O Estudo do Artista

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O melhor caminho para auxiliar a criança no desenvolvimento da sensibilidade estética e dos critérios que levam à apreciação bem informada da arte, é colocá-la desde cedo em contato com obras de artistas consagrados pela tradição. Isso vale tanto para as artes plásticas como para a música. Assim pensava Charlotte Mason, educadora britânica do século XIX que criou um currículo escolar muito particular, que até hoje é utilizado em escolas do hemisfério norte e por famílias que praticam a educação domiciliar. No Brasil, é crescente o número de famílias que ensinam seus filhos em casa pelo método de Charlotte Mason. Se você quiser saber mais sobre o trabalho dessa notável educadora,  clique aqui nesse link.

Mas hoje quero falar aqui, especificamente, sobre uma atividade proposta por C. Mason para o estudo da arte. Trata-se do Estudo do Artista, que consiste em apresentar à criança, durante três meses, de seis a oito reproduções de obras de um mesmo pintor, uma de cada vez. Funciona assim. Escolha um lugar de destaque, e a cada 15 dias, disponha ali uma das imagens. Tendo sempre como medida o interesse manifestado pela criança, aos poucos, você pode explorar alguns detalhes da obra, fornecer informações sobre o artista e o contexto do quadro. O importante é não atropelar a sua curiosidade. O objetivo principal é que ela conheça a obra, veja e reveja muitas vezes, tenha a oportunidade de concentrar a sua atenção e apreciá-las de maneira livre e espontânea. O estilo do artista deixará uma impressão profunda e duradoura em sua imaginação.

A escolha do artista é livre, e fica a seu critério. Uma dica importante: não ceda à tentação de apresentar todas as obras de uma só vez. E – agora falando por mim mesma e não por Charlotte Mason – organize a atividade de um modo que, ao final do trimestre, a criança possa ver todas as obras em conjunto. Apresentei desse modo Leonardo da Vinci ao meu filho, que está prestes a completar 6 anos, e não poderia ter ficado mais satisfeita com o resultado. Lemos o “Da Vinci” da Coleção Crianças Famosas, e assistimos juntos alguns vídeos que mostravam a obra do artista em museus pelo mundo. O próximo trimestre ele vai conhecer Rafael Sânzio, e no outro Sandro Botticelli, pois, no nosso caso, o critério será cronológico. Esse ano será dedicado aos mestres do Renascimento.

Eu recomendo o Estudo do Artista, nesses moldes, para professores e pais. Trata-se de uma atividade muito simples, que pode envolver crianças de várias idades de uma só vez. Basta-nos conseguir as seis reproduções e coletar informações que nos permitam responder as perguntas que vierem. Essa parte – a da pesquisa – é aquela que nos toca diretamente: o Estudo do Artista também nos dá uma ótima oportunidade para complementarmos a nossa própria educação.

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Imagem:

Leonardo Da Vinci, “Dama com Arminho” (1489-1490)

 

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Educação para a arte

Hoje quero deixar para você uma dica preciosa que me chegou recentemente pelo blog Encontrando Alegria, da Camila Abadie, que sigo há algum tempo. Essa dica complementa e exemplifica a minha última postagem sobre a importância do contato com a arte na formação do imaginário infantil.

Trata-se do ebook What Do You See: A Child’s First Introduction to Art, da autora americana Laurie Bluedorn. A faixa etária indicada é de 4 a 12 anos.

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What do You See” é uma obra em três volumes, que visa despertar o interesse das crianças pela pintura e transmitir três princípios introdutórios ao estudo da arte. O primeiro volume tem por objetivo levar a criança a observar e identificar o centro de interesse da obra, ou seja, a parte que o artista quer que atraia a atenção do expectador em primeiro plano. O segundo volume explora o tema da cor, focalizando a presença das cores primárias. E o terceiro trata especificamente da fonte de luz. Cada volume apresenta dez reproduções de obras clássicas, seguidas por um guia de questões.

Quem já visitou museus na Europa provavelmente pôde ver grupos de crianças em idade escolar, orientadas por um professor, observando demoradamente uma pintura. Dependendo da faixa etária, elas fazem anotações. Em geral, para as crianças pequenas, as observações do professor giram em torno dos três princípios que o livro de Laurie Bluedorn explora: “O que vocês estão vendo? O que chama atenção em primeiro lugar? Que cores predominam na tela? De onde vem a luz que ilumina a cena?”

No Brasil, infelizmente, a grande maioria das crianças não recebe esse treinamento do olhar.  São poucas as escolas que possuem a preocupação de desenvolver em seus alunos a capacidade de apreciar formalmente uma obra de arte e cujos professores estão preparados para fazer esse tipo de trabalho. Portanto, os pais precisam se preparar para assumir essa tarefa.

Começar por What Do You See pode ser bem interessante. Além de ser um guia para a iniciação à educação artística e uma fonte para a ampliação do imaginário infantil, as atividades propostas no ebook rendem momentos agradáveis de intimidade entre pais e filhos. A maior parte das pinturas retratam cenas do cotidiano infantil, o que permite que as crianças se projetem mais facilmente nas imagens. Se, além de trabalhar as questões sugeridas, você estimular seu filho a falar livremente sobre o que está vendo, deixando-o à vontade para comunicar suas impressões e expressar suas emoções, a cada quadro terá oportunidade de conhecê-lo um pouco mais.

Os três volumes estão disponíveis na Amazon por menos de 3 dólares cada. Mas certifique-se de que você vai poder visualizar as imagens a cores e em tela grande.

Referências:

What do You See: A Child’s First Introduction to Art (3 vols.)

Laurie Bluedorn

Trivium Pursuit ed.

O cultivo do imaginário

Se você tem um filho pequeno, certamente já observou que ele não precisa de nenhuma ajuda ou incentivo para se entregar ao ato de imaginar. Isso porque, até os sete anos de idade, aproximadamente, o potencial infantil para a fantasia e a brincadeira é naturalmente ilimitado. Nessa fase de extrema abertura imaginativa, a capacidade da criança de reter, memorizar e absorver criativamente as imagens que capta do ambiente atinge o seu rendimento máximo.

O conjunto dessas imagens, que chegam à criança por meio dos cinco sentidos, compõe aquilo que se costuma denominar de “imaginário infantil”. E é a partir desse material que a imaginação de seu filho trabalha na hora das brincadeiras.

Os atos imaginativos da criança serão tanto mais ricos e complexos quanto maior for a qualidade das imagens que ela puder absorver e guardar na memória. Mas o ponto importante é que, embora o potencial das crianças pequenas para a fantasia seja por natureza ilimitado, elas não possuem recursos para buscar sozinhas um repertório de imagens que esteja fora de seu ambiente imediato. E é aqui, precisamente, que começa a responsabilidade dos pais: apresentar o mundo para os filhos de modo que eles possam formar um imaginário rico e abrangente.

Mas por que é tão importante formar um imaginário rico e abrangente durante a infância? Por dois motivos. O primeiro diz respeito à própria vivência infantil. Brincar é muito prazeroso e possibilita à criança explorar a sua subjetividade das mais variadas formas. Um imaginário rico e abrangente propicia uma experiência mais divertida com a imaginação.

O segundo motivo diz respeito à repercussão da experiência imaginativa infantil na fase adulta. Dela depende, em ampla medida, nossa forma de estar no mundo, ou seja, o modo como sentimos e vivemos a nossa existência. A sensibilidade e a inteligência estão estreitamente atreladas à imaginação. E embora o nosso imaginário possa se expandir e se qualificar ao longo de toda a vida, é na infância que se forma a base.

Nós, adultos, reagimos às situações que a vida nos apresenta de acordo com os recursos imaginativos de que dispomos. Um adulto pouco imaginativo tem dificuldade para interpretar textos, projetar cenários, avaliar possibilidades, tomar decisões que requeiram algum tipo de reflexão. A falta de imaginação, ou uma imaginação muito estreita, também limita a compreensão e a expressão dos sentimentos, dos nossos e dos alheios. Por tudo isso, podemos dizer que uma imaginação rica e treinada para altos voos sempre pode nos levar mais longe. Ao passo que uma imaginação pobre e pouco exercitada não nos leva muito além do quintal da nossa casa.

Mas quando falo de um imaginário rico e abrangente, não me refiro somente à quantidade e à variedade das imagens a que a criança terá acesso. É preciso prestar atenção à sua qualidade ética e estética. Devemos apresentar à criança imagens belas e virtuosas. Pois o imaginário não está relacionado somente à inteligência e à sensibilidade. Ele também participa diretamente da formação do gosto e do caráter.

Nesse ponto, já deve estar claro qual é o seu papel nessa história.

Imagens da natureza

Em primeiro lugar, mostre a natureza ao seu filho, pois não existe melhor manancial de imagens belas e edificantes. As imagens da natureza nos fazem lembrar o tempo todo o privilégio de ter tido a chance de nascer e de estar nesse mundo.

O fato da maioria das crianças urbanas viverem em apartamentos é certamente um fator limitante do desenvolvimento da capacidade contemplativa. Aliás, o simples fato de morar em uma grande cidade pode significar a impossibilidade de sequer observar um céu estrelado. Mais sortudas, nesse sentido, são as crianças que acordam olhando para uma paisagem admirável. Mas essa limitação das crianças urbanas é passível de ser relativamente contornada por uma atitude propositiva dos pais.

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Dê a seu filho oportunidade de observar vastos horizontes e contemplar belezas naturais impactantes: ver o pôr-do-sol, a Lua despontando no céu, a massa compacta e imponente de montanhas que compõem uma serra, as ondas do mar quebrando na areia. Ao levá-lo para passear, mostre a ele os detalhes da paisagem e deixe que se divirta coletando pequenas coisas como folhas e pedras de tipos e formatos variados. Estimule-o a experimentar o ambiente usando todos os sentidos possíveis. Passar a mão no casco de uma tartaruga, ouvir o canto dos pássaros, provar uma fruta no pé, essas pequenas experiências contribuem muito para a construção de um conhecimento do mundo mais profundo e pessoal.

As crianças possuem uma capacidade natural de se maravilhar com qualquer coisa, por mais simples e diminuta que seja. Quando têm a chance de um contato íntimo com a natureza, elas aprendem a identificar e apreciar coisas belas, ao mesmo tempo em que aumentam a sua coleção de experiências encantadoras.

Imagens da cultura

Mas as imagens maravilhosas não estão só na natureza. Elas também habitam o mundo da cultura, esse patrimônio construído por gerações e gerações de homens e mulheres inspirados e talentosos que viveram (e vivem) nos quatro cantos da Terra. Para a formação da criança enquanto pessoa imaginativa e autoconsciente, é fundamental que a experiência humana de outras épocas e lugares possa reverberar em sua imaginação. Educar uma criança consiste precisamente em levá-la além dos limites de seu espaço/tempo imediato, ao qual ela já estará naturalmente integrada. E isso só se torna possível graças às imagens contidas nas obras artísticas e literárias.

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O acesso à arte e à literatura de qualidade amplia os horizontes existenciais da criança, pois a coloca em contato com uma vasta gama de situações de vida e modelos de comportamento nos quais ela pode se espelhar e se projetar rumo ao futuro. Ao mesmo tempo, favorece o desenvolvimento de uma sensibilidade mais fina para tudo o que diz respeito às relações humanas. Por isso, apresentar ao seu filho a boa literatura, principalmente as obras clássicas, é o caminho mais seguro e consistente para uma educação que vise à autoconsciência e à liberdade.

Visitar os museus da cidade, assistir boas peças de teatro infantil e ouvir música de qualidade também são atividades que contribuem significativamente para o cultivo do imaginário. Pense nisso ao planejar os passeios de sua família. Todo mundo vai sair ganhando.

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Se você se interessou pelo tema da formação do imaginário e quer aprofundar os seus conhecimentos, acompanhe o trabalho do Prof. Francisco Escorsim, que se dedica à educação da imaginação de jovens e adultos. Acesse a sua página de trabalho no Facebook  e informe-se sobre a programação de palestras e cursos.

O trabalho do Prof. Escorsim tem sido uma fonte de inspiração importante para minhas reflexões sobre a imaginação infantil.

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Imagem:

Edmund Blair Leighton, The Accolade, 1901.