Saiba por que você pode (e deve) chamar a sua filha de “princesa”

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Recentemente, uma famosa marca de cosméticos resolveu entrar na onda da desconstrução e fez uma campanha para convencer os pais a pararem de chamar as suas filhas de “princesa”. Em linhas gerais, o argumento era que as princesas são retratadas nas histórias infantis como criaturas frágeis, cuja felicidade está sempre nas mãos de terceiros. Na verdade, a ideia nada tem de original. A campanha apenas pegou carona num discurso que já conhecemos de longa data e que está estreitamente comprometido com a pauta da segunda onda feminista.

O incômodo feminista com o fato das meninas se sentirem tão atraídas pela princesa clássica deu origem a uma vasta produção crítica em torno do assunto. O tema tem sido explorado em reportagens, teses acadêmicas, assim como em uma enorme quantidade de livros infantis alternativos que se propõem a “repensar” ou “reconceituar” a personagem. A justificativa alegada  é a de que a princesa encarnaria estereótipos de gênero deletérios para o desenvolvimento subjetivo das meninas, representando a mulher como passiva e dependente. Neste artigo, pretendo demonstrar que tal leitura é não só inconsistente, como também desonesta.

Em primeiro lugar, é importante notar que a crítica feminista tem por objeto, principalmente, o modelo de princesa dos contos de fadas europeus, narrativas herdeiras do folclore camponês medieval, e modernizadas por autores de séculos posteriores. O foco na princesa dos contos de fadas tem um motivo simples: essa heroína arquetípica encanta a imaginação das meninas há várias gerações. O seu apelo mimético é muito forte e, para um feminismo preocupado em formatar a mente e o corações das mulheres, ela é uma verdadeira pedra no sapato. Mas não pelos motivos alegados. Vamos ver.

Observando, com o olhar honesto e atencioso, a estrutura dos contos e as ações da personagem, nada nos autoriza a defini-la como uma mulher de caráter frágil e sem personalidade. Muito pelo contrário. Ora, nos contos de fadas, as princesas são justamente a expressão mais rematada de um ideal de dignidade e nobreza, estando sempre existencialmente inclinadas apenas para o que é bom, justo e verdadeiro. Não há, em sua conduta, nenhum indício de fraqueza moral. Pode, por exemplo, existir personagem feminina mais forte, determinada e decidida do que a Bela? Como atribuir fraqueza a uma personagem que se caracteriza, precisamente, pela retidão moral e pela força interior?

Porém, tão importante quanto perceber na crítica feminista um grave equívoco de interpretação, é notar que esse equívoco não é inocente. Aliás, menos do que um equívoco, trata-se de uma jogada estratégica, cujo intuito é denegrir, junto com a princesa, o conjunto de valores que as suas ações afirmam e expressam. Para se ler um conto de fadas clássico como A Bela e a Fera de modo a concluir que a heroína é uma mulher frágil, passiva e dependente, é preciso, simplesmente, escamotear a mensagem essencial do conto, para em seguida distorcê-la, tornando-a menos atraente. O verdadeiro alvo da crítica à figura da princesa é o ideal de pessoa e de feminilidade que os contos veiculam, com o qual a visão de mundo feminista se choca frontalmente.

As princesas dos contos de fadas são, em geral, adolescentes que, por uma fatalidade do destino, vêem-se subitamente às voltas com uma situação dramática e opressiva. Isoladas e sem apoio, não possuem recursos práticos e eficazes para livrar-se dela. Cinderela passa anos sendo admoestada por uma madrasta má, que a trata como serva; Branca de Neve é odiada e perseguida por uma madrasta assassina, que a inveja por sua beleza; Rapunzel vive numa torre, refém de uma bruxa vingativa; e Bela é prisioneira no castelo de um ser aparentemente monstruoso.

Em todas as narrativas, observamos a ausência estrutural dos pais da moça, estejam eles vivos ou mortos. Não posso tratar a questão em detalhes aqui, mas é importante entender que essa ausência está ligada à passagem da adolescência para a vida adulta, ou seja, do regime de filiação ao de aliança matrimonial, um tema que permeia todos os contos. O fato que nos interessa, porém, é que a heroína, que em breve deve passar do estatuto de filha ao de mãe de família, encontra-se de repente sozinha, desprotegida, em circunstâncias extremamente desfavoráveis.

Diante dessas circunstâncias, todas as personagens demonstram, ao longo das narrativas, um tipo de disposição que só podemos interpretar como reveladora de força de caráter. Enquanto são vítimas da situação, elas a enfrentam com nobreza e retidão. Não se desesperam nem perdem a integridade. São atenciosas e acolhedoras, trabalhadeiras e fiéis aos seus princípios. Jamais se comportam como vítimas, embora de fato o sejam. Nenhuma delas se corrompe, transigindo com o mal que seus antagonistas encarnam. Não perdem a fé, nem tampouco a doçura. Tratam com bondade e consideração todas as criaturas que cruzam o seu caminho, sejam humanos ou animais. Percorrem altivas a sua trajetória dramática – que em alguns casos culmina com uma morte simbólica – até que se abra uma possibilidade de salvamento.

O grau de destaque dado a cada uma dessas qualidades varia de conto para conto. Mas, naquele que é dentre todos o mais sublime, elas estão presentes em conjunto e de maneira absolutamente explícita na pessoa da heroína. Desde o início da história que leva seu nome, Bela se comporta de maneira generosa e altruísta. Enquanto suas irmãs exigem do pai presentes custosos, ela prefere poupá-lo de qualquer sacrifício. Resolve enfrentar a Fera para salvá-lo da morte. Uma vez no castelo da Fera, continua dando mostras de sua grandeza e nobreza de alma. Consegue enxergar a Fera para além das aparências e apaixona-se por ela. Como pode alguém em sã consciência acreditar que este não seja um modelo de pessoa apropriado para uma menina em formação? Por que tamanho incômodo com uma personagem que só faz o bem, só persegue o que é justo, e não pede nada que não lhe pertença de fato?

Chegamos aqui ao nosso ponto. Na verdade, o desconforto feminista com a princesa nada tem de surpreendente, se cotejarmos a sua figura com o ideal de mulher que o feminismo se esforça para propagar: a mulher que nada é capaz de sacrificar em prol daqueles a quem ama. A mulher que, embora se pretenda independente, está permanentemente insatisfeita e disposta a se colocar no lugar de vítima, sempre acusando um terceiro por suas próprias mazelas. A mulher que só pensa em si mesma, ou em si mesma antes de todos, e que não é capaz de entender a diferença entre ser forte e ser individualista.

Outro fator importante, e talvez o mais relevante, é o desfecho das histórias, a saber, o fato de que, ao final, a princesa se casa com um príncipe cuja aparição permite que ela saia do estado liminar em que se encontra. Eu arriscaria dizer que o que mobiliza a crítica feminista não é nem tanto a figura da princesa, e sim a chegada do príncipe parceiro. Se tudo se resolvesse num passe de mágica, com a ajuda de uma fada madrinha, e a moça, após liberta do jugo ou da perseguição do algoz, passasse a reinar soberana em seu próprio castelo, talvez ela não fosse objeto de tanto desprezo. Mas uma mulher e um homem unidos e “felizes para sempre”, tendo ao fundo a expectativa de um projeto familiar…Um final difícil de engolir, para um movimento que, desde os anos sessenta, tem se esforçado para convencer as mulheres de que o casamento, a maternidade e a vida familiar não podem ser fontes de realização feminina.

Pelo menos duas gerações de mulheres já cresceram expostas a esse discurso cultural que hoje em dia é praticamente hegemônico, e que busca induzi-las a relegar a família ao segundo plano de suas vidas, e a acreditar que o sucesso profissional lhes abrirá as portas da felicidade. Se você quer dar à sua filha elementos para se defender dessa narrativa e ampliar os seus horizontes existenciais, faça com que a princesa dos contos de fadas habite o seu imaginário e esteja entre os seus modelos de realização feminina. Essas histórias representam, hoje, um importante elemento de defesa da imaginação de nossas crianças, uma contracultura literária, um antídoto para fazer frente à avalanche de mensagens individualistas e utilitaristas às quais elas estão cotidianamente expostas.

Por tudo isso, não aceite o conselho da marca de cosméticos. Continue chamando a sua filha de “princesa”. Quando um adulto usa esse elogio carinhoso, ele está comunicando à menina, de maneira lírica e esteticamente elevada, que a tem em alta conta, que a considera uma pessoa com qualidades superiores. Se ela for inteligente, o elogio será compreendido e só lhe fará bem.

