida. Ou talvez, mesmo sabendo o que deveria saber, ele prefira não dizer a verdade por receio de desagradar a cliente. Isso pode até ser conveniente para ambos os lados, mas não é nada honesto.

Em qualquer dos casos, o “especialista” está deixando de assumir a responsabilidade que lhe cabe: a de ser o porta-voz das necessidades da criança. Nunca é demais lembrar que, nessa história toda, ela é a única pessoa que não está em condições de defender a sua própria perspectiva.

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Donald Zolan, “Just We Two”

Crescer de verdade: aprendendo a empatia e o autodomínio

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Volta e meia, aqui no blog, falo sobre ajudarmos nossos filhos a desenvolverem o autodomínio e a empatia. Embora o florescimento dessas capacidades esteja previsto no processo típico de amadurecimento que se desenrola durante a infância, a educação também possui um papel fundamental. Pois enquanto algumas crianças já estão naturalmente mais predispostas, por razões de temperamento, outras precisam de muito incentivo para atualizar de maneira satisfatória essas capacidades.

Principalmente no mundo de hoje, em que se celebra acima de tudo o utilitarismo, o individualismo, a impulsividade, e a busca sôfrega do prazer, uma criança mal orientada corre o risco de não conseguir, do ponto de vista cognitivo e emocional, crescer de verdade. Atualmente, o que mais vemos são adultos autocomplacentes, imaturos e cheios de vontades, que não conseguem adiar satisfação, sofrem por ter que fazer escolhas, tudo querem e tudo exigem para si. Adultos infantilizados que não suportam a estrutura da realidade, e vivem como se a ordem do mundo tivesse que se curvar aos seus desejos, e não o contrário.

Ora, para esse tipo de pessoa, tão característico de nossa época, qualquer projeto que implique controlar impulsos e aceitar perdas ou frustrações é experimentado como um fardo gigantesco. Isso se traduz na enorme dificuldade em lidar com relações que, por sua própria natureza, envolvem a necessidade de renunciar frequentemente à nossa própria satisfação para satisfazer as necessidades de outrem, como é o caso, sabidamente, das relações conjugais e parentais.

Mas, felizmente, enquanto nossos filhos estão debaixo de nossas asas, temos tempo hábil para defendê-los da cultura do infantilismo e do irrealismo, criando condições para que alcancem patamares mais elevados de autodomínio, consciência da realidade e de si mesmos. Precisamos levá-los a compreender que não podemos ter tudo o que desejamos, nem falar tudo o que pensamos; que todos os nossos atos e escolhas têm alguma consequência, e que lidar com isso não é nenhuma tragédia. Ao contrário: que é precisamente ao aceitar os limites dados pelas nossas circunstâncias – algumas herdadas, outras escolhidas – que nos tornamos capazes de nos projetar como seres realmente livres e autogovernados. Mas como transmitir-lhes essa mensagem?

As crianças aprendem valores e princípios morais de duas maneiras: pela assimilação dos preceitos que lhes são transmitidos (discursos) e pela imitação dos modelos que lhes são disponibilizados (exemplos). Depois de completados os dois primeiros anos de vida, já é perfeitamente viável conversar com elas, explicar por que essa ou aquela vontade não pode ser satisfeita naquele momento, ou mesmo por que certo desejo não poderá ser satisfeito jamais. Ensinar que, muitas vezes, vale a pena abrir mão de uma satisfação imediata em nome de outra mais duradoura ou de maior valor. Também já é possível, aproveitando o contexto de situações cotidianas muito simples, estimular a criança a observar e levar em conta a perspectiva dos outros. Tudo isso, é claro, dentro dos limites de sua capacidade cognitiva e de seu nível de compreensão linguística. Não devemos esperar que os pequenos reajam aos preceitos que lhes são passados com uma mudança imediata de comportamento. Educar é um projeto de longo prazo.

