A maternidade e suas circunstâncias

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O modo como um grupo ou sociedade elabora e representa a maternidade possui relação direta com a qualidade e a extensão dos cuidados afetivos oferecidos às suas crianças. Ao longo da história do mundo, isso sempre variou, em alguns casos, drasticamente. Um exemplo de sociedade que não se preocupou em garantir um ambiente amoroso e acolhedor à primeira infância foi a França dos séculos XVII e XVIII. Nesse período, as mulheres francesas habitantes das cidades simplesmente não cuidavam de seus filhos, como mostra Elisabeth Badinter em seu livro “O Amor Conquistado” (1980).

Segundo Badinter, as crianças eram entregues a amas camponesas que delas se ocupavam até que completassem aproximadamente cinco anos. Apenas uma ínfima minoria era amamentada por suas próprias mães (cerca de 5%). Para as famílias ricas, havia a opção de manter a criança junto com a ama na residência materna, em uma ala separada onde ela não teria contato cotidiano com os pais. Mas o destino da maioria era ser tirada de casa logo após o nascimento. A justificativa corrente era de que os ares do campo beneficiavam a saúde e o desenvolvimento infantil. Boa parte das crianças, porém, morria antes dos cinco anos de idade, e muitas delas sem jamais ter recebido uma visita dos pais. Um número significativo perecia já durante o trajeto, que não raro era feito em carroças repletas de bebês amontoados.

O propósito de Badinter no livro, uma típica feminista da segunda onda, é defender a tese de que não existe instinto materno. Encontro muitos problemas lógicos em sua argumentação e a meu ver a tese não se sustenta. Mas não é esse o ponto que quero discutir aqui. Estou interessada nos dados etnográficos que ela apresenta sobre as relações das mulheres francesas com a maternidade no final do Antigo Regime. Esses dados nos mostram, de maneira eloquente, como uma cultura pode desestimular peremptoriamente o exercício da responsabilidade materna. No caso da França urbana dos séculos XVII e XVIII, o abandono dos bebês era uma decisão coletiva, uma prática social corroborada e incentivada por todos, inclusive, e sobretudo, pelo pai da criança. Muitas vezes, para facilitar as coisas para a mulher em estado puerperal, ele próprio se encarregava de fazer o bebê deixar rapidamente a casa.

É preciso lembrar que os indivíduos das classes urbanas francesas da época, nobres ou burgueses, levavam uma existência mundana e pautada pelas aparências. Viviam em busca de poder e distinção social, valores muito distantes daqueles que poderiam predispô-los à parentalidade responsável. Num ambiente moral dominado pelo mimetismo e pelo esnobismo, não é de se estranhar que a criança – por sua extrema dependência – fosse vista e tratada como um estorvo. Mas nem sempre havia sido assim na França. E, como sugere  Badinter, ao final do século XVIII as concepções voltam a mudar, e a própria intelligentsia francesa começa a censurar a negligência das mães.

As representações culturais da feminilidade são a matéria simbólica a partir da qual se constroem as perspectivas sociais e existenciais de uma mulher. Se a mulher se forma em um ambiente pobre em preceitos e modelos positivos de maternidade, ela provavelmente a viverá de maneira conflituosa. Se, ao contrário, a atividade materna está incorporada ao seu ideal de feminilidade, a experiência tende a ser vivenciada de maneira mais suave e mais íntegra. Para ilustrar o contraste, vou apresentar um caso etnográfico que observei e descrevi pessoalmente, durante o período em que realizava pesquisas antropológicas na Amazônia.

Passei algum tempo em comunidades indígenas ribeirinhas do rio Uaupés (afluente do alto rio Negro), na fronteira com a Colômbia. Minha pesquisa era com as mulheres e, logo que cheguei na primeira comunidade, um fato me chamou atenção. Se uma mulher possui um filho de menos de dois anos de idade, raramente será vista sem ele nos braços. O bebê parece ser uma espécie de extensão do corpo da mãe. Ela o leva para o banho, para a roça, para a rede de dormir, para a festa. Atende às suas necessidades imediatas com tamanha prontidão que é praticamente impossível ouvi-lo chorar por mais de alguns instantes. A lida cotidiana da mulher em casa e nas plantações não é impedimento para que a criança tenha atenção ininterrupta. No alto rio Negro, observamos a expressão etnográfica mais rematada da famosa formulação do pediatra e psiquiatra inglês Donald Winnicott: “não existe algo como um bebê, o que existe é um bebê e mais alguém” (“there is no such thing as a baby; there is a baby and someone”). Parafraseando, eu diria que “o que existe é um bebê e sua mãe”. E na própria cosmologia dos índios do rio Uaupés encontramos a ideia, de certo modo análoga, de que o colo da mãe é a primeira e mais fundamental instância de formação da alma e da pessoa da criança.

As mulheres do rio Uaupés vivem nas comunidades de origem de seus maridos e os filhos do casal pertencem à linhagem do pai. Porém, mesmo sendo “estrangeiras”, elas são tratadas com muita consideração e respeito. A roça e a residência do casal são domínios femininos, e a integração prática entre os dois aspectos centrais da subjetividade social da mulher – as suas capacidades produtiva e reprodutiva –  é sustentada por uma elaboração cultural que tematiza essa continuidade simbólica. O trabalho na roça é representado como uma maternidade metafórica. A mulher é a “mãe de suas plantações”, o que significa que ela precisa cuidar de seus frutos para que cresçam fortes e saudáveis. Durante os rituais de iniciação feminina por ocasião da menarca, a associação entre a maternidade e a atividade agrícola é enfatizada e valorizada. A moça é preparada para assumir suas responsabilidades como provedora de alimentos e de cuidados cotidianos para sua família. Ela aprende a se orgulhar de suas habilidades especificamente femininas e a encará-las como uma fonte importante de satisfação pessoal.

Não pretendo aqui passar uma visão idealizada ou laudatória da experiência social feminina nas comunidades indígenas que visitei. Isso implicaria em simplificar e reduzir a sua complexidade. Em outros lugares, escrevi sobre a vida das mulheres do alto rio Negro de uma perspectiva mais sistêmica. Nesse cotejo, porém, meu objetivo foi somente o de contrastar duas elaborações culturais diversas da maternidade e mostrar o quanto essa diferença repercute na extensão e na qualidade dos cuidados oferecidos às crianças pequenas. Meu ponto é simples. Quando a maternidade responsável e devotada não se encaixa no tipo de existência culturalmente validada para a mulher, a criança é prejudicada. Ali onde ela é valorizada e representada positivamente, a criança é beneficiada.

Os dois exemplos apresentados são radicalmente contrastantes, e estão muito distantes no tempo e no espaço. Mas, e quanto a nós? Em que posição nos encontramos nessa escala? Nossa relação com a criança é sem dúvida mais amorosa e generosa do que a das francesas urbanas dos séculos XVII e XVIII. Não depositaríamos nossos bebês em carroças para serem levados para residir com uma mulher estranha durante anos a fio, distantes de nossos olhos e de nossa proteção. A simples menção a esse costume nos causa repulsa e horror. Mas a verdade é que, ao longo do nosso processo de educação e formação pessoal, não só deixamos de ser preparadas para a maternidade dedicada, como fomos enfática e ativamente encorajadas a priorizar expectativas que conflitam diretamente com ela. Já mostrei aqui no blog o quanto a nossa cultura individualista, hedonista e utilitarista desvaloriza e desestimula o devotamento materno. Crescemos expostas a uma propaganda cultural feminista que tenta nos convencer, a todo custo, que, a despeito do que realizamos em nossos lares, nossa existência só será digna de admiração se tivermos prestígio e poder na esfera pública. E tudo isso nos torna confusas e inaptas quando precisamos lidar com um fato fundamental: nossos filhos precisam de nossa presença e de nossa atenção.

Winnicott, na frase acima citada, estava, obviamente, privilegiando o ponto de vista do bebê. E é esse ponto de vista, precisamente, que a nossa cultura hegemônica nos convida o tempo todo a ignorar, ao fazer com que valorizemos acima de tudo os nossos projetos individuais, mesmo que eles nos levem a descumprir as obrigações morais que temos para com as nossas crianças. Há, obviamente, mulheres que não têm opção, e precisam deixar seus filhos com terceiros para colocar comida na mesa. Não é desse tipo de circunstância de vida que eu falo. Falo de circunstâncias culturalmente criadas, que impactam a mulher em sua constituição subjetiva, e envolvem decisão e estabelecimento consciente de prioridades. É nesse sentido que precisamos resistir e nadar contra a corrente de nossas próprias representações culturais, assumindo o compromisso de ser fortes e capazes de lidar com as eventuais frustrações que podem nos rondar quando, desafiando as circunstâncias, priorizamos o cuidado de nossos filhos.

 

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Imagem:

Pablo Picasso, Maternity, 1905.

 

 

 

 

 

Saiba por que você pode (e deve) chamar a sua filha de “princesa”

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Recentemente, uma famosa marca de cosméticos resolveu entrar na onda da desconstrução e fez uma campanha para convencer os pais a pararem de chamar as suas filhas de “princesa”. Em linhas gerais, o argumento era que as princesas são retratadas nas histórias infantis como criaturas frágeis, cuja felicidade está sempre nas mãos de terceiros. Na verdade, a ideia nada tem de original. A campanha apenas pegou carona num discurso que já conhecemos de longa data e que está estreitamente comprometido com a pauta da segunda onda feminista.

O incômodo feminista com o fato das meninas se sentirem tão atraídas pela princesa clássica deu origem a uma vasta produção crítica em torno do assunto. O tema tem sido explorado em reportagens, teses acadêmicas, assim como em uma enorme quantidade de livros infantis alternativos que se propõem a “repensar” ou “reconceituar” a personagem. A justificativa alegada  é a de que a princesa encarnaria estereótipos de gênero deletérios para o desenvolvimento subjetivo das meninas, representando a mulher como passiva e dependente. Neste artigo, pretendo demonstrar que tal leitura é não só inconsistente, como também desonesta.

Em primeiro lugar, é importante notar que a crítica feminista tem por objeto, principalmente, o modelo de princesa dos contos de fadas europeus, narrativas herdeiras do folclore camponês medieval, e modernizadas por autores de séculos posteriores. O foco na princesa dos contos de fadas tem um motivo simples: essa heroína arquetípica encanta a imaginação das meninas há várias gerações. O seu apelo mimético é muito forte e, para um feminismo preocupado em formatar a mente e o corações das mulheres, ela é uma verdadeira pedra no sapato. Mas não pelos motivos alegados. Vamos ver.

Observando, com o olhar honesto e atencioso, a estrutura dos contos e as ações da personagem, nada nos autoriza a defini-la como uma mulher de caráter frágil e sem personalidade. Muito pelo contrário. Ora, nos contos de fadas, as princesas são justamente a expressão mais rematada de um ideal de dignidade e nobreza, estando sempre existencialmente inclinadas apenas para o que é bom, justo e verdadeiro. Não há, em sua conduta, nenhum indício de fraqueza moral. Pode, por exemplo, existir personagem feminina mais forte, determinada e decidida do que a Bela? Como atribuir fraqueza a uma personagem que se caracteriza, precisamente, pela retidão moral e pela força interior?

Porém, tão importante quanto perceber na crítica feminista um grave equívoco de interpretação, é notar que esse equívoco não é inocente. Aliás, menos do que um equívoco, trata-se de uma jogada estratégica, cujo intuito é denegrir, junto com a princesa, o conjunto de valores que as suas ações afirmam e expressam. Para se ler um conto de fadas clássico como A Bela e a Fera de modo a concluir que a heroína é uma mulher frágil, passiva e dependente, é preciso, simplesmente, escamotear a mensagem essencial do conto, para em seguida distorcê-la, tornando-a menos atraente. O verdadeiro alvo da crítica à figura da princesa é o ideal de pessoa e de feminilidade que os contos veiculam, com o qual a visão de mundo feminista se choca frontalmente.

As princesas dos contos de fadas são, em geral, adolescentes que, por uma fatalidade do destino, vêem-se subitamente às voltas com uma situação dramática e opressiva. Isoladas e sem apoio, não possuem recursos práticos e eficazes para livrar-se dela. Cinderela passa anos sendo admoestada por uma madrasta má, que a trata como serva; Branca de Neve é odiada e perseguida por uma madrasta assassina, que a inveja por sua beleza; Rapunzel vive numa torre, refém de uma bruxa vingativa; e Bela é prisioneira no castelo de um ser aparentemente monstruoso.

