Educação para a arte

Hoje quero deixar para você uma dica preciosa que me chegou recentemente pelo blog Encontrando Alegria, da Camila Abadie, que sigo há algum tempo. Essa dica complementa e exemplifica a minha última postagem sobre a importância do contato com a arte na formação do imaginário infantil.

Trata-se do ebook What Do You See: A Child’s First Introduction to Art, da autora americana Laurie Bluedorn. A faixa etária indicada é de 4 a 12 anos.

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What do You See” é uma obra em três volumes, que visa despertar o interesse das crianças pela pintura e transmitir três princípios introdutórios ao estudo da arte. O primeiro volume tem por objetivo levar a criança a observar e identificar o centro de interesse da obra, ou seja, a parte que o artista quer que atraia a atenção do expectador em primeiro plano. O segundo volume explora o tema da cor, focalizando a presença das cores primárias. E o terceiro trata especificamente da fonte de luz. Cada volume apresenta dez reproduções de obras clássicas, seguidas por um guia de questões.

Quem já visitou museus na Europa provavelmente pôde ver grupos de crianças em idade escolar, orientadas por um professor, observando demoradamente uma pintura. Dependendo da faixa etária, elas fazem anotações. Em geral, para as crianças pequenas, as observações do professor giram em torno dos três princípios que o livro de Laurie Bluedorn explora: “O que vocês estão vendo? O que chama atenção em primeiro lugar? Que cores predominam na tela? De onde vem a luz que ilumina a cena?”

No Brasil, infelizmente, a grande maioria das crianças não recebe esse treinamento do olhar.  São poucas as escolas que possuem a preocupação de desenvolver em seus alunos a capacidade de apreciar formalmente uma obra de arte e cujos professores estão preparados para fazer esse tipo de trabalho. Portanto, os pais precisam se preparar para assumir essa tarefa.

Começar por What Do You See pode ser bem interessante. Além de ser um guia para a iniciação à educação artística e uma fonte para a ampliação do imaginário infantil, as atividades propostas no ebook rendem momentos agradáveis de intimidade entre pais e filhos. A maior parte das pinturas retratam cenas do cotidiano infantil, o que permite que as crianças se projetem mais facilmente nas imagens. Se, além de trabalhar as questões sugeridas, você estimular seu filho a falar livremente sobre o que está vendo, deixando-o à vontade para comunicar suas impressões e expressar suas emoções, a cada quadro terá oportunidade de conhecê-lo um pouco mais.

Os três volumes estão disponíveis na Amazon por menos de 3 dólares cada. Mas certifique-se de que você vai poder visualizar as imagens a cores e em tela grande.

Referências:

What do You See: A Child’s First Introduction to Art (3 vols.)

Laurie Bluedorn

Trivium Pursuit ed.

O cultivo do imaginário

Se você tem um filho pequeno, certamente já observou que ele não precisa de nenhuma ajuda ou incentivo para se entregar ao ato de imaginar. Isso porque, até os sete anos de idade, aproximadamente, o potencial infantil para a fantasia e a brincadeira é naturalmente ilimitado. Nessa fase de extrema abertura imaginativa, a capacidade da criança de reter, memorizar e absorver criativamente as imagens que capta do ambiente atinge o seu rendimento máximo.

O conjunto dessas imagens, que chegam à criança por meio dos cinco sentidos, compõe aquilo que se costuma denominar de “imaginário infantil”. E é a partir desse material que a imaginação de seu filho trabalha na hora das brincadeiras.

Os atos imaginativos da criança serão tanto mais ricos e complexos quanto maior for a qualidade das imagens que ela puder absorver e guardar na memória. Mas o ponto importante é que, embora o potencial das crianças pequenas para a fantasia seja por natureza ilimitado, elas não possuem recursos para buscar sozinhas um repertório de imagens que esteja fora de seu ambiente imediato. E é aqui, precisamente, que começa a responsabilidade dos pais: apresentar o mundo para os filhos de modo que eles possam formar um imaginário rico e abrangente.