Porém, para a maioria das crianças, os preceitos não serão eficazes se não vierem acompanhados de exemplos consistentes.  A regra do “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço” pode até funcionar para algumas, mas não para a grande maioria. Isso é particularmente verdadeiro no caso da empatia, uma vez que o desenvolvimento dessa capacidade está estreitamente relacionado à qualidade da atenção parental. A criança não está plenamente pronta para agir movida pela empatia antes dos quatro anos de idade, mas ela tem a sua primeira lição a respeito do que significa “colocar-se no lugar dos outros” quando percebe que os pais são capazes de adivinhar os seus sentimentos e atender as suas necessidades. Nesta, sobretudo, mas também em todas as outras áreas da afetividade social, o seu comportamento vai sendo atualizado pela imitação do comportamento das pessoas encarregadas dos seus cuidados e às quais ela é apegada.

Mesmo levando em conta as variações individuais, sempre haverá imitação. Por isso, temos que tomar muito cuidado com o modo como nos comportamos e com as palavras que pronunciamos na frente das crianças. E nunca deixar de refletir sobre os seguintes pontos. Será que estamos, em alguma medida, impregnados, também nós mesmos, pela cultura do infantilismo e do irrealismo? Assumimos com coragem e maturidade a tarefa de dirigir a educação de nossos filhos? Eles encontram em casa bons modelos de adultos – e de pais? A quantas anda a nossa própria capacidade de autodomínio? Que exemplo lhes damos quando somos expostos a uma frustração? Temos sido capazes de compreender os seus estados emocionais e de nos fazer presentes sempre que eles precisam, mesmo que isso signifique alterar substancialmente as nossas agendas?

Somos imperfeitos e sempre passíveis de errar. Aceitar esse fato também é sinal de equilíbrio e sabedoria. Mas ao refletir e tomar consciência das falhas de nossa própria formação afetiva, podemos elevar as nossas expectativas e crescer na temperança junto com os nossos filhos. A busca permanente do aperfeiçoamento pessoal é a parte mais difícil da tarefa de quem educa. Mas não deixa, por isso, de ser gratificante. Nossas crianças têm este imenso poder: fazer com que nos tornemos pessoas melhores.

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Vickie Wade, “Dad`s Helper”.

O teste da (sua) atenção

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Cada criança é um indivíduo único no mundo. Jamais encontraremos duas que se comportem exatamente do mesmo modo. Até aí, nenhuma novidade. Porém, ainda assim, poucas pessoas se dão conta de que não é possível falar em educação, principalmente em educação doméstica, se o fator individualidade não for levado seriamente em consideração. Para que possamos bem orientar nossos filhos, precisamos, antes de tudo, percebê-los como eles são. E construir, por meio da constância da nossa presença e do nosso cuidado cotidiano, um conhecimento compreensivo acerca de suas formas de estar no mundo, de seus modos típicos de sentir e reagir, de seus limites, de suas potencialidades. Quem tem mais de um filho sabe perfeitamente: o que funciona com um, não funcionará necessariamente com o outro. E o motivo é simples: pessoas são singularidades, e educar uma criança consiste em fazê-la realizar a sua condição singular do modo mais elevado possível.

Por outro lado, há uma característica comum a todas as crianças pequenas e que está ligada não ao domínio do temperamento, e sim à sua condição de pessoas ainda em formação, ou seja, à sua imaturidade física e cognitiva. Elas são naturalmente inseguras: assustam-se com facilidade, temem gente estranha, e por isso estão sempre buscando estar próximas de nós, e atrair o nosso olhar. Percebem-se extremamente dependentes de nossa intervenção em suas vidas, mas não conseguem representar mentalmente o afeto e o cuidado que lhes dispensamos. Essas características estão interconectadas e compõem o pano de fundo que todo pai e toda mãe de criança de menos de 4 ou 5 anos já conhece: para elas, é tudo ou nada, e só vale o aqui e agora.