Em todas as narrativas, observamos a ausência estrutural dos pais da moça, estejam eles vivos ou mortos. Não posso tratar a questão em detalhes aqui, mas é importante entender que essa ausência está ligada à passagem da adolescência para a vida adulta, ou seja, do regime de filiação ao de aliança matrimonial, um tema que permeia todos os contos. O fato que nos interessa, porém, é que a heroína, que em breve deve passar do estatuto de filha ao de mãe de família, encontra-se de repente sozinha, desprotegida, em circunstâncias extremamente desfavoráveis.

Diante dessas circunstâncias, todas as personagens demonstram, ao longo das narrativas, um tipo de disposição que só podemos interpretar como reveladora de força de caráter. Enquanto são vítimas da situação, elas a enfrentam com nobreza e retidão. Não se desesperam nem perdem a integridade. São atenciosas e acolhedoras, trabalhadeiras e fiéis aos seus princípios. Jamais se comportam como vítimas, embora de fato o sejam. Nenhuma delas se corrompe, transigindo com o mal que seus antagonistas encarnam. Não perdem a fé, nem tampouco a doçura. Tratam com bondade e consideração todas as criaturas que cruzam o seu caminho, sejam humanos ou animais. Percorrem altivas a sua trajetória dramática – que em alguns casos culmina com uma morte simbólica – até que se abra uma possibilidade de salvamento.

O grau de destaque dado a cada uma dessas qualidades varia de conto para conto. Mas, naquele que é dentre todos o mais sublime, elas estão presentes em conjunto e de maneira absolutamente explícita na pessoa da heroína. Desde o início da história que leva seu nome, Bela se comporta de maneira generosa e altruísta. Enquanto suas irmãs exigem do pai presentes custosos, ela prefere poupá-lo de qualquer sacrifício. Resolve enfrentar a Fera para salvá-lo da morte. Uma vez no castelo da Fera, continua dando mostras de sua grandeza e nobreza de alma. Consegue enxergar a Fera para além das aparências e apaixona-se por ela. Como pode alguém em sã consciência acreditar que este não seja um modelo de pessoa apropriado para uma menina em formação? Por que tamanho incômodo com uma personagem que só faz o bem, só persegue o que é justo, e não pede nada que não lhe pertença de fato?

Chegamos aqui ao nosso ponto. Na verdade, o desconforto feminista com a princesa nada tem de surpreendente, se cotejarmos a sua figura com o ideal de mulher que o feminismo se esforça para propagar: a mulher que nada é capaz de sacrificar em prol daqueles a quem ama. A mulher que, embora se pretenda independente, está permanentemente insatisfeita e disposta a se colocar no lugar de vítima, sempre acusando um terceiro por suas próprias mazelas. A mulher que só pensa em si mesma, ou em si mesma antes de todos, e que não é capaz de entender a diferença entre ser forte e ser individualista.

Outro fator importante, e talvez o mais relevante, é o desfecho das histórias, a saber, o fato de que, ao final, a princesa se casa com um príncipe cuja aparição permite que ela saia do estado liminar em que se encontra. Eu arriscaria dizer que o que mobiliza a crítica feminista não é nem tanto a figura da princesa, e sim a chegada do príncipe parceiro. Se tudo se resolvesse num passe de mágica, com a ajuda de uma fada madrinha, e a moça, após liberta do jugo ou da perseguição do algoz, passasse a reinar soberana em seu próprio castelo, talvez ela não fosse objeto de tanto desprezo. Mas uma mulher e um homem unidos e “felizes para sempre”, tendo ao fundo a expectativa de um projeto familiar…Um final difícil de engolir, para um movimento que, desde os anos sessenta, tem se esforçado para convencer as mulheres de que o casamento, a maternidade e a vida familiar não podem ser fontes de realização feminina.

Pelo menos duas gerações de mulheres já cresceram expostas a esse discurso cultural que hoje em dia é praticamente hegemônico, e que busca induzi-las a relegar a família ao segundo plano de suas vidas, e a acreditar que o sucesso profissional lhes abrirá as portas da felicidade. Se você quer dar à sua filha elementos para se defender dessa narrativa e ampliar os seus horizontes existenciais, faça com que a princesa dos contos de fadas habite o seu imaginário e esteja entre os seus modelos de realização feminina. Essas histórias representam, hoje, um importante elemento de defesa da imaginação de nossas crianças, uma contracultura literária, um antídoto para fazer frente à avalanche de mensagens individualistas e utilitaristas às quais elas estão cotidianamente expostas.

Por tudo isso, não aceite o conselho da marca de cosméticos. Continue chamando a sua filha de “princesa”. Quando um adulto usa esse elogio carinhoso, ele está comunicando à menina, de maneira lírica e esteticamente elevada, que a tem em alta conta, que a considera uma pessoa com qualidades superiores. Se ela for inteligente, o elogio será compreendido e só lhe fará bem.

 

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Imagem: 

Edmund Blair Leighton, The Accolade (detalhe), 1901.

O projeto de criação de crianças confusas

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No artigo anterior, expliquei o que é, de onde vem, e por que devemos nos preocupar com a disseminação, na mídia e nas escolas, da chamada “ideologia de gênero.” Argumentei que essa ideologia nada tem de científica, tampouco de libertária, e que seu propósito geral é tornar as crianças confusas acerca das noções de feminino e masculino, investindo, assim, contra o modelo de família que se apoia na complementariedade entre os sexos.

Não é de hoje que somos bombardeados com reportagens e falas de especialistas que querem nos ensinar com que brinquedos nossos filhos e filhas precisam brincar, que cores de roupa devem usar, e que elogios podemos dirigir a eles. Porém, de uns tempos para cá, a agenda da desconstrução começou a ganhar contornos mais perturbadores. Crianças supostamente “transgênero” têm sido exibidas nas mídias impressa e eletrônica, em ritmo praticamente diário, como se fossem provas vivas de que ser menino ou menina nada tem a ver com o sexo de nascimento. Não há um só dia em que não nos deparemos com matérias permeadas por essa narrativa, cujas falácias e imposturas pretendo demonstrar aqui.

É necessário começar dizendo o óbvio. Existem, sim, diferenças inatas entre meninos e meninas, e essas diferenças apontam para tendências em termos de comportamento e estilos de desenvolvimento. Não obstante, o modo de ser e de se desenvolver de cada criança será resultado da interação entre tais diferenças inatas, o temperamento individual, e a forma como ela reage aos estímulos que recebe do ambiente. Nesse sentido, em termos de suas escolhas lúdicas e modos de se comportar, algumas meninas podem assemelhar-se mais aos meninos com quem convivem do que à média das meninas de sua idade, preferindo, inclusive, brincar somente com eles. E o mesmo pode acontecer a alguns meninos. Esses casos, perfeitamente normais, não representam contudo maioria.

O importante é ter sempre em mente que, quaisquer que sejam as preferências e o modo de ser de uma criança, privá-la da certeza de ser menino ou menina é uma das maiores violências que se pode cometer contra a sua infância. Pois, ao contrário do que querem nos fazer crer os promotores da ideologia de gênero, não há desejo, figurino, tratamento hormonal ou intervenção nos órgãos genitais capaz de anular as implicações do fato de se possuir em todas as células do corpo um par de cromossomos sexuais. Nos últimos tempos, porém, esse assunto vem sendo tratado de modo tão leviano que se um menino insistir em brincar de boneca, ou em calçar os sapatos da mãe, logo aparecerá algum incauto para classificá-lo como “transgênero” e sugerir que ele seja encaminhado para uma clínica especializada para fazer a sua “transição”.

Além de irresponsável, o discurso sobre as supostas “crianças transgênero” é cheio de incoerências. Os promotores da ideologia de gênero insistem na ideia de que as alegadas diferenças entre meninos e meninas resultam, não de uma realidade naturalmente constituída, e sim de um processo de socialização que reforçaria os “estereótipos sexuais da sociedade ocidental”. Entretanto, são eles próprios os primeiros a projetar nas crianças ditas “transgênero” os atributos que em outros contextos de militância se esforçam por dissolver. Como justificar, no registro de uma narrativa que se diz tão libertária e avessa a “estereótipos”, que um menino atraído pelo universo feminino precise “virar” menina? E que, para tanto, seja estimulado a pintar as unhas e vestir-se de princesa ?