Mas por que é tão importante formar um imaginário rico e abrangente durante a infância? Por dois motivos. O primeiro diz respeito à própria vivência infantil. Brincar é muito prazeroso e possibilita à criança explorar a sua subjetividade das mais variadas formas. Um imaginário rico e abrangente propicia uma experiência mais divertida com a imaginação.

O segundo motivo diz respeito à repercussão da experiência imaginativa infantil na fase adulta. Dela depende, em ampla medida, nossa forma de estar no mundo, ou seja, o modo como sentimos e vivemos a nossa existência. A sensibilidade e a inteligência estão estreitamente atreladas à imaginação. E embora o nosso imaginário possa se expandir e se qualificar ao longo de toda a vida, é na infância que se forma a base.

Nós, adultos, reagimos às situações que a vida nos apresenta de acordo com os recursos imaginativos de que dispomos. Um adulto pouco imaginativo tem dificuldade para interpretar textos, projetar cenários, avaliar possibilidades, tomar decisões que requeiram algum tipo de reflexão. A falta de imaginação, ou uma imaginação muito estreita, também limita a compreensão e a expressão dos sentimentos, dos nossos e dos alheios. Por tudo isso, podemos dizer que uma imaginação rica e treinada para altos voos sempre pode nos levar mais longe. Ao passo que uma imaginação pobre e pouco exercitada não nos leva muito além do quintal da nossa casa.

Mas quando falo de um imaginário rico e abrangente, não me refiro somente à quantidade e à variedade das imagens a que a criança terá acesso. É preciso prestar atenção à sua qualidade ética e estética. Devemos apresentar à criança imagens belas e virtuosas. Pois o imaginário não está relacionado somente à inteligência e à sensibilidade. Ele também participa diretamente da formação do gosto e do caráter.

Nesse ponto, já deve estar claro qual é o seu papel nessa história.

Imagens da natureza

Em primeiro lugar, mostre a natureza ao seu filho, pois não existe melhor manancial de imagens belas e edificantes. As imagens da natureza nos fazem lembrar o tempo todo o privilégio de ter tido a chance de nascer e de estar nesse mundo.

O fato da maioria das crianças urbanas viverem em apartamentos é certamente um fator limitante do desenvolvimento da capacidade contemplativa. Aliás, o simples fato de morar em uma grande cidade pode significar a impossibilidade de sequer observar um céu estrelado. Mais sortudas, nesse sentido, são as crianças que acordam olhando para uma paisagem admirável. Mas essa limitação das crianças urbanas é passível de ser relativamente contornada por uma atitude propositiva dos pais.

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Dê a seu filho oportunidade de observar vastos horizontes e contemplar belezas naturais impactantes: ver o pôr-do-sol, a Lua despontando no céu, a massa compacta e imponente de montanhas que compõem uma serra, as ondas do mar quebrando na areia. Ao levá-lo para passear, mostre a ele os detalhes da paisagem e deixe que se divirta coletando pequenas coisas como folhas e pedras de tipos e formatos variados. Estimule-o a experimentar o ambiente usando todos os sentidos possíveis. Passar a mão no casco de uma tartaruga, ouvir o canto dos pássaros, provar uma fruta no pé, essas pequenas experiências contribuem muito para a construção de um conhecimento do mundo mais profundo e pessoal.

As crianças possuem uma capacidade natural de se maravilhar com qualquer coisa, por mais simples e diminuta que seja. Quando têm a chance de um contato íntimo com a natureza, elas aprendem a identificar e apreciar coisas belas, ao mesmo tempo em que aumentam a sua coleção de experiências encantadoras.

Imagens da cultura

Mas as imagens maravilhosas não estão só na natureza. Elas também habitam o mundo da cultura, esse patrimônio construído por gerações e gerações de homens e mulheres inspirados e talentosos que viveram (e vivem) nos quatro cantos da Terra. Para a formação da criança enquanto pessoa imaginativa e autoconsciente, é fundamental que a experiência humana de outras épocas e lugares possa reverberar em sua imaginação. Educar uma criança consiste precisamente em levá-la além dos limites de seu espaço/tempo imediato, ao qual ela já estará naturalmente integrada. E isso só se torna possível graças às imagens contidas nas obras artísticas e literárias.