Por mais que nossos filhos sejam bem atendidos e bem cuidados, muitas vezes, quando não estamos disponíveis naquele momento exato em que solicitam a nossa atenção, eles sentem e reagem como se o seu pequeno mundo estivesse a desmoronar. E isso não ocorre por mero capricho. Como Charlotte Mason formulou, há cerca de um século, em seu livro “Formation of Character”, ao contrário de nós, adultos, as crianças prescindem da experiência de vida que nos traz a esperança de que as coisas podem melhorar. E como são ainda incapazes de regular suas próprias emoções, elas se desesperam e se descontrolam. Por isso, enquanto realizamos a tarefa fundamental de ajudar nossos filhos a desenvolver o auto-controle e a empatia, capacidades tão importantes para uma vida adulta equilibrada, eles permanecem, por longos anos, extremamente dependentes de nossa atenção e da sensação de segurança que ela produz.

A verdade, porém, é que nem sempre conseguimos dar a eles toda a atenção que julgamos necessária, seja por razões de ordem interna (podemos estar cansados, preocupados, deprimidos, mal-humorados), seja devido às demandas externas, que muitas vezes nos atropelam e nos levam a deslocar o foco. Mas, ainda assim, vamos levando, com pequenos ajustes aqui e acolá. Pais realmente comprometidos e dedicados estão sempre tentando se superar para equilibrar as coisas de modo a favorecer as crianças. Isso não significa satisfazer todas as suas vontades, nem fazer com que se sintam o centro do mundo, e sim garantir condições de segurança emocional para que elas possam se desenvolver sem obstáculos afetivos muito impactantes.

Porém, o que dizer daquelas fases em que percebemos que o comportamento de nosso filho se desviou consideravelmente do padrão? Quando uma criança naturalmente serena e confiante amanhece um dia muito nervosa e insegura, assim permanecendo por um longo período? Ou quando uma criança apenas ligeiramente agitada torna-se de repente uma força da natureza impossível de se controlar, opondo-se a tudo e a todos com agressividade? Ou quando aquela, que é naturalmente atenta e solícita, mostra-se apática e desinteressada de tudo? Vários fatores podem levar uma criança a apresentar um comportamento fora da curva, que nos leve a suspeitar que algo está errado. O que fazer então?

Desde que descartada a possibilidade de uma causa física, antes de procurar ajuda ou aconselhamento, sugiro que você faça o teste da atenção. Ele consiste, simplesmente, em trabalhar com a hipótese de que seu filho esteja precisando ficar mais tempo com você. Intensifique a sua presença e a sua interação com ele. Dê-lhe atenção concentrada durante algumas horas, um suplemento de colo e de carinho, além do habitual. Converse, mostre-se disponível, leve para passear. Muitas vezes, você verá, um pequeno ajuste no foco já é suficiente para normalizar a situação e fazê-lo reencontrar o eixo.

Se, após essa intervenção, a criança voltar ao seu padrão habitual de comportamento, isso pode significar que você, de fato, andou ligando o piloto automático. Mas não necessariamente. É possível, também, que a alteração tenha sido deflagrada por outro fator, por algo que talvez estivesse mesmo fora de sua alçada. De todo modo, qualquer que tenha sido o motivo, só você (pai ou mãe) poderia tê-la ajudado a recuperar a estabilidade perdida.

Nossos filhos precisam ter a certeza de que podem repousar em nosso amor, sempre que precisarem. E a atenção é a forma como o amor se exprime aos olhos da criança pequena.

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Imagem: 

Lilla Cabot Perry (1848-1933), “My Lamb”, 1912.

 

 

A iniciação literária da criança

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A imaturidade linguística e cognitiva da criança pequena não é justificativa para que nos descuidemos da qualidade dos livros que lhe apresentamos. Uma boa educação literária requer, desde o início, atenção à ilustração, à correção do texto, ao vigor da narrativa, e à adequação à faixa etária.

Até os três anos de idade, aproximadamente, a ilustração exerce um papel crucial como fator de atração. Sua presença deve ser marcante, ocupando toda ou quase toda a página. É importante também que ela represente os objetos do mundo sem distorções exageradas de forma ou proporção. Por isso, devem ser evitadas as ilustrações em estilo psicodélico, cubista, ou excessivamente esquemático. Elas confundem e cansam as crianças pequenas, estimulando-as com formas difíceis de compreender e muitas vezes destituídas de qualquer beleza. Ofereça apenas ilustrações coerentes e belas, relativamente próximas do objeto real.

Um dos principais objetivos da educação literária é contribuir para a formação do imaginário infantil. Se a criança nunca viu um galo e queremos que ela conheça esse animal, ampliando assim o seu repertório de imagens da natureza, de que vale mostrar-lhe um desenho que não representa bem um galo, ou, ainda, como ocorre frequentemente hoje em dia, que distorce e enfeia (propositalmente) a imagem do galo real?

Quanto ao texto, deve ser claro e correto, sem gírias ou palavreado vulgar. Tenha sempre em mente o seguinte. Se o seu filho se interessar pelo livro, ao final, muito provavelmente, pedirá que você o releia, até o ponto de memorizar o conteúdo. As crianças pequenas gostam de desfrutar a mesma história duas, três, dezenas, centenas de vezes. A repetição permite que elas absorvam a narrativa em seu próprio ritmo, dando-lhes tempo, também, para elaborar os sentimentos despertados durante a leitura. Além disso, elas apreciam a expectativa de rever as imagens já conhecidas e de antecipar mentalmente o que será dito em seguida. Essa experiência de previsibilidade auxilia a criança na construção do seu senso de ordem.

A seguir, apresento uma periodização bem simples, que deve ser tomada como um parâmetro e não como uma camisa de força. Você conhece seu filho mais do que ninguém e saberá o momento apropriado para passar de uma etapa a outra.

Dos seis aos dezoito meses
Quando, por volta dos seis meses de idade, o bebê já começa a enxergar praticamente como um adulto, as belas e coloridas ilustrações de um livro podem atraí-lo a ponto de prender seu interesse por alguns minutos. Embora as histórias sejam sempre bem-vindas, nessa fase são particularmente interessantes livros que nomeiam objetos do cotidiano, animais, plantas, lugares, etc, ou seja, aqueles voltados para a ampliação do vocabulário. Geralmente, eles trazem apenas o nome do objeto ilustrado ou repetem o mesmo tipo de frase, a cada página fazendo referência a novos objetos. Por exemplo, “veja a árvore”, “veja a nuvem”, “veja a estrela”. Mesmo que ainda não fale, aos doze meses a criança já é capaz de compreender razoavelmente a língua materna, estando apta a aprender palavras novas a cada dia. Você pode enriquecer a leitura com comentários sobre a beleza das imagens, sobre a presença dos objetos retratados em situações cotidianas, etc.

Nessa faixa etária, a biblioteca não precisa ser muito extensa, pois, como eu já disse, o mesmo livro será lido inúmeras vezes. É importante lembrar também que o bebê ainda não possui recursos psíquicos para lidar com uma variedade grande de estímulos, e pode ficar agitado ou cansado. Por isso os livros devem ser apresentados – lidos e relidos – um de cada vez.

Pode ser que o seu filho demonstre mais interesse por alguns em detrimento de outros. Ótimo! Nas próximas aquisições, você pode usar as preferências dele como critério de escolha.

Dos dezoito meses aos três anos
A partir dos dezoito meses, a criança já está preparada para concentrar a atenção em histórias simples, curtas, sem grandes rodeios, com princípio, meio e fim. Embora mais longo e complexo que na fase anterior, ainda é bom que o texto seja estruturado pela repetição. É muito interessante também que ele seja ligeiramente musical, no sentido de possuir um ritmo sonoro previsível a cada leitura. Mas, aos poucos, completados os dois anos de idade, já devem ser introduzidas algumas histórias mais extensas e lineares, preparando a criança para a próxima etapa de sua educação literária, em que a narrativa ganhará cada vez mais relevância.

Os personagens da moda, que a criança eventualmente já aprecie, podem funcionar como atrativos para aproximá-la dos livros. Mas o objetivo da literatura é ampliar o universo linguístico e existencial da criança, formando uma rica e abrangente coleção de imagens mentais.  Por isso, a popularidade do personagem não deve ser critério de escolha. Em geral, os livros que trazem personagens de filmes e desenhos animados são produzidos sem atenção genuína às necessidades do desenvolvimento infantil. Eles possuem um caráter mais comercial, e deixam muito a desejar em termos de qualidade literária.

Evite também os livros que têm por objetivo imediato estimular algum tipo de comportamento específico. Por exemplo, aqueles que ensinam a usar o penico, a não jogar lixo na rua, a dizer “por favor” e “obrigada”.  Assuma, corajosa e pessoalmente, a tarefa de criar bons hábitos em seu filho, dizer o que é certo e o que é errado, educá-lo para a vida e o convívio social. Esse papel é seu. Deixe a literatura encantar o dia-a-dia, alimentar a imaginário e aumentar o repertório cultural da criança.

Por fim, além de apresentar ilustração e texto de qualidade, um bom livro para a primeira infância deve respeitar a criança como um ser vulnerável e em formação, que precisa acreditar na existência da beleza, da justiça e da ordem. Estamos aqui falando de crianças pequenas, e não há nada mais importante nessa fase do que fazê-las se sentirem seguras. Por isso, por mais que a narrativa possa conter surpresas e gerar expectativas, no final é importante que tudo esteja em seu devido lugar.

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Imagem:

Jessie Willcox Smith (1863-1935), “My First Picture Book”.

Devotamento materno: por que e como não perder o foco?

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A maternidade costuma chegar para a mulher contemporânea como um acontecimento festivo, uma conquista pessoal. Porém, ela logo se dá conta da falta de disponibilidade interna para exercer o papel de mãe com devotamento e entrega. Em muitos momentos, a despeito de todo o amor que sente pelo pequeno ser que colocou no mundo, corresponder ao alto grau de dedicação que ele demanda parece estar além de suas forças físicas e psicológicas. Pelo menos, essa é a experiência concreta das mulheres do meio em que eu nasci, cresci e me tornei mãe.

Por que será que nos sentimos existencialmente tão despreparadas para a maternidade? A resposta é simples. Porque nossa cultura individualista, materialista e hedonista não valoriza o devotamento materno. Ao contrário, ela desqualifica a mulher que coloca os filhos no centro de sua existência. Há sempre aquelas que, corajosamente, teimam. Mas como a cultura não lhes ofereceu modelos, elas precisam realizar um enorme e solitário esforço de reconfiguração existencial, além de mobilizar muita energia para nadar contra a corrente.

Não é a primeira vez na história que uma cultura desestimula as mulheres a assumirem de corpo e alma suas responsabilidades maternas. Outros exemplos poderiam ser citados. Mas meu objetivo aqui é falar de nós, e a verdade é que há algumas décadas as mulheres ocidentais urbanas vêm sendo bombardeadas, por todos os lados, com uma intensa propaganda contra a mãe devotada. Não vou nem tratar aqui da militância das correntes feministas que, seguindo o argumento equivocado de Simone de Beauvoir, veem a maternidade como uma opressão da mulher. Estou me dirigindo às mulheres que valorizam sinceramente a maternidade, mas ainda assim hesitam, temendo se desconstruir diante do projeto maternal.

Crescemos ouvindo que ter filhos é algo desejável, desde que eles não sejam um obstáculo às nossas conquistas pessoais. Como se criar bem um filho não fosse, em si, uma grande conquista! Disseram-nos que os filhos, o trabalho, o lazer e a vida amorosa/sexual, são aspectos equivalentes e igualmente imprescindíveis de nossas vidas, que devem ser equacionados de modo que possamos satisfazer cada uma de nossas necessidades, sem perder nada. Crescemos como adultos mimados, incapazes de abrir mão de coisa alguma. E, como, de todas as pessoas com as quais nos relacionamos, as crianças são as que possuem menos recursos para fazer valer sua perspectiva e expressar suas necessidades, acabamos terceirizando demasiadamente os seus cuidados para fazer frente às outras demandas.