Vejam o malabarismo: quando os comportamentos e preferências das crianças se conformam aos chamados “estereótipos sexuais da sociedade ocidental”, eles são vistos como males a serem combatidos. Mas quando se trata de decidir que uma criança é “transgênero”, os supostos “estereótipos sexuais” tornam-se critérios válidos. E o mais grave: os formuladores desse discurso têm plena consciência da contradição. Eles costumam se referir a essa forma de manipular os conceitos como “essencialização estratégica”. E qual é a estratégia? Criar um contingente de crianças e jovens confusos em relação à sua própria identidade sexual.

O discurso sobre as crianças “transgênero” revela, ainda, uma profunda ignorância a respeito de aspectos cruciais do desenvolvimento infantil. Até os seis ou sete anos de idade, a capacidade imaginativa da criança é praticamente ilimitada. Ela pode se imaginar princesa, super-herói, sereia, cachorro, borboleta, nuvem, o que quer que seja, sem prejuízo algum do fato de saber-se menino ou menina. Essa efervescência da imaginação é, em boa parte, impulsionada pelo comportamento mimético, que nos primeiros anos de vida funciona como um poderoso mecanismo de aprendizagem. Toda criança saudável passa boa parte de seu tempo a imitar os coleguinhas, os adultos com os quais convive, os personagens das histórias. E não há nenhuma barreira que a impeça de, sendo um menino, imitar um personagem real ou fictício do sexo feminino, e vice-versa.

Mas é claro que nenhum processo de identificação se faz sem modelos. Se a criança nunca viu a imagem de um soldado, por exemplo, jamais poderá pretender-se um. Nesse sentido, quanto mais modelos positivos e inequívocos de homem e mulher ela tiver à sua disposição, mais fácil será o seu processo de auto identificação. Para a grande maioria das crianças criadas num ambiente razoavelmente bem provido de modelos, a formação da subjetividade sexual se dá de maneira natural e tranquila, embora sempre modulada pelas idiossincrasias individuais.

Quando os desejos de uma criança por brinquedos, roupas e coleguinhas do sexo oposto se tornam exclusivos e vêm acompanhados de sofrimento psíquico, prejuízo no desenvolvimento social e afetivo, e veementes expressões de desgosto com a sua própria anatomia sexual, não se deve descartar a possibilidade de que ela seja portadora de um transtorno intitulado “disforia de gênero”. Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, a prevalência dessa condição mental é de 0,005% a 0,014% em indivíduos do sexo masculino, e 0,002% a 0,003% em indivíduos do sexo feminino. Ou seja, trata-se de um transtorno muito raro.

Além de ser raro, na maior parte dos casos o transtorno tende a desaparecer. As taxas de resolução da “disforia de gênero” antes da idade adulta variam, mas chegam à proporção de 97,8%  em meninos, e de 88% em meninas. Diante desses dados, não há absolutamente nenhuma justificativa para outra atitude a não ser a de apoiar afetivamente a criança enquadrada nesse diagnóstico e ajudá-la a se reconciliar psicologicamente com o seu sexo biológico. Porém, na narrativa disseminada na mídia com a conivência de parte da classe médica, esses dados têm sido escamoteados, quando não ativamente distorcidos, o que leva muitas famílias a acreditar que se trata de um quadro muito mais frequente e definitivo. Desencadeiam-se assim temores, ansiedades e condutas absolutamente equivocadas.

Em resumo, o ponto importante é que dizer “criança portadora de disforia de gênero” não é o mesmo que dizer “criança transgênero”. O primeiro termo refere-se a um diagnóstico clínico que, na maioria dos casos, é temporário, ao passo que o segundo denota uma atribuição de identidade, feita por terceiros, com sérias repercussões sociais e psicológicas. A distância entre ser portador de “disforia de gênero” e ser “transgênero” só pode ser percorrida por uma pessoa adulta, autoconsciente, dotada de discernimento e responsabilidade para tomar decisões que afetarão a sua vida de maneira estrutural e, provavelmente, irreversível. Por tudo isso, podemos considerar mudança de nome, travestismo, e tratamento hormonal para bloqueio da puberdade em crianças como procedimentos abusivos e inteiramente condenáveis. E não só do ponto de vista ético.