 

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Imagem: 

Edmund Blair Leighton, The Accolade (detalhe), 1901.

A iniciação literária da criança

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A imaturidade linguística e cognitiva da criança pequena não é justificativa para que nos descuidemos da qualidade dos livros que lhe apresentamos. Uma boa educação literária requer, desde o início, atenção à ilustração, à correção do texto, ao vigor da narrativa, e à adequação à faixa etária.

Até os três anos de idade, aproximadamente, a ilustração exerce um papel muito importante como fator de atração. Sua presença deve ser marcante, ocupando toda ou quase toda a página. É importante também que ela represente os objetos do mundo sem distorções exageradas de forma ou proporção. Por isso, devem ser evitadas as ilustrações em estilo psicodélico, cubista, ou excessivamente esquemático. Elas confundem e cansam as crianças pequenas, estimulando-as com formas difíceis de compreender e muitas vezes destituídas de qualquer beleza. Ofereça apenas ilustrações coerentes e belas, relativamente próximas do objeto real.

Um dos principais objetivos da educação literária é contribuir para a formação do imaginário infantil. Se a criança nunca viu um galo e queremos que ela conheça esse animal, ampliando assim o seu repertório de imagens da natureza, de que vale mostrar-lhe um desenho que não representa bem um galo, ou, ainda, como ocorre frequentemente hoje em dia, que distorce e enfeia (propositalmente) a imagem do galo real?

Quanto ao texto, deve ser claro e correto, sem gírias ou palavreado vulgar. Tenha sempre em mente o seguinte. Se o seu filho se interessar pelo livro, ao final, muito provavelmente, pedirá que você o releia, até o ponto de memorizar o conteúdo. As crianças pequenas gostam de desfrutar a mesma história duas, três, dezenas, centenas de vezes. A repetição permite que elas absorvam a narrativa em seu próprio ritmo, dando-lhes tempo, também, para elaborar os sentimentos despertados durante a leitura. Além disso, elas apreciam a expectativa de rever as imagens já conhecidas e de antecipar mentalmente o que será dito em seguida. Essa experiência de previsibilidade auxilia a criança na construção do seu senso de ordem.

A seguir, apresento uma periodização bem simples, que deve ser tomada como um parâmetro e não como uma camisa de força. Você conhece seu filho mais do que ninguém e saberá o momento apropriado para passar de uma etapa a outra.

Dos seis aos dezoito meses
Quando, por volta dos seis meses de idade, o bebê já começa a enxergar praticamente como um adulto, as belas e coloridas ilustrações de um livro podem atraí-lo a ponto de prender seu interesse por alguns minutos. Embora as histórias sejam sempre bem-vindas, nessa fase são particularmente interessantes livros que nomeiam objetos do cotidiano, animais, plantas, lugares, etc, ou seja, aqueles voltados para a ampliação do vocabulário. Geralmente, eles trazem apenas o nome do objeto ilustrado ou repetem o mesmo tipo de frase, a cada página fazendo referência a novos objetos. Por exemplo, “veja a árvore”, “veja a nuvem”, “veja a estrela”. Mesmo que ainda não fale, aos doze meses a criança já é capaz de compreender razoavelmente a língua materna, estando apta a aprender palavras novas a cada dia. Você pode enriquecer a leitura com comentários sobre a beleza das imagens, sobre a presença dos objetos retratados em situações cotidianas, etc.

Nessa faixa etária, a biblioteca não precisa ser muito extensa, pois, como eu já disse, o mesmo livro será lido inúmeras vezes. É importante lembrar também que o bebê ainda não possui recursos psíquicos para lidar com uma variedade grande de estímulos, e pode ficar agitado ou cansado. Por isso os livros devem ser apresentados – lidos e relidos – um de cada vez.

Pode ser que o seu filho demonstre mais interesse por alguns em detrimento de outros. Ótimo! Nas próximas aquisições, você pode usar as preferências dele como critério de escolha.

Dos dezoito meses aos três anos
A partir dos dezoito meses, a criança já está preparada para concentrar a atenção em histórias simples, curtas, sem grandes rodeios, com princípio, meio e fim. Ainda é bom que o texto seja estruturado pela repetição, embora deva ser mais longo do que na fase anterior. É muito interessante também que ele seja ligeiramente musical, no sentido de possuir um ritmo sonoro previsível a cada leitura. Mas, aos poucos, completados os dois anos de idade, já devem ser introduzidas algumas histórias mais extensas e lineares, preparando a criança para a próxima etapa de sua educação literária, em que a narrativa ganhará cada vez mais relevância.

