Quais são as histórias clássicas que seu filho precisa conhecer?

299px-pierre-auguste_renoir_120

A literatura clássica para crianças é muito vasta. Mas, por volta dos cinco anos de idade, ele já pode ser apresentado a três gêneros incontornáveis: os contos de fadas, as fábulas e a obra de Monteiro Lobato. São histórias que, a um só tempo, maravilham as crianças, enriquecem o seu imaginário, e conduzem-nas suavemente na direção de valores que nos são caros, como a generosidade, a justiça e a beleza.

Os Contos de Fadas

Os Contos de Fadas têm origem no folclore medieval europeu. Ambientados em castelos, florestas ou pequenas aldeias, são povoados por fadas boas e bruxas más, aristocratas e plebeus, animais falantes e outros seres fantásticos que se relacionam com os humanos e contribuem, por meio de estratagemas ou encantamentos, para transformar o seu destino.

As narrativas orais dos camponeses medievais começaram a ser transpostas para a forma escrita a partir do século XII, mas foi com autores modernos como Charles Perrault (século XVII) e os irmãos Grimm (séculos XVIII/XIX) que elas adquiriram a feição que conhecemos hoje. As histórias originais eram mais violentas e trágicas do que as que contamos às nossas crianças. No processo de fixação dos contos na forma escrita, certos aspectos dos enredos e dos personagens foram sendo suavizados para se adaptar à sensibilidade urbana do leitor moderno.

Contudo, as histórias continuam muito atuais, pois tratam de temas centrais da experiência humana, como a angustiosa transição da infância para a vida adulta, o ciúme entre irmãos, a inveja da beleza, da riqueza e do sucesso, etc. Na maioria delas, o núcleo da narrativa é um conflito existencial: o herói ou a heroína buscam algum tipo de realização pessoal. No caminho, eles encontram obstáculos terríveis que precisam transpor.

Os contos de fadas cumprem ainda a importante função de acalmar a ansiedade infantil em relação à existência do perigo e do mal no mundo. O Bem e o Mal são apresentados de forma dicotômica, absoluta e explícita, permitindo às crianças trabalhar sua angústia de forma construtiva e otimista – porque nessas histórias, o Bem quase sempre vence. Os contos permitem, assim, à criança, organizar suas percepções e sentimentos, ao mesmo tempo em que ela é apresentada a arquétipos importantes da tradição ocidental.

51ydyx637xl
“Meu Primeiro Livro de Contos de Fadas”,       Mary Hoffman, Cia das Letrinhas.

As Fábulas

As fábulas são portadoras de uma tradição ainda mais longa do que a dos contos de fadas. Com elas, recuamos até o tempo da Grécia Antiga.

Trata-se de pequenas composições literárias protagonizadas na maioria dos casos por animais, e cujo desfecho contém um ensinamento sobre a vida, o comportamento humano e a realidade do mundo. Quem não conhece a história da cigarra que passou o verão cantando e no inverno teve que pedir abrigo à formiga trabalhadeira e avarenta, que havia juntado provisões para o inverno e se recusava a dar? Ou a da lebre convencida que, achando que a corrida estava ganha, foi tirar um cochilo e, quando acordou, havia sido ultrapassada pela lenta, porém obstinada, tartaruga?

Pois bem, também são histórias de origem popular atribuídas ao grego Esopo, que teria vivido há mais de 2500 anos atrás. Elas eram tão conhecidas e valorizadas na Grécia, que sua função educativa chegou a ser citada por Platão e Aristóteles. E o mais incrível é que, assim como ocorre com os contos de fadas, o seu conteúdo continua absolutamente atual.

As fábulas de Esopo teriam sido registradas em forma escrita, na língua latina, por Fedro, escravo liberto do imperador romano Augisto, no primeiro século da Era Cristã. Posteriormente, no século XVII, as fábulas de Esopo foram recontadas em verso pelo francês Jean de La Fontaine.

Embora sejam em sua maioria animais, os personagens dessas histórias apresentam qualidades e defeitos tipicamente humanos. Por isso, La Fontaine dizia que a fábula “é uma pintura em que cada um de nós pode encontrar seu próprio retrato.” Sua leitura enriquece o imaginário e a compreensão da criança sobre as circunstâncias de sua vida, sobre ela mesma e sobre as pessoas que a cercam.

Há muitas adaptações de Esopo e La Fontaine no mercado brasileiro de literatura infantil. Mas as fábulas requerem um trabalho maior de mediação da parte do adulto. Como elas envolvem ensinamentos bem específicos, é preciso muitas vezes explicitar a moral da história para a criança. E há também as fábulas escritas por autores modernos, de mais fácil assimilação, como Os Três Porquinhos, de Joseph Jacobs, e O Patinho Feio, de Hans Christian Andersen.

esopo1esopo 2

A literatura infantil de Monteiro Lobato

Depois de ter algum contato com esses dois gêneros literários, as crianças já podem ser apresentadas à obra de Monteiro Lobato (1882-1948). Trata-se de um hiper-clássico brasileiro cujas histórias arrebatam a atenção dos pequenos há várias décadas. O livro Reinações de Narizinho, que foi publicado em 1931, serve de marco inicial para a série “Sítio do Pica-Pau Amarelo“, que contém 23 volumes. As histórias do “Sítio” agregam elementos do nosso próprio folclore ao imaginário fantástico de animais falantes e fadas madrinhas. Ou seja, elas enriquecem a imaginação infantil com um toque genial de brasilidade.

