A guerra cultural aos meninos

Neste artigo, o quarