O teste da (sua) atenção

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Cada criança é um indivíduo único no mundo. Jamais encontraremos duas que se comportem exatamente do mesmo modo. Até aí, nenhuma novidade. Porém, ainda assim, poucas pessoas se dão conta de que não é possível falar em educação, principalmente em educação doméstica, se o fator individualidade não for levado seriamente em consideração. Para que possamos bem orientar nossos filhos, precisamos, antes de tudo, percebê-los como eles são. E construir, por meio da constância da nossa presença e do nosso cuidado cotidiano, um conhecimento compreensivo acerca de suas formas de estar no mundo, de seus modos típicos de sentir e reagir, de seus limites, de suas potencialidades. Quem tem mais de um filho sabe perfeitamente: o que funciona com um, não funcionará necessariamente com o outro. E o motivo é simples: pessoas são singularidades, e educar uma criança consiste em fazê-la realizar a sua condição singular do modo mais elevado possível.

Por outro lado, há uma característica comum a todas as crianças pequenas e que está ligada não ao domínio do temperamento, e sim à sua condição de pessoas ainda em formação, ou seja, à sua imaturidade física e cognitiva. Elas são naturalmente inseguras: assustam-se com facilidade, temem gente estranha, e por isso estão sempre buscando estar próximas de nós, e atrair o nosso olhar. Percebem-se extremamente dependentes de nossa intervenção em suas vidas, mas não conseguem representar mentalmente o afeto e o cuidado que lhes dispensamos. Essas características estão interconectadas e compõem o pano de fundo que todo pai e toda mãe de criança de menos de 4 ou 5 anos já conhece: para elas, é tudo ou nada, e só vale o aqui e agora.

Por mais que nossos filhos sejam bem atendidos e bem cuidados, muitas vezes, quando não estamos disponíveis naquele momento exato em que solicitam a nossa atenção, eles sentem e reagem como se o seu pequeno mundo estivesse a desmoronar. E isso não ocorre por mero capricho. Como Charlotte Mason formulou, há cerca de um século, em seu livro “Formation of Character”, ao contrário de nós, adultos, as crianças prescindem da experiência de vida que nos traz a esperança de que as coisas podem melhorar. E como são ainda incapazes de regular suas próprias emoções, elas se desesperam e se descontrolam. Por isso, enquanto realizamos a tarefa fundamental de ajudar nossos filhos a desenvolver o auto-controle e a empatia, capacidades tão importantes para uma vida adulta equilibrada, eles permanecem, por longos anos, extremamente dependentes de nossa atenção e da sensação de segurança que ela produz.

A verdade, porém, é que nem sempre conseguimos dar a eles toda a atenção que julgamos necessária, seja por razões de ordem interna (podemos estar cansados, preocupados, deprimidos, mal-humorados), seja devido às demandas externas, que muitas vezes nos atropelam e nos levam a deslocar o foco. Mas, ainda assim, vamos levando, com pequenos ajustes aqui e acolá. Pais realmente comprometidos e dedicados estão sempre tentando se superar para equilibrar as coisas de modo a favorecer as crianças. Isso não significa satisfazer todas as suas vontades, nem fazer com que se sintam o centro do mundo, e sim garantir condições de segurança emocional para que elas possam se desenvolver sem obstáculos afetivos muito impactantes.

Porém, o que dizer daquelas fases em que percebemos que o comportamento de nosso filho se desviou consideravelmente do padrão? Quando uma criança naturalmente serena e confiante amanhece um dia muito nervosa e insegura, assim permanecendo por um longo período? Ou quando uma criança apenas ligeiramente agitada torna-se de repente uma força da natureza impossível de se controlar, opondo-se a tudo e a todos com agressividade? Ou quando aquela, que é naturalmente atenta e solícita, mostra-se apática e desinteressada de tudo? Vários fatores podem levar uma criança a apresentar um comportamento fora da curva, que nos leve a suspeitar que algo está errado. O que fazer então?

Desde que descartada a possibilidade de uma causa física, antes de procurar ajuda ou aconselhamento, sugiro que você faça o teste da atenção. Ele consiste, simplesmente, em trabalhar com a hipótese de que seu filho esteja precisando ficar mais tempo com você. Intensifique a sua presença e a sua interação com ele. Dê-lhe atenção concentrada durante algumas horas, um suplemento de colo e de carinho, além do habitual. Converse, mostre-se disponível, leve para passear. Muitas vezes, você verá, um pequeno ajuste no foco já é suficiente para normalizar a situação e fazê-lo reencontrar o eixo.

Se, após essa intervenção, a criança voltar ao seu padrão habitual de comportamento, isso pode significar que você, de fato, andou ligando o piloto automático. Mas não necessariamente. É possível, também, que a alteração tenha sido deflagrada por outro fator, por algo que talvez estivesse mesmo fora de sua alçada. De todo modo, qualquer que tenha sido o motivo, só você (pai ou mãe) poderia tê-la ajudado a recuperar a estabilidade perdida.

Nossos filhos precisam ter a certeza de que podem repousar em nosso amor, sempre que precisarem. E a atenção é a forma como o amor se exprime aos olhos da criança pequena.

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Imagem: 

Lilla Cabot Perry (1848-1933), “My Lamb”, 1912.

 

 

A iniciação literária da criança

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A imaturidade linguística e cognitiva da criança pequena não é justificativa para que nos descuidemos da qualidade dos livros que lhe apresentamos. Uma boa educação literária requer, desde o início, atenção à ilustração, à correção do texto, ao vigor da narrativa, e à adequação à faixa etária.

Até os três anos de idade, aproximadamente, a ilustração exerce um papel crucial como fator de atração. Sua presença deve ser marcante, ocupando toda ou quase toda a página. É importante também que ela represente os objetos do mundo sem distorções exageradas de forma ou proporção. Por isso, devem ser evitadas as ilustrações em estilo psicodélico, cubista, ou excessivamente esquemático. Elas confundem e cansam as crianças pequenas, estimulando-as com formas difíceis de compreender e muitas vezes destituídas de qualquer beleza. Ofereça apenas ilustrações coerentes e belas, relativamente próximas do objeto real.

Um dos principais objetivos da educação literária é contribuir para a formação do imaginário infantil. Se a criança nunca viu um galo e queremos que ela conheça esse animal, ampliando assim o seu repertório de imagens da natureza, de que vale mostrar-lhe um desenho que não representa bem um galo, ou, ainda, como ocorre frequentemente hoje em dia, que distorce e enfeia (propositalmente) a imagem do galo real?

Quanto ao texto, deve ser claro e correto, sem gírias ou palavreado vulgar. Tenha sempre em mente o seguinte. Se o seu filho se interessar pelo livro, ao final, muito provavelmente, pedirá que você o releia, até o ponto de memorizar o conteúdo. As crianças pequenas gostam de desfrutar a mesma história duas, três, dezenas, centenas de vezes. A repetição permite que elas absorvam a narrativa em seu próprio ritmo, dando-lhes tempo, também, para elaborar os sentimentos despertados durante a leitura. Além disso, elas apreciam a expectativa de rever as imagens já conhecidas e de antecipar mentalmente o que será dito em seguida. Essa experiência de previsibilidade auxilia a criança na construção do seu senso de ordem.

A seguir, apresento uma periodização bem simples, que deve ser tomada como um parâmetro e não como uma camisa de força. Você conhece seu filho mais do que ninguém e saberá o momento apropriado para passar de uma etapa a outra.

Dos seis aos dezoito meses
Quando, por volta dos seis meses de idade, o bebê já começa a enxergar praticamente como um adulto, as belas e coloridas ilustrações de um livro podem atraí-lo a ponto de prender seu interesse por alguns minutos. Embora as histórias sejam sempre bem-vindas, nessa fase são particularmente interessantes livros que nomeiam objetos do cotidiano, animais, plantas, lugares, etc, ou seja, aqueles voltados para a ampliação do vocabulário. Geralmente, eles trazem apenas o nome do objeto ilustrado ou repetem o mesmo tipo de frase, a cada página fazendo referência a novos objetos. Por exemplo, “veja a árvore”, “veja a nuvem”, “veja a estrela”. Mesmo que ainda não fale, aos doze meses a criança já é capaz de compreender razoavelmente a língua materna, estando apta a aprender palavras novas a cada dia. Você pode enriquecer a leitura com comentários sobre a beleza das imagens, sobre a presença dos objetos retratados em situações cotidianas, etc.

Nessa faixa etária, a biblioteca não precisa ser muito extensa, pois, como eu já disse, o mesmo livro será lido inúmeras vezes. É importante lembrar também que o bebê ainda não possui recursos psíquicos para lidar com uma variedade grande de estímulos, e pode ficar agitado ou cansado. Por isso os livros devem ser apresentados – lidos e relidos – um de cada vez.

Pode ser que o seu filho demonstre mais interesse por alguns em detrimento de outros. Ótimo! Nas próximas aquisições, você pode usar as preferências dele como critério de escolha.