Monteiro Lobato é interessante e incontornável por si só, mas além da qualidade intrínseca da obra, sua leitura estimula as crianças a empreenderem outras aventuras literárias mais tarde. Por exemplo, Peter Pan e Dom Quixote, que intitulam volumes do Sítio, podem posteriormente ser visitados em boas adaptações dos originais para o público infantil. O mesmo podemos dizer de O Minotauro e Os Doze Trabalhos de Hércules, que podem motivar a introdução da mitologia grega no repertório de clássicos da criança.

narizinho1os-doze-trabalhos-de-hercules-monteiro-lobato-8525047775_200x200-PU6e6afac9_1

Com essa lista de leituras tão divertidas quanto indispensáveis, seu filho vai desenvolver o gosto pela boa literatura e adquirir uma bagagem cultural que o acompanhará pelo resto da vida.

Em geral, as crianças estão prontas para o contato com essa rica literatura, na versão “original”, a partir dos cinco anos de idade, aproximadamente. Mas cada caso é um caso. De todo modo, completados os três anos, elas já podem ser apresentadas a versões simplificadas e condensadas das fábulas e dos contos de fadas.

Por fim, sugiro que você reserve um horário para ler diariamente para o seu filho. Que tal à noite, antes de dormir, para que os seus sonhos sejam alimentados pelas imagens maravilhosas que ele vai absorver? Esses momentos de atenção e intimidade ficarão guardados para sempre em sua memória afetiva

*          *          *

Imagem do topo:

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), “Portrait de Jean et Geneviève Caillebotte“. 

Por que as crianças precisam ouvir histórias clássicas?

1c5f4893a282b897a01e522b3daf4cf7

Ter acesso à boa literatura desde a mais tenra idade é fundamental para a estruturação do pensamento, a formação do imaginário e o desenvolvimento da linguagem compreensiva e expressiva. Isso todo mundo já sabe. Pouco se fala, porém, de um segundo benefício da literatura para a formação pessoal: a educação dos sentimentos.

Bons livros nos transportam para outros tempos e lugares. Eles nos dão oportunidade de vivenciar outras vidas e outras subjetividades. Conhecemos formas de agir e sentir que muitas vezes nem suspeitávamos, expandindo a nossa imaginação afetiva e os nossos horizontes existenciais. Isso nos torna mais autoconscientes e mais capazes de compreender os outros. Em suma, a literatura pode nos tornar pessoas melhores, mais bem preparadas para os relacionamentos da vida.

As crianças adoram ouvir histórias, pois a sua capacidade de se deixar envolver e levar por outras possibilidades existenciais é praticamente ilimitada. Nessa fase de extrema abertura imaginativa, é muito importante que os adultos lhes contem histórias que possam, ao mesmo tempo, dar asas à sua imaginação e ampliar o seu conhecimento do mundo.

Mas como selecionar a boa literatura dentre a enorme quantidade de livros publicados a cada dia, grande parte sem nenhuma qualidade? Em outras palavras: o que devemos ler para as nossas crianças?

A boa literatura infantil não se resume, obviamente, às histórias que já se tornaram clássicas. Há ótimos títulos contemporâneos no mercado editorial. Mas a melhor estratégia é garantir que seu filho tenha contato com os clássicos já consagrados, enquanto, paralelamente, você seleciona dentre os autores contemporâneos aqueles que merecem ocupar o seu tempo e o seu imaginário.

Por que privilegiar os clássicos? Primeiro porque as obras de literatura clássica resistiram à ação das mudanças sociais e atravessaram gerações mantendo o seu poder de atração, seja por milênios, séculos ou décadas. A literatura clássica é aquela que não sai de moda. E ela permanece porque, ao captar, fixar e revelar algo de essencial acerca da natureza humana, transcende a sua própria época.

O segundo motivo que torna a literatura clássica incontornável para uma boa educação é que ela transmite às novas gerações o repertório cultural preservado pela tradição. Ali está condensado todo um esforço de observação e compreensão da vida humana por parte de pessoas de rara sensibilidade e capacidade de expressão. Por isso, como disse o escritor italiano Ítalo Calvino, “um clássico constitui uma riqueza para quem o lê.”

O mundo da literatura clássica infantil é muito vasto, mas há três gêneros incontornáveis, que podem fazer parte da experiência literária das crianças a partir dos 3 anos de idade: as fábulas, os contos de fadas, e a obra de Monteiro Lobato. Não perca a próxima postagem. Vou falar sobre cada um desses gêneros de literatura infantil e trazer uma série de dicas de como tornar mais produtiva a leitura de cada um deles.

*          *          *

Mas, antes de finalizar, quero falar uma última coisa. Quando tomamos a decisão de nos envolver pessoalmente com a educação literária de nossos filhos, assumindo-a como uma tarefa prioritária, muitas vezes nos deparamos com lacunas importantes em nossa própria formação. Diante da constatação de que não temos conhecimento suficiente para orientá-los adequadamente, há duas atitudes possíveis.

A primeira, e infelizmente a mais frequente, é responsabilizar nossos pais e professores, e em seguida cruzar os braços, como se o problema não nos pertencesse. Isso obviamente não leva ninguém a lugar nenhum. A segunda atitude, mais honesta e sábia, é assumir pessoalmente a tarefa de complementar a nossa própria educação.
Se você acha que a sua educação literária foi deficiente, não se sinta só. Este é o caso de todos, ou quase todos, os pais e mães brasileiros que começam a atentar para a necessidade de guiar seus filhos pelo universo dos livros. Deixo aqui, para você, um link que leva a uma lista de 100 obras de literatura clássica mundial (clique aqui). É só decidir por onde você prefere começar.
*          *           *

Imagem:

Jessie Willcox Smith (1863-1935) , “A Rainy Day”.