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O acesso à arte e à literatura de qualidade amplia os horizontes existenciais da criança, pois a coloca em contato com uma vasta gama de situações de vida e modelos de comportamento nos quais ela pode se espelhar e se projetar rumo ao futuro. Ao mesmo tempo, favorece o desenvolvimento de uma sensibilidade mais fina para tudo o que diz respeito às relações humanas. Por isso, apresentar ao seu filho a boa literatura, principalmente as obras clássicas, é o caminho mais seguro e consistente para uma educação que vise à autoconsciência e à liberdade.

Visitar os museus da cidade, assistir boas peças de teatro infantil e ouvir música de qualidade também são atividades que contribuem significativamente para o cultivo do imaginário. Pense nisso ao planejar os passeios de sua família. Todo mundo vai sair ganhando.

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Se você se interessou pelo tema da formação do imaginário e quer aprofundar os seus conhecimentos, acompanhe o trabalho do Prof. Francisco Escorsim, que se dedica à educação da imaginação de jovens e adultos. Acesse a sua página de trabalho no Facebook  e informe-se sobre a programação de palestras e cursos.

O trabalho do Prof. Escorsim tem sido uma fonte de inspiração importante para minhas reflexões sobre a imaginação infantil.

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Imagem:

Edmund Blair Leighton, The Accolade, 1901.

Educação começa em casa

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A educação que recebemos em casa, durante os anos da infância, determina, em ampla medida, o modo como nos comportamos e nos relacionamos com as pessoas à nossa volta. A tragédia educacional que vivemos hoje origina-se, portanto, dentro de nossos lares.

Aos seis ou sete anos de idade, uma criança já deve ser capaz de se comportar de maneira adequada nas situações do dia a dia. Porém, o que observamos por aí é o contrário. Crianças que atropelam os adultos na porta do elevador, que não respeitam os mais velhos, que se comportam nos lugares públicos como se o espaço e o tempo lhes pertencessem. Hoje em dia, a maior parte das crianças cresce sem norte, reféns de seus próprios desejos, com uma visão de mundo estreita e auto referenciada. Em qualquer situação que demande a capacidade de se colocar no lugar dos outros, frear impulsos ou seguir regras, logo constatamos que aquelas que de fato receberam orientação em casa compõem uma esmagada minoria.

Vou exemplificar com uma cena que observei, tempos atrás, em uma casa de festas infantis. Tudo transcorria como de costume: muita balbúrdia, música alta, luzes piscando, a voz estridente do animador e o ruído constante dos jogos eletrônicos espalhados no salão. O cenário, obviamente, concorria para aumentar a agitação já natural das crianças. A certa altura, um grupo de meia dúzia de meninos de cerca de sete ou oito anos começou a subir nas mesas de jogos, a pular e a gritar, sob o olhar atônito e desesperado dos funcionários do estabelecimento. A bagunça só acabou quando as próprias crianças chegaram à exaustão.

Você deve estar se perguntando: mas, e os pais dessas crianças, não estavam lá? Sim, eles conversavam nas mesas a alguns metros de distância. E ali permaneceram, visivelmente constrangidos, é verdade, mas limitando-se a balançar a cabeça, de longe, em sinal de reprovação. Nenhum deles se levantou, nenhum deles se dirigiu ao filho para lembrá-lo da necessidade de se comportar como gente. Foi uma cena chocante: total falta de limites das crianças e total falta de limites dos pais.

Toda criança precisa de orientação. A palavra “orientação”, quando aplicada à educação, remete à ideia de presença, de vigilância, de zelo, enfim, de um envolvimento criativo e reflexivo do adulto no processo de formação da pessoa de seu filho. Pois, para se orientar uma criança da maneira adequada, é preciso estar genuinamente disponível, prestar atenção, ocupar-se dela como quem se ocupa de uma vida. E é preciso, sobretudo, conhecê-la, porque cada criança é um indivíduo único no mundo e as estratégias que funcionam com uma não servem necessariamente para outra. Em suma, para que os pais consigam exercer o seu papel de orientadores, eles devem ser capazes de um certo malabarismo: identificar-se com a criança mantendo, não obstante, a sua postura de adultos.