Os personagens da moda, que a criança eventualmente já aprecie, podem funcionar como atrativos para aproximá-la dos livros. Mas o objetivo da literatura é ampliar o universo linguístico e existencial da criança, formando uma rica e abrangente coleção de imagens mentais.  Por isso, a popularidade do personagem não deve ser critério de escolha. Em geral, os livros que trazem personagens de filmes e desenhos animados são produzidos sem atenção genuína às necessidades do desenvolvimento infantil. Eles possuem um caráter mais comercial, e deixam muito a desejar em termos de qualidade literária.

Evite também os livros que têm por objetivo imediato estimular algum tipo de comportamento rotineiro. Por exemplo, aqueles que ensinam a usar o penico, a escovar os dentes, e outras coisas do gênero. Assuma, corajosa e pessoalmente, a tarefa de criar bons hábitos em seu filho. Esse papel é seu. Deixe a literatura encantar o dia-a-dia, alimentar o imaginário e aumentar o repertório moral e cultural da criança.

Por fim, além de apresentar ilustração e texto de qualidade, um bom livro para a primeira infância deve respeitar a criança como um ser vulnerável e em formação, que precisa acreditar na existência da beleza, da justiça e da ordem. Estamos aqui falando de crianças pequenas, e não há nada mais importante nessa fase do que fazê-las se sentirem seguras. Por isso, por mais que a narrativa possa conter surpresas e gerar expectativas, no final é importante que tudo esteja em seu devido lugar.

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Imagem:

Jessie Willcox Smith (1863-1935), “My First Picture Book”.

O cultivo do imaginário

Se você tem um filho pequeno, certamente já observou que ele não precisa de nenhuma ajuda ou incentivo para se entregar ao ato de imaginar. Isso porque, até os sete anos de idade, aproximadamente, o potencial infantil para a fantasia e a brincadeira é naturalmente ilimitado. Nessa fase de extrema abertura imaginativa, a capacidade da criança de reter, memorizar e absorver criativamente as imagens que capta do ambiente atinge o seu rendimento máximo.

O conjunto dessas imagens, que chegam à criança por meio dos cinco sentidos, compõe aquilo que se costuma denominar de “imaginário infantil”. E é a partir desse material que a imaginação de seu filho trabalha na hora das brincadeiras.

Os atos imaginativos da criança serão tanto mais ricos e complexos quanto maior for a qualidade das imagens que ela puder absorver e guardar na memória. Mas o ponto importante é que, embora o potencial das crianças pequenas para a fantasia seja por natureza ilimitado, elas não possuem recursos para buscar sozinhas um repertório de imagens que esteja fora de seu ambiente imediato. E é aqui, precisamente, que começa a responsabilidade dos pais: apresentar o mundo para os filhos de modo que eles possam formar um imaginário rico e abrangente.

Mas por que é tão importante formar um imaginário rico e abrangente durante a infância? Por dois motivos. O primeiro diz respeito à própria vivência infantil. Brincar é muito prazeroso e possibilita à criança explorar a sua subjetividade das mais variadas formas. Um imaginário rico e abrangente propicia uma experiência mais divertida com a imaginação.

O segundo motivo diz respeito à repercussão da experiência imaginativa infantil na fase adulta. Dela depende, em ampla medida, nossa forma de estar no mundo, ou seja, o modo como sentimos e vivemos a nossa existência. A sensibilidade e a inteligência estão estreitamente atreladas à imaginação. E embora o nosso imaginário possa se expandir e se qualificar ao longo de toda a vida, é na infância que se forma a base.

Nós, adultos, reagimos às situações que a vida nos apresenta de acordo com os recursos imaginativos de que dispomos. Um adulto pouco imaginativo tem dificuldade para interpretar textos, projetar cenários, avaliar possibilidades, tomar decisões que requeiram algum tipo de reflexão. A falta de imaginação, ou uma imaginação muito estreita, também limita a compreensão e a expressão dos sentimentos, dos nossos e dos alheios. Por tudo isso, podemos dizer que uma imaginação rica e treinada para altos voos sempre pode nos levar mais longe. Ao passo que uma imaginação pobre e pouco exercitada não nos leva muito além do quintal da nossa casa.