Dos dezoito meses aos três anos
A partir dos dezoito meses, a criança já está preparada para concentrar a atenção em histórias simples, curtas, sem grandes rodeios, com princípio, meio e fim. Embora mais longo e complexo que na fase anterior, ainda é bom que o texto seja estruturado pela repetição. É muito interessante também que ele seja ligeiramente musical, no sentido de possuir um ritmo sonoro previsível a cada leitura. Mas, aos poucos, completados os dois anos de idade, já devem ser introduzidas algumas histórias mais extensas e lineares, preparando a criança para a próxima etapa de sua educação literária, em que a narrativa ganhará cada vez mais relevância.

Os personagens da moda, que a criança eventualmente já aprecie, podem funcionar como atrativos para aproximá-la dos livros. Mas o objetivo da literatura é ampliar o universo linguístico e existencial da criança, formando uma rica e abrangente coleção de imagens mentais.  Por isso, a popularidade do personagem não deve ser critério de escolha. Em geral, os livros que trazem personagens de filmes e desenhos animados são produzidos sem atenção genuína às necessidades do desenvolvimento infantil. Eles possuem um caráter mais comercial, e deixam muito a desejar em termos de qualidade literária.

Evite também os livros que têm por objetivo imediato estimular algum tipo de comportamento específico. Por exemplo, aqueles que ensinam a usar o penico, a não jogar lixo na rua, a dizer “por favor” e “obrigada”.  Assuma, corajosa e pessoalmente, a tarefa de criar bons hábitos em seu filho, dizer o que é certo e o que é errado, educá-lo para a vida e o convívio social. Esse papel é seu. Deixe a literatura encantar o dia-a-dia, alimentar a imaginário e aumentar o repertório cultural da criança.

Por fim, além de apresentar ilustração e texto de qualidade, um bom livro para a primeira infância deve respeitar a criança como um ser vulnerável e em formação, que precisa acreditar na existência da beleza, da justiça e da ordem. Estamos aqui falando de crianças pequenas, e não há nada mais importante nessa fase do que fazê-las se sentirem seguras. Por isso, por mais que a narrativa possa conter surpresas e gerar expectativas, no final é importante que tudo esteja em seu devido lugar.

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Imagem:

Jessie Willcox Smith (1863-1935), “My First Picture Book”.

Devotamento materno: por que e como não perder o foco?

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A maternidade costuma chegar para a mulher contemporânea como um acontecimento festivo, uma conquista pessoal. Porém, ela logo se dá conta da falta de disponibilidade interna para exercer o papel de mãe com devotamento e entrega. Em muitos momentos, a despeito de todo o amor que sente pelo pequeno ser que colocou no mundo, corresponder ao alto grau de dedicação que ele demanda parece estar além de suas forças físicas e psicológicas. Pelo menos, essa é a experiência concreta das mulheres do meio em que eu nasci, cresci e me tornei mãe.

Por que será que nos sentimos existencialmente tão despreparadas para a maternidade? A resposta é simples. Porque nossa cultura individualista, materialista e hedonista não valoriza o devotamento materno. Ao contrário, ela desqualifica a mulher que coloca os filhos no centro de sua existência. Há sempre aquelas que, corajosamente, teimam. Mas como a cultura não lhes ofereceu modelos, elas precisam realizar um enorme e solitário esforço de reconfiguração existencial, além de mobilizar muita energia para nadar contra a corrente.

Não é a primeira vez na história que uma cultura desestimula as mulheres a assumirem de corpo e alma suas responsabilidades maternas. Outros exemplos poderiam ser citados. Mas meu objetivo aqui é falar de nós, e a verdade é que há algumas décadas as mulheres ocidentais urbanas vêm sendo bombardeadas, por todos os lados, com uma intensa propaganda contra a mãe devotada. Não vou nem tratar aqui da militância das correntes feministas que, seguindo o argumento equivocado de Simone de Beauvoir, veem a maternidade como uma opressão da mulher. Estou me dirigindo às mulheres que valorizam sinceramente a maternidade, mas ainda assim hesitam, temendo se desconstruir diante do projeto maternal.

Crescemos ouvindo que ter filhos é algo desejável, desde que eles não sejam um obstáculo às nossas conquistas pessoais. Como se criar bem um filho não fosse, em si, uma grande conquista! Disseram-nos que os filhos, o trabalho, o lazer e a vida amorosa/sexual, são aspectos equivalentes e igualmente imprescindíveis de nossas vidas, que devem ser equacionados de modo que possamos satisfazer cada uma de nossas necessidades, sem perder nada. Crescemos como adultos mimados, incapazes de abrir mão de coisa alguma. E, como, de todas as pessoas com as quais nos relacionamos, as crianças são as que possuem menos recursos para fazer valer sua perspectiva e expressar suas necessidades, acabamos terceirizando demasiadamente os seus cuidados para fazer frente às outras demandas.

Acontece que nossos filhos não são artigos de consumo, eles não vieram ao mundo apenas para satisfazer o nosso desejo de possuí-los. A maternidade não deve ser encarada como uma experiência narcísica. Ela é o projeto grandioso de produzir pessoas, e requer da mulher uma boa dose de maturidade. Como superar a dificuldade de abrir mão, consciente e voluntariamente, de certos prazeres e hábitos que nos distraem e nos levam a perder esse foco?

O primeiro passo é nos convencermos da relevância, ou melhor, da grandiosidade da tarefa materna. Como alguém em sã consciência pode achar, honestamente, que dirigir empresas, vender produtos, estrelar novelas de TV, salvar baleias, ou qualquer outra atividade que uma mulher possa exercer fora de casa, compara-se em importância ao trabalho de cuidar bem dos pequenos seres humanos que colocou no mundo? Essa pergunta deve ser repetida para nós mesmas como se fosse um mantra, principalmente naqueles momentos em que sentimos falta dos aplausos dos outros.

Amamos nossos filhos mais do que tudo. E por eles seríamos capazes de dar a nossa vida. Mas nem sempre conseguimos abrir, em nossa rotina, o espaço prioritário que eles ocupam em nosso coração, e por isso vivemos em conflito. Ficamos enredadas em nossos próprios desejos individualistas, que se transformam e se amplificam na medida mesma em que são satisfeitos. Para escapar dessa armadilha, precisamos de uma profunda mudança de perspectiva, que começa por sermos capazes de discernir entre o que é prioritário e o que é secundário, de valorizar o essencial em lugar do acessório. Essa mudança pode ser libertadora, porque a energia de uma pessoa deve estar ali onde está o seu coração. Exercer a liberdade nada mais é do que fazer o que deve ser feito.

Ninguém faria tanta falta em nossas vidas quanto nossos filhos. E ninguém precisa mais de nós do que eles. Não seriam essas duas constatações já suficientes para nos convencer de que todas as outras coisas devem estar em segundo plano? Diferentemente dos demais projetos com os quais podemos eventualmente nos comprometer, o projeto materno não admite fugas ou escapes honrosos. E isso porque do outro lado da gangorra está um pequeno ser inocente e dependente que possui menos recursos do que nós para lidar com as frustrações. Por isso, o certo é equilibrar todas as outras coisas de modo que ele não seja prejudicado.

Mas que fique claro: o meu elogio ao devotamento materno não envolve nenhum tipo de sentimentalismo ou idealização. Não existe a mãe impecável, pois, como seres humanos que somos, nascemos inevitavelmente imperfeitas. Porém existe, sim, a mãe madura e responsável, que não se furta a assumir com zelo e determinação o seu papel. Quaisquer que sejam as circunstâncias concretas de sua vida, ela sempre acaba acertando no conjunto da obra. Porque se uma criança tem a atenção e o cuidado de sua mãe, tudo o mais virá como consequência.

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Lucia Coghetto, “Dolce Amore”

Dica simples para ensinar seu filho a lidar com a frustração

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Se você está lendo este texto, é porque se preocupa com a formação afetiva de seu filho e quer ajudá-lo a se tornar uma pessoa equilibrada. Mas esse é precisamente o aspecto do trabalho parental que costuma vir mais acompanhado de dúvidas e hesitações. A maioria dos pais se pergunta, por exemplo: como agir naquelas situações em que a criança perde o controle de si mesma por não ser capaz de lidar com alguma frustração? Estou falando daquele tipo de comportamento que costumamos chamar de “chilique”.

Não está em nosso poder definir a configuração afetiva de nossos filhos quando adultos. Mas é, sim, nosso papel ajudá-los em duas conquistas fundamentais: a autoconsciência e o autocontrole. Sem esse auxílio, o caminho deles pode ser muito mais árduo e tortuoso. E, dependendo do temperamento da criança, corremos o risco de ver o chilique se cristalizar como padrão de reação vida afora. Afinal de contas, quem não conhece adultos incapazes de lidar com frustrações sem perder o controle de si mesmos…?

Mas como ajudar a criança nesse sentido? Se você é leitor assíduo de meus textos, já sabe que eu não acredito em fórmulas educacionais prontas e universais. Cada criança é um indivíduo único no mundo e o que funciona com uma não funcionará necessariamente com outra.

Recentemente, porém, me deparei com uma dica simples e útil. Ela me pareceu tão interessante que resolvi compartilhá-la aqui. Encontrei-a num artigo intitulado “Como desarmar o chilique de um filho com uma pergunta”, de autoria de Fabiana Santos, e publicado no blog “Tudo Sobre Minha Mãe”. Transcrevo o trecho central:

“(…) quando um chilique começar – seja porque o braço da boneca saiu do lugar, seja porque está na hora de dormir, seja porque o dever de casa não saiu do jeito que ela queria, seja porque ela não quer fazer uma tarefa – seja o motivo que for, podemos fazer a seguinte pergunta para a criança, olhando nos olhos dela e com bastante calma: “Isto é um problema grande, um problema médio ou um problema pequeno?

Aqueles momentos pensando a respeito do que está acontecendo à sua volta, sinceramente, pelo menos aqui em casa, se tornaram mágicos. E todas as vezes que faço a pergunta e ela responde, a gente dá um jeito de resolver o problema a partir da percepção dela de onde buscar a solução. Um pequeno sempre é rápido e tranquilo de resolver. Algum que ela considera médio, muito provavelmente será resolvido mas não na mesma hora e ela vai entender que há coisas que precisam de algum desdobramento para acontecer. Se um problema for grave – e obviamente que grave na cabeça de uma criança não pode ser algo a ser desprezado mesmo que para a gente pareça bobo – talvez seja preciso mais conversa e atenção para ela entender que há coisas que não saem exatamente como a gente quer.”

Levar a criança a refletir sobre o tamanho do problema, e a colocar-se em perspectiva de resolvê-lo, é uma estratégia bem interessante. Mas ela me parece particularmente indicada quando o descontrole surge a partir de uma situação com a qual a criança se deparou sozinha (um brinquedo que se desencaixa, uma atividade difícil de realizar). No caso de uma frustração resultante da ação dos pais ou de circunstâncias mais amplas, o cenário é um pouco mais complexo, porque entram em jogo questões de relacionamento, autoridade, hierarquia, respeito às regras. Há uma diferença clara entre perceber que um brinquedo desencaixado pode ser um problema de fácil solução e aceitar que está na hora de ir para a cama. Nesse último caso, não se trata tanto de dimensionar um problema, e sim da criança entender que há certas decisões que sempre caberão aos adultos.

Mas quando o motivo do descontrole não envolve questões de autoridade e respeito às regras, o mais importante é mesmo levá-la a prestar atenção no ocorrido e nos sentimentos que ele suscitou. Nem sempre o resultado da conversa será como desejamos. E é preciso inclusive ter a sensibilidade de avaliar se o estado de descontrole da criança permitirá que ela entenda o que você vai dizer. Sempre vale acalmá-la antes de propor a questão.

De todo modo, mesmo que a criança se recuse a responder, a pergunta sobre o tamanho do problema vai ficar reverberando em sua mente. Com o tempo, ela compreenderá que um problema sempre parece menor quando somos capazes de observá-lo à distância. E também perceberá que boa parte deles não merece tanto dispêndio de emoção e energia. Com isso, ela estará dando um passo importante na direção da auto regulação emocional e da construção de uma personalidade equilibrada.

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Imagem: 

Frederik Morgan (1847-1927), “Never mind”, 1881.

Por que o choro da criança nunca deve ser ignorado?

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O choro é a única forma eficaz de comunicação que a criança pequena possui. Até que a fala esteja desenvolvida a ponto de permitir que se expresse de maneira competente, ela vai chorar toda vez que estiver diante de uma situação que não pode enfrentar sozinha e que lhe causa um nível de stress físico ou emocional além de sua própria capacidade de auto regulação.

Não se deve esperar que uma criança seja capaz de substituir o choro pela comunicação verbal, ou por qualquer outro tipo de comunicação, antes dos 3 anos de idade. Mas a verdade é que poucas coisas incomodam tanto um adulto quanto o choro infantil. E isso não é à toa. Da mesma forma que as crianças são programadas pela natureza para chorar quando experimentam algum tipo de desconforto físico ou emocional, os adultos são programados para reagir ao choro com estratégias para fazê-lo cessar.

A primeira e mais natural reação da mãe que ouve o choro de seu filho pequeno é ir até ele, e pegá-lo no colo. É precisamente por ser estressante que o choro funciona como tem que funcionar: direcionando a atenção do adulto para a criança que chora e estimulando-o a entrar em campo no seu papel de mediador entre ela e o mundo.

Muitas vezes, porém, o choro se torna algo difícil de se lidar, principalmente quando as causas não são evidentes ou de fácil solução. Antes de mais nada, é preciso manter a calma. O fundamental é que a criança perceba que você está disponível e que ela terá a sua atenção. Se a causa for algum mal-estar físico, será preciso agir objetivamente, oferecendo o antídoto certo para o seu desconforto. Quando a criança chora porque está se sentindo só, desprotegida, entediada, ou porque se desestabilizou com algum estímulo externo, o choro tende a cessar quando ela é levada ao colo, aconchegada e (principalmente no caso do bebê novinho) embalada. Ouvir a voz dos pais também tem um efeito calmante.

Até o final do primeiro ano de vida, o choro é sempre sinal de algum desconforto físico ou emocional imediato. A partir dos doze meses, porém, o cenário se complica um pouco. Na medida em que adquire maior competência motora e cognitiva para explorar o ambiente que a cerca, a criança começa a ampliar a sua gama de necessidades. Ela passa a colecionar desejos que nem sempre podem ser satisfeitos. Surgem então outros tipos de choro, a que costumamos nos referir como “manha”, “birra”, ou “chilique”.

É sempre importante ter em mente que não existe choro sem motivo. Para uma criança pequena, ter que ir embora da pracinha, por exemplo, pode representar uma grande tragédia! Não obstante, existem motivos a que os adultos não podem ou não devem ceder. É preciso ensinar à criança que nem todos os seus desejos poderão ser satisfeitos, que existem limites ao que ela pode obter do mundo. Mas sempre de maneira gentil e acolhedora. Muitas vezes, basta distrair a criança para que ela esqueça o motivo do choro. Quando isso não ocorre, o melhor é tentar acalmá-la; de maneira afetuosa, porém firme.

Antes dos três anos de idade, a criança não é capaz de representar mentalmente o afeto e a atenção que recebe. Ela só entende os adultos com base na forma como eles se comportam: o que dizem, o que fazem, como reagem. Por isso, quando os pais simplesmente ignoram o seu choro, transmitem-lhe a mensagem de que ignoram os seus sentimentos, mesmo que isso não seja verdade. É preciso chegar junto da criança nesses momentos, conversar com ela e ajudá-la a compreender as suas próprias emoções e reações.

Voltando ao exemplo da saída da pracinha: você pode lhe dizer, por exemplo, que entende o seu aborrecimento, mas que é realmente necessário voltar para casa, e que a pracinha estará lá, no mesmo lugar, quando ela retornar no dia seguinte. Talvez ela não pare logo de chorar, mas certamente vai aprender que existe uma conexão entre aquilo que sente e a forma como reage. Conhecer suas próprias emoções é um passo importante para que ela aprenda a lidar com as frustrações.

Para resumir, o choro é uma janela que nos permite ver o mundo com os olhos da criança, nos dá acesso ao seu universo afetivo e nos possibilita guiá-la na direção do autoconhecimento e da auto regulação emocional. Se você conseguir encará-lo dessa forma, vai lidar com ele com muito mais segurança e tranquilidade.

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Imagem:

Lilla Cabot Perry (1848 – 1933), “Mère et enfant”, 1910.

Quais são as histórias clássicas que seu filho precisa conhecer?

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A literatura clássica para crianças é muito vasta, mas há três gêneros que seu filho não pode deixar de conhecer: os contos de fadas, as fábulas e a obra de Monteiro Lobato. São histórias que, a um só tempo, maravilham as crianças, enriquecem o seu imaginário, e conduzem-nas suavemente na direção de valores que nos são caros, como a generosidade, a justiça e a beleza.

Os Contos de Fadas

Os Contos de Fadas têm origem no folclore medieval europeu. Ambientados em castelos, florestas ou pequenas aldeias, são povoados por fadas boas e bruxas más, aristocratas e plebeus, animais falantes e outros seres fantásticos que se relacionam com os humanos e contribuem, por meio de estratagemas ou encantamentos, para transformar o seu destino.

As narrativas orais dos camponeses medievais começaram a ser transpostas para a forma escrita a partir do século XII, mas foi com autores modernos como Charles Perrault (século XVII) e os irmãos Grimm (séculos XVIII/XIX) que elas adquiriram a feição que conhecemos hoje. As histórias originais eram mais violentas e trágicas do que as que contamos às nossas crianças. No processo de fixação dos contos na forma escrita, certos aspectos dos enredos e dos personagens foram sendo suavizados para se adaptar à sensibilidade urbana do leitor moderno.

Contudo, as histórias continuam muito atuais, pois tratam de temas centrais da experiência humana, como a angustiosa transição da infância para a vida adulta, o ciúme entre irmãos, a inveja da beleza, da riqueza e do sucesso, etc. Na maioria delas, o núcleo da narrativa é um conflito existencial: o herói ou a heroína buscam algum tipo de realização pessoal. No caminho, eles encontram obstáculos terríveis que precisam transpor.

Os contos de fadas cumprem ainda a importante função de acalmar a ansiedade infantil em relação à existência do perigo e do mal no mundo. O Bem e o Mal são apresentados de forma dicotômica, absoluta e explícita, permitindo às crianças trabalhar sua angústia de forma construtiva e otimista – porque nessas histórias, o Bem quase sempre vence. Os contos permitem, assim, à criança, organizar suas percepções e sentimentos, ao mesmo tempo em que ela é apresentada a arquétipos importantes da tradição ocidental.

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“Meu Primeiro Livro de Contos de Fadas”,       Mary Hoffman, Cia das Letrinhas.

As Fábulas

As fábulas são portadoras de uma tradição ainda mais longa do que a dos contos de fadas. Com elas, recuamos até o tempo da Grécia Antiga.

Trata-se de pequenas composições literárias protagonizadas por animais, e cujo desfecho contém um ensinamento de cunho comportamental ou moral. Quem não conhece a história da cigarra que passou o verão cantando e no inverno teve que pedir abrigo à formiga trabalhadeira, que havia, ela sim, juntado provisões para o inverno? Ou a da lebre convencida que, achando que a corrida estava ganha, foi tirar um cochilo e, quando acordou, havia sido ultrapassada pela lenta, porém obstinada tartaruga?

Pois bem, também são histórias de origem popular supostamente escritas pelo fabulista grego Esopo, que teria vivido há mais de 2500 anos atrás. Elas eram tão conhecidas e valorizadas na Grécia, que sua função educativa chegou a ser citada por Platão e Aristóteles. E o mais incrível é que, assim como ocorre com os contos de fadas, o seu conteúdo continua absolutamente atual. Posteriormente, no século XVII, as fábulas de Esopo foram recontadas pelo francês Jean de La Fontaine.

Embora sejam animais, os personagens dessas histórias apresentam qualidades e defeitos tipicamente humanos. Por isso, La Fontaine dizia que a fábula “é uma pintura em que cada um de nós pode encontrar seu próprio retrato.” Sua leitura enriquece o imaginário e a compreensão da criança sobre as circunstâncias de sua vida, sobre ela mesma e sobre as pessoas que a cercam.

Há muitas adaptações de Esopo e La Fontaine no mercado brasileiro de literatura infantil. Mas as fábulas requerem um trabalho maior de mediação da parte do adulto. Como elas envolvem ensinamentos bem específicos, é preciso muitas vezes explicitar a moral da história para a criança. E há também as fábulas escritas por autores modernos, de mais fácil assimilação, como Os Três Porquinhos, de Joseph Jacobs, e O Patinho Feio, de Hans Christian Andersen.

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A literatura infantil de Monteiro Lobato

Depois de ter algum contato com esses dois gêneros literários, as crianças já podem ser apresentadas à obra de Monteiro Lobato (1882-1948). Trata-se de um hiper-clássico brasileiro cujas histórias arrebatam a atenção dos pequenos há várias décadas. O livro Reinações de Narizinho, que foi publicado em 1931, serve de marco inicial para a série “Sítio do Pica-Pau Amarelo“, que contém 23 volumes. As histórias do “Sítio” agregam elementos do nosso próprio folclore ao imaginário fantástico de animais falantes e fadas madrinhas. Ou seja, elas enriquecem a imaginação infantil com um toque genial de brasilidade.

Monteiro Lobato é interessante e incontornável por si só, mas além da qualidade intrínseca da obra, sua leitura estimula as crianças a empreenderem outras aventuras literárias mais tarde. Por exemplo, Peter Pan e Dom Quixote, que intitulam volumes do Sítio, podem posteriormente ser visitados em boas adaptações dos originais para o público infantil. O mesmo podemos dizer de O Minotauro e Os Doze Trabalhos de Hércules, que podem motivar a introdução da mitologia grega no repertório de clássicos da criança.

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Com essa lista de leituras tão divertidas quanto indispensáveis, seu filho vai desenvolver o gosto pela boa literatura e adquirir uma bagagem cultural que o acompanhará pelo resto da vida.

Selecione as histórias de acordo com a faixa etária e o grau de maturidade literária da criança: narrativas mais simples para as menores (de 2 a 4 anos), narrativas mais complexas para as maiores (a partir de 5 anos).

Por fim, sugiro que você reserve um horário para ler diariamente para o seu filho. Que tal à noite, antes de dormir, para que os seus sonhos sejam alimentados pelas imagens maravilhosas que ele vai absorver? Esses momentos de atenção e intimidade ficarão guardados para sempre em sua memória afetiva

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Imagem do topo:

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), “Portrait de Jean et Geneviève Caillebotte“. 

Por que as crianças precisam ouvir histórias clássicas?

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Ter acesso à boa literatura desde a mais tenra idade é fundamental para a estruturação do pensamento, a formação do imaginário e o desenvolvimento da linguagem compreensiva e expressiva. Isso todo mundo já sabe. Pouco se fala, porém, de um segundo benefício da literatura para a formação pessoal: a educação dos sentimentos.

Bons livros nos transportam para outros tempos e lugares. Eles nos dão oportunidade de vivenciar outras vidas e outras subjetividades. Conhecemos formas de agir e sentir que muitas vezes nem suspeitávamos, expandindo a nossa imaginação afetiva e os nossos horizontes existenciais. Isso nos torna mais autoconscientes e mais capazes de compreender os outros. Em suma, a literatura pode nos tornar pessoas melhores, mais bem preparadas para os relacionamentos da vida.

As crianças adoram ouvir histórias, pois a sua capacidade de se deixar envolver e levar por outras possibilidades existenciais é praticamente ilimitada. Nessa fase de extrema abertura imaginativa, é muito importante que os adultos lhes contem histórias que possam, ao mesmo tempo, dar asas à sua imaginação e ampliar o seu conhecimento do mundo.

Mas como selecionar a boa literatura dentre a enorme quantidade de livros publicados a cada dia, grande parte sem nenhuma qualidade? Em outras palavras: o que devemos ler para as nossas crianças?

A boa literatura infantil não se resume, obviamente, às histórias que já se tornaram clássicas. Há ótimos títulos contemporâneos no mercado editorial. Mas a melhor estratégia é garantir que seu filho tenha contato com os clássicos já consagrados, enquanto, paralelamente, você seleciona dentre os autores contemporâneos aqueles que merecem ocupar o seu tempo e o seu imaginário.

Por que privilegiar os clássicos? Primeiro porque as obras de literatura clássica resistiram à ação das mudanças sociais e atravessaram gerações mantendo o seu poder de atração, seja por milênios, séculos ou décadas. A literatura clássica é aquela que não sai de moda. E ela permanece porque, ao captar, fixar e revelar algo de essencial acerca da natureza humana, transcende a sua própria época.

O segundo motivo que torna a literatura clássica incontornável para uma boa educação é que ela transmite às novas gerações o repertório cultural preservado pela tradição. Ali está condensado todo um esforço de observação e compreensão da vida humana por parte de pessoas de rara sensibilidade e capacidade de expressão. Por isso, como disse o escritor italiano Ítalo Calvino, “um clássico constitui uma riqueza para quem o lê.”

O mundo da literatura clássica infantil é muito vasto, mas há três gêneros incontornáveis, que podem fazer parte da experiência literária das crianças a partir dos 3 anos de idade: as fábulas, os contos de fadas, e a obra de Monteiro Lobato. Não perca a próxima postagem. Vou falar sobre cada um desses gêneros de literatura infantil e trazer uma série de dicas de como tornar mais produtiva a leitura de cada um deles.

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Mas, antes de finalizar, quero falar uma última coisa. Quando tomamos a decisão de nos envolver pessoalmente com a educação literária de nossos filhos, assumindo-a como uma tarefa prioritária, muitas vezes nos deparamos com lacunas importantes em nossa própria formação. Diante da constatação de que não temos conhecimento suficiente para orientá-los adequadamente, há duas atitudes possíveis.

A primeira, e infelizmente a mais frequente, é responsabilizar nossos pais e professores, e em seguida cruzar os braços, como se o problema não nos pertencesse. Isso obviamente não leva ninguém a lugar nenhum. A segunda atitude, mais honesta e sábia, é assumir pessoalmente a tarefa de complementar a nossa própria educação.

Se você acha que a sua educação literária foi deficiente, não se sinta só. Este é o caso de todos, ou quase todos, os pais e mães brasileiros que começam a atentar para a necessidade de guiar seus filhos pelo universo dos livros. Deixo aqui, para você, um link que leva a uma lista de 100 obras de literatura clássica mundial (clique aqui).

Cada item dessa lista, por sua vez, tem um outro link para uma explicação contextualizada sobre a obra e o autor. Trata-se de um excelente trabalho da revista Educar Para Crescer. Dê uma olhada nos links internos, passeie por eles, e decida por onde prefere começar!

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Imagem:

Jessie Willcox Smith (1863-1935) , “A Rainy Day”.