Acontece que nossos filhos não são artigos de consumo, eles não vieram ao mundo apenas para satisfazer o nosso desejo de possuí-los. A maternidade não deve ser encarada como uma experiência narcísica. Ela é o projeto grandioso de produzir pessoas, e requer da mulher uma boa dose de maturidade. Como superar a dificuldade de abrir mão, consciente e voluntariamente, de certos prazeres e hábitos que nos distraem e nos levam a perder esse foco?

O primeiro passo é nos convencermos da relevância, ou melhor, da grandiosidade da tarefa materna. Como alguém em sã consciência pode achar, honestamente, que dirigir empresas, vender produtos, estrelar novelas de TV, salvar baleias, ou qualquer outra atividade que uma mulher possa exercer fora de casa, compara-se em importância ao trabalho de cuidar bem dos pequenos seres humanos que colocou no mundo? Essa pergunta deve ser repetida para nós mesmas como se fosse um mantra, principalmente naqueles momentos em que sentimos falta dos aplausos dos outros.

Amamos nossos filhos mais do que tudo. E por eles seríamos capazes de dar a nossa vida. Mas nem sempre conseguimos abrir, em nossa rotina, o espaço prioritário que eles ocupam em nosso coração, e por isso vivemos em conflito. Ficamos enredadas em nossos próprios desejos individualistas, que se transformam e se amplificam na medida mesma em que são satisfeitos. Para escapar dessa armadilha, precisamos de uma profunda mudança de perspectiva, que começa por sermos capazes de discernir entre o que é prioritário e o que é secundário, de valorizar o essencial em lugar do acessório. Essa mudança pode ser libertadora, porque a energia de uma pessoa deve estar ali onde está o seu coração. Exercer a liberdade nada mais é do que fazer o que deve ser feito.

Ninguém faria tanta falta em nossas vidas quanto nossos filhos. E ninguém precisa mais de nós do que eles. Não seriam essas duas constatações já suficientes para nos convencer de que todas as outras coisas devem estar em segundo plano? Diferentemente dos demais projetos com os quais podemos eventualmente nos comprometer, o projeto materno não admite fugas ou escapes honrosos. E isso porque do outro lado da gangorra está um pequeno ser inocente e dependente que possui menos recursos do que nós para lidar com as frustrações. Por isso, o certo é equilibrar todas as outras coisas de modo que ele não seja prejudicado.

Mas que fique claro: o meu elogio ao devotamento materno não envolve nenhum tipo de sentimentalismo ou idealização. Não existe a mãe impecável, pois, como seres humanos que somos, nascemos inevitavelmente imperfeitas. Porém existe, sim, a mãe madura e responsável, que não se furta a assumir com zelo e determinação o seu papel. Quaisquer que sejam as circunstâncias concretas de sua vida, ela sempre acaba acertando no conjunto da obra. Porque se uma criança tem a atenção e o cuidado de sua mãe, tudo o mais virá como consequência.

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Lucia Coghetto, “Dolce Amore”

Dica simples para ensinar seu filho a lidar com a frustração

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Se você está lendo este texto, é porque se preocupa com a formação afetiva de seu filho e quer ajudá-lo a se tornar uma pessoa equilibrada. Mas esse é precisamente o aspecto do trabalho parental que costuma vir mais acompanhado de dúvidas e hesitações. A maioria dos pais se pergunta, por exemplo: como agir naquelas situações em que a criança perde o controle de si mesma por não ser capaz de lidar com alguma frustração? Estou falando daquele tipo de comportamento que costumamos chamar de “chilique”.

Não está em nosso poder definir a configuração afetiva de nossos filhos quando adultos. Mas é, sim, nosso papel ajudá-los em duas conquistas fundamentais: a autoconsciência e o autocontrole. Sem esse auxílio, o caminho deles pode ser muito mais árduo e tortuoso. E, dependendo do temperamento da criança, corremos o risco de ver o chilique se cristalizar como padrão de reação vida afora. Afinal de contas, quem não conhece adultos incapazes de lidar com frustrações sem perder o controle de si mesmos…?