Mas quando falo de um imaginário rico e abrangente, não me refiro somente à quantidade e à variedade das imagens a que a criança terá acesso. É preciso prestar atenção à sua qualidade ética e estética. Devemos apresentar à criança imagens belas e virtuosas. Pois o imaginário não está relacionado somente à inteligência e à sensibilidade. Ele também participa diretamente da formação do gosto e do caráter.

Nesse ponto, já deve estar claro qual é o seu papel nessa história.

Imagens da natureza

Em primeiro lugar, mostre a natureza ao seu filho, pois não existe melhor manancial de imagens belas e edificantes. As imagens da natureza nos fazem lembrar o tempo todo o privilégio de ter tido a chance de nascer e de estar nesse mundo.

O fato da maioria das crianças urbanas viverem em apartamentos é certamente um fator limitante do desenvolvimento da capacidade contemplativa. Aliás, o simples fato de morar em uma grande cidade pode significar a impossibilidade de sequer observar um céu estrelado. Mais sortudas, nesse sentido, são as crianças que acordam olhando para uma paisagem admirável. Mas essa limitação das crianças urbanas é passível de ser relativamente contornada por uma atitude propositiva dos pais.

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Dê a seu filho oportunidade de observar vastos horizontes e contemplar belezas naturais impactantes: ver o pôr-do-sol, a Lua despontando no céu, a massa compacta e imponente de montanhas que compõem uma serra, as ondas do mar quebrando na areia. Ao levá-lo para passear, mostre a ele os detalhes da paisagem e deixe que se divirta coletando pequenas coisas como folhas e pedras de tipos e formatos variados. Estimule-o a experimentar o ambiente usando todos os sentidos possíveis. Passar a mão no casco de uma tartaruga, ouvir o canto dos pássaros, provar uma fruta no pé, essas pequenas experiências contribuem muito para a construção de um conhecimento do mundo mais profundo e pessoal.

As crianças possuem uma capacidade natural de se maravilhar com qualquer coisa, por mais simples e diminuta que seja. Quando têm a chance de um contato íntimo com a natureza, elas aprendem a identificar e apreciar coisas belas, ao mesmo tempo em que aumentam a sua coleção de experiências encantadoras.

Imagens da cultura

Mas as imagens maravilhosas não estão só na natureza. Elas também habitam o mundo da cultura, esse patrimônio construído por gerações e gerações de homens e mulheres inspirados e talentosos que viveram (e vivem) nos quatro cantos da Terra. Para a formação da criança enquanto pessoa imaginativa e autoconsciente, é fundamental que a experiência humana de outras épocas e lugares possa reverberar em sua imaginação. Educar uma criança consiste precisamente em levá-la além dos limites de seu espaço/tempo imediato, ao qual ela já estará naturalmente integrada. E isso só se torna possível graças às imagens contidas nas obras artísticas e literárias.

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O acesso à arte e à literatura de qualidade amplia os horizontes existenciais da criança, pois a coloca em contato com uma vasta gama de situações de vida e modelos de comportamento nos quais ela pode se espelhar e se projetar rumo ao futuro. Ao mesmo tempo, favorece o desenvolvimento de uma sensibilidade mais fina para tudo o que diz respeito às relações humanas. Por isso, apresentar ao seu filho a boa literatura, principalmente as obras clássicas, é o caminho mais seguro e consistente para uma educação que vise à autoconsciência e à liberdade.

Visitar os museus da cidade, assistir boas peças de teatro infantil e ouvir música de qualidade também são atividades que contribuem significativamente para o cultivo do imaginário. Pense nisso ao planejar os passeios de sua família. Todo mundo vai sair ganhando.

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Se você se interessou pelo tema da formação do imaginário e quer aprofundar os seus conhecimentos, acompanhe o trabalho do Prof. Francisco Escorsim, que se dedica à educação da imaginação de jovens e adultos. Acesse a sua página de trabalho no Facebook  e informe-se sobre a programação de palestras e cursos.

O trabalho do Prof. Escorsim tem sido uma fonte de inspiração importante para minhas reflexões sobre a imaginação infantil.

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Imagem:

Edmund Blair Leighton, The Accolade, 1901.