Nas numerosas matérias de jornais e revistas impressas e eletrônicas que nos chegam cotidianamente, praticamente não se fala nas altas taxas de suicídios entre pessoas que se submetem a tratamento hormonal e fazem cirurgia de redesignação sexual. Tampouco nos graves riscos que a utilização de hormônios do sexo oposto – passo subsequente ao bloqueio da puberdade – representa para a saúde global e reprodutiva. Tamanho silêncio a respeito de dados extremamente relevantes não deve levantar imediatamente a suspeita de má-fé?

Na verdade, como não somos ingênuos e estamos perfeitamente cientes do objetivo por trás do discurso proselitista da mídia sobre as ditas “crianças transgênero”, bem como de suas fontes bilionárias de financiamento, essa omissão infame não deve nos surpreender. Pois ela apenas corrobora o que já sabemos: nesse ponto, assim como em praticamente todos os outros que compõem a agenda da ideologia de gênero, os interesses político-ideológicos prevalecem sobre a preocupação com o bem-estar dos indivíduos envolvidos.

O que se pretende com toda essa propaganda é induzir os pais e a escola a questionar a identidade sexual das crianças até que todas, ou praticamente todas, acabem se tornando em alguma medida disfóricas em relação à sua própria natureza. Angústias e inseguranças infantis, que podem ter as mais variadas origens, vão sendo assim capitalizadas e imediatamente traduzidas no idioma da identidade sexual. E aí eu pergunto: quem vai pagar a conta quando, daqui a duas ou três décadas, essa geração de crianças perceber que foi submetida a um experimento social que lhe tirou, na melhor das hipóteses, a possibilidade de dar plena expressão à sua condição sexuada?

 

Fontes médicas consultadas:

Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th edition, American Psychiatric Association.

“Gender Ideology Harms Children”. American College of Pediatricians. September 2017.

 

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Imagem:

Jessie Willcox Smith (1863-1935), “Looking Glass River”.

 

O cultivo do imaginário

Se você tem um filho pequeno, certamente já observou que ele não precisa de nenhuma ajuda ou incentivo para se entregar ao ato de imaginar. Isso porque, até os sete anos de idade, aproximadamente, o potencial infantil para a fantasia e a brincadeira é naturalmente ilimitado. Nessa fase de extrema abertura imaginativa, a capacidade da criança de reter, memorizar e absorver criativamente as imagens que capta do ambiente atinge o seu rendimento máximo.

O conjunto dessas imagens, que chegam à criança por meio dos cinco sentidos, compõe aquilo que se costuma denominar de “imaginário infantil”. E é a partir desse material que a imaginação de seu filho trabalha na hora das brincadeiras.

Os atos imaginativos da criança serão tanto mais ricos e complexos quanto maior for a qualidade das imagens que ela puder absorver e guardar na memória. Mas o ponto importante é que, embora o potencial das crianças pequenas para a fantasia seja por natureza ilimitado, elas não possuem recursos para buscar sozinhas um repertório de imagens que esteja fora de seu ambiente imediato. E é aqui, precisamente, que começa a responsabilidade dos pais: apresentar o mundo para os filhos de modo que eles possam formar um imaginário rico e abrangente.

Mas por que é tão importante formar um imaginário rico e abrangente durante a infância? Por dois motivos. O primeiro diz respeito à própria vivência infantil. Brincar é muito prazeroso e possibilita à criança explorar a sua subjetividade das mais variadas formas. Um imaginário rico e abrangente propicia uma experiência mais divertida com a imaginação.

O segundo motivo diz respeito à repercussão da experiência imaginativa infantil na fase adulta. Dela depende, em ampla medida, nossa forma de estar no mundo, ou seja, o modo como sentimos e vivemos a nossa existência. A sensibilidade e a inteligência estão estreitamente atreladas à imaginação. E embora o nosso imaginário possa se expandir e se qualificar ao longo de toda a vida, é na infância que se forma a base.

Nós, adultos, reagimos às situações que a vida nos apresenta de acordo com os recursos imaginativos de que dispomos. Um adulto pouco imaginativo tem dificuldade para interpretar textos, projetar cenários, avaliar possibilidades, tomar decisões que requeiram algum tipo de reflexão. A falta de imaginação, ou uma imaginação muito estreita, também limita a compreensão e a expressão dos sentimentos, dos nossos e dos alheios. Por tudo isso, podemos dizer que uma imaginação rica e treinada para altos voos sempre pode nos levar mais longe. Ao passo que uma imaginação pobre e pouco exercitada não nos leva muito além do quintal da nossa casa.

Mas quando falo de um imaginário rico e abrangente, não me refiro somente à quantidade e à variedade das imagens a que a criança terá acesso. É preciso prestar atenção à sua qualidade ética e estética. Devemos apresentar à criança imagens belas e virtuosas. Pois o imaginário não está relacionado somente à inteligência e à sensibilidade. Ele também participa diretamente da formação do gosto e do caráter.

Nesse ponto, já deve estar claro qual é o seu papel nessa história.

Imagens da natureza

Em primeiro lugar, mostre a natureza ao seu filho, pois não existe melhor manancial de imagens belas e edificantes. As imagens da natureza nos fazem lembrar o tempo todo o privilégio de ter tido a chance de nascer e de estar nesse mundo.

O fato da maioria das crianças urbanas viverem em apartamentos é certamente um fator limitante do desenvolvimento da capacidade contemplativa. Aliás, o simples fato de morar em uma grande cidade pode significar a impossibilidade de sequer observar um céu estrelado. Mais sortudas, nesse sentido, são as crianças que acordam olhando para uma paisagem admirável. Mas essa limitação das crianças urbanas é passível de ser relativamente contornada por uma atitude propositiva dos pais.

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Dê a seu filho oportunidade de observar vastos horizontes e contemplar belezas naturais impactantes: ver o pôr-do-sol, a Lua despontando no céu, a massa compacta e imponente de montanhas que compõem uma serra, as ondas do mar quebrando na areia. Ao levá-lo para passear, mostre-lhe os detalhes da passagem e deixe que ele se divirta coletando pequenas coisas como folhas e pedras de tipos e formatos variados. Estimule-o a experimentar o ambiente usando todos os sentidos possíveis. Passar a mão no casco de uma tartaruga, ouvir o canto dos pássaros, provar uma fruta no pé, essas pequenas experiências contribuem muito para a construção de um conhecimento do mundo mais profundo e pessoal.

As crianças possuem uma capacidade natural para se maravilharem com qualquer coisa, por mais simples e diminuta que seja. Quando têm a chance de um contato íntimo com a natureza, elas aprendem a identificar e apreciar coisas belas, ao mesmo tempo em que aumentam a sua coleção de experiências encantadoras.

Imagens da cultura

Mas as imagens maravilhosas não estão só na natureza. Elas também habitam o mundo da cultura, esse patrimônio construído por gerações e gerações de homens e mulheres inspirados e talentosos que viveram (e vivem) nos quatro cantos da Terra. Para a formação da criança enquanto pessoa imaginativa e autoconsciente, é fundamental que a experiência humana de outras épocas e lugares possa reverberar em sua imaginação. Educar uma criança consiste precisamente em levá-la além dos limites de seu espaço/tempo imediato, ao qual ela já estará naturalmente integrada. E isso só se torna possível graças às imagens contidas nas obras artísticas e literárias.

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O acesso à arte e à literatura de qualidade amplia os horizontes existenciais da criança, pois a coloca em contato com uma vasta gama de situações de vida e modelos de comportamento nos quais ela pode se espelhar e se projetar rumo ao futuro. Ao mesmo tempo, favorece o desenvolvimento de uma sensibilidade mais fina para tudo o que fiz respeito às relações humanas. Por isso, apresentar ao seu filho a boa literatura, principalmente as obras clássicas, é o caminho mais seguro e consistente para uma educação que vise à autoconsciência e à liberdade.

Visitar os museus da cidade, assistir boas peças de teatro infantil e ouvir música de qualidade também são atividades que contribuem significativamente para o cultivo do imaginário. Pense nisso ao planejar os passeios de sua família. Todo mundo vai sair ganhando.

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Se você se interessou pelo tema da formação do imaginário e quer aprofundar os seus conhecimentos, acompanhe o trabalho do Prof. Francisco Escorsim, que se dedica à educação da imaginação de jovens e adultos. Acesse a sua página de trabalho no Facebook  e informe-se sobre a programação de palestras e cursos.

O trabalho do Prof. Escorsim tem sido uma fonte de inspiração importante para minhas reflexões sobre a imaginação infantil.

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Imagem:

Edmund Blair Leighton, The Accolade, 1901.