Mas como ajudar a criança nesse sentido? Se você é leitor assíduo de meus textos, já sabe que eu não acredito em fórmulas educacionais prontas e universais. Cada criança é um indivíduo único no mundo e o que funciona com uma não funcionará necessariamente com outra.

Recentemente, porém, me deparei com uma dica simples e útil. Ela me pareceu tão interessante que resolvi compartilhá-la aqui. Encontrei-a num artigo intitulado “Como desarmar o chilique de um filho com uma pergunta”, de autoria de Fabiana Santos, e publicado no blog “Tudo Sobre Minha Mãe”. Transcrevo o trecho central:

“(…) quando um chilique começar – seja porque o braço da boneca saiu do lugar, seja porque está na hora de dormir, seja porque o dever de casa não saiu do jeito que ela queria, seja porque ela não quer fazer uma tarefa – seja o motivo que for, podemos fazer a seguinte pergunta para a criança, olhando nos olhos dela e com bastante calma: “Isto é um problema grande, um problema médio ou um problema pequeno?

Aqueles momentos pensando a respeito do que está acontecendo à sua volta, sinceramente, pelo menos aqui em casa, se tornaram mágicos. E todas as vezes que faço a pergunta e ela responde, a gente dá um jeito de resolver o problema a partir da percepção dela de onde buscar a solução. Um pequeno sempre é rápido e tranquilo de resolver. Algum que ela considera médio, muito provavelmente será resolvido mas não na mesma hora e ela vai entender que há coisas que precisam de algum desdobramento para acontecer. Se um problema for grave – e obviamente que grave na cabeça de uma criança não pode ser algo a ser desprezado mesmo que para a gente pareça bobo – talvez seja preciso mais conversa e atenção para ela entender que há coisas que não saem exatamente como a gente quer.”

Levar a criança a refletir sobre o tamanho do problema, e a colocar-se em perspectiva de resolvê-lo, é uma estratégia bem interessante. Mas ela me parece particularmente indicada quando o descontrole surge a partir de uma situação com a qual a criança se deparou sozinha (um brinquedo que se desencaixa, uma atividade difícil de realizar). No caso de uma frustração resultante da ação dos pais ou de circunstâncias mais amplas, o cenário é um pouco mais complexo, porque entram em jogo questões de relacionamento, autoridade, hierarquia, respeito às regras. Há uma diferença clara entre perceber que um brinquedo desencaixado pode ser um problema de fácil solução e aceitar que está na hora de ir para a cama. Nesse último caso, não se trata tanto de dimensionar um problema, e sim da criança entender que há certas decisões que sempre caberão aos adultos.

Mas quando o motivo do descontrole não envolve questões de autoridade e respeito às regras, o mais importante é mesmo levá-la a prestar atenção no ocorrido e nos sentimentos que ele suscitou. Nem sempre o resultado da conversa será como desejamos. E é preciso inclusive ter a sensibilidade de avaliar se o estado de descontrole da criança permitirá que ela entenda o que você vai dizer. Sempre vale acalmá-la antes de propor a questão.

De todo modo, mesmo que a criança se recuse a responder, a pergunta sobre o tamanho do problema vai ficar reverberando em sua mente. Com o tempo, ela compreenderá que um problema sempre parece menor quando somos capazes de observá-lo à distância. E também perceberá que boa parte deles não merece tanto dispêndio de emoção e energia. Com isso, ela estará dando um passo importante na direção da auto regulação emocional e da construção de uma personalidade equilibrada.

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Imagem: 

Frederik Morgan (1847-1927), “Never mind”, 1881.

Por que o choro da criança nunca deve ser ignorado?

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O choro é a única forma eficaz de comunicação que a criança pequena possui. Até que a fala esteja desenvolvida a ponto de permitir que se expresse de maneira competente, ela vai chorar toda vez que estiver diante de uma situação que não pode enfrentar sozinha e que lhe causa um nível de stress físico ou emocional além de sua própria capacidade de auto regulação.

Não se deve esperar que uma criança seja capaz de substituir o choro pela comunicação verbal, ou por qualquer outro tipo de comunicação, antes dos 3 anos de idade. Mas a verdade é que poucas coisas incomodam tanto um adulto quanto o choro infantil. E isso não é à toa. Da mesma forma que as crianças são programadas pela natureza para chorar quando experimentam algum tipo de desconforto físico ou emocional, os adultos são programados para reagir ao choro com estratégias para fazê-lo cessar.

A primeira e mais natural reação da mãe que ouve o choro de seu filho pequeno é ir até ele, e pegá-lo no colo. É precisamente por ser estressante que o choro funciona como tem que funcionar: direcionando a atenção do adulto para a criança que chora e estimulando-o a entrar em campo no seu papel de mediador entre ela e o mundo.

Muitas vezes, porém, o choro se torna algo difícil de se lidar, principalmente quando as causas não são evidentes ou de fácil solução. Antes de mais nada, é preciso manter a calma. O fundamental é que a criança perceba que você está disponível e que ela terá a sua atenção. Se a causa for algum mal-estar físico, será preciso agir objetivamente, oferecendo o antídoto certo para o seu desconforto. Quando a criança chora porque está se sentindo só, desprotegida, entediada, ou porque se desestabilizou com algum estímulo externo, o choro tende a cessar quando ela é levada ao colo, aconchegada e (principalmente no caso do bebê novinho) embalada. Ouvir a voz dos pais também tem um efeito calmante.

Até o final do primeiro ano de vida, o choro é sempre sinal de algum desconforto físico ou emocional imediato. A partir dos doze meses, porém, o cenário se complica um pouco. Na medida em que adquire maior competência motora e cognitiva para explorar o ambiente que a cerca, a criança começa a ampliar a sua gama de necessidades. Ela passa a colecionar desejos que nem sempre podem ser satisfeitos. Surgem então outros tipos de choro, a que costumamos nos referir como “manha”, “birra”, ou “chilique”.

É sempre importante ter em mente que não existe choro sem motivo. Para uma criança pequena, ter que ir embora da pracinha, por exemplo, pode representar uma grande tragédia! Não obstante, existem motivos a que os adultos não podem ou não devem ceder. É preciso ensinar à criança que nem todos os seus desejos poderão ser satisfeitos, que existem limites ao que ela pode obter do mundo. Mas sempre de maneira gentil e acolhedora. Muitas vezes, basta distrair a criança para que ela esqueça o motivo do choro. Quando isso não ocorre, o melhor é tentar acalmá-la; de maneira afetuosa, porém firme.

Antes dos três anos de idade, a criança não é capaz de representar mentalmente o afeto e a atenção que recebe. Ela só entende os adultos com base na forma como eles se comportam: o que dizem, o que fazem, como reagem. Por isso, quando os pais simplesmente ignoram o seu choro, transmitem-lhe a mensagem de que ignoram os seus sentimentos, mesmo que isso não seja verdade. É preciso chegar junto da criança nesses momentos, conversar com ela e ajudá-la a compreender as suas próprias emoções e reações.

Voltando ao exemplo da saída da pracinha: você pode lhe dizer, por exemplo, que entende o seu aborrecimento, mas que é realmente necessário voltar para casa, e que a pracinha estará lá, no mesmo lugar, quando ela retornar no dia seguinte. Talvez ela não pare logo de chorar, mas certamente vai aprender que existe uma conexão entre aquilo que sente e a forma como reage. Conhecer suas próprias emoções é um passo importante para que ela aprenda a lidar com as frustrações.

Para resumir, o choro é uma janela que nos permite ver o mundo com os olhos da criança, nos dá acesso ao seu universo afetivo e nos possibilita guiá-la na direção do autoconhecimento e da auto regulação emocional. Se você conseguir encará-lo dessa forma, vai lidar com ele com muito mais segurança e tranquilidade.

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Imagem:

Lilla Cabot Perry (1848 – 1933), “Mère et enfant”, 1910.