Mas a disponibilidade de tempo e a capacidade de dedicação, por si sós, não são suficientes para garantir uma boa orientação. Atualmente, muitos pais atentos e dedicados mostram-se igualmente perdidos, não sabem o sentido da educação que querem dar para seus filhos, e são incapazes de dizer o mais simplório “não”. Isso ocorre, em parte, porque eles estão confusos em relação à legitimidade de sua própria autoridade. São reféns de uma visão deturpada a respeito do que significa educar.

Esse problema tem uma história. O aprofundamento dos saberes relativos à infância no século XX alterou – podemos dizer mesmo que revolucionou – a nossa percepção e a nossa sensibilidade em relação à criança e nos fez desejar uma educação menos autoritária e inflexível do que a de antigamente. Hoje sabemos que a criança não é um mini adulto que precisa apenas ser adestrado. O psiquismo infantil tem sua especificidade e o desenvolvimento em direção à maturidade plena e sadia depende daquilo que Winnicott chamou de “ambiente facilitador”. Sabemos também que a autoridade dos pais deve estar ancorada na razão e na coerência. Não queremos mais ser rígidos com nossos filhos, queremos respeitar sua individualidade e construir com eles uma relação de confiança mútua.

Porém, como toda revolução conceitual tende a radicalizar um novo ponto de vista, as ideias modernas sobre a infância disseminaram uma visão negativa e distorcida da autoridade e da regra, uma visão que não distingue entre autoridade e autoritarismo, e que entende a regra como imposição de uma violência à individualidade da criança. Informados por essa visão equivocada, os pais acreditam que, sendo firmes, estarão sendo autoritários. Desse modo, educar passou a ser uma atividade praticamente impossível. E o resultado é que a maioria dos pais permite que a criança tome decisões que não lhe cabem e se entregue a comportamentos que a deixarão cada vez mais insegura, descontrolada e sem rumo. Ora, é perfeitamente possível – e necessário – combinar autoridade e afeto. O mais inegociável dos “nãos” pode ser dito com o mais genuíno respeito pela pessoa da criança.

A criança nasce com o potencial de se tornar um adulto plenamente sociável, mas esse potencial não se realiza se ela não puder contar com o auxílio dos adultos. Desde cedo, ela percebe a fragilidade de sua situação. Sabe o quanto depende do adulto para viver, o quanto precisa de sua mão generosa e experiente para se movimentar num mundo organizado a partir de regras cuja lógica ela desconhece. Por tudo isso, a criança sem orientação é a que mais sofre. Ela se sente sozinha, desamparada, desprovida de recursos para lidar com as pequenas adversidades e frustrações do dia-a-dia. Não encontra nos pais a autoridade protetora de que tanto precisa. Ela navega sem bússola e sem farol.

Orientar a criança é responsabilidade inescapável dos pais. Eles devem não só ajudá-la a ampliar o seu conhecimento do mundo, mas também destrinchar para ela os primeiros códigos da vida e ensiná-la a se comportar adequadamente. Isso é como estreitá-la nos braços e dizer: “Estou aqui para te ensinar o que você precisa saber até que seja capaz de entender o mundo e seguir sozinho. Não se preocupe, enquanto for necessário, eu vou te dizer o que é o certo e o que é o errado. Eu vou te guiar.”

A orientação coerente e equilibrada permite que a criança vá aos poucos compreendendo, sem que seja necessário explicar demais, que por detrás das regras há sempre um motivo e que por trás das atitudes dos pais há sempre uma lógica. À medida em que ela introjeta a pertinência das regras, torna-se mais segura, mais consciente de si mesma e de seus próprios atos. Aos poucos, vai conquistando o autocontrole.

A criança desorientada corre o risco de tornar-se um adulto infantilizado, frágil, incapaz de lidar com a frustração. Uma boa orientação, por outro lado, produz adultos fortes, conscientes de seus deveres, seguros de seus valores e capazes de enfrentar as dificuldades da vida com firmeza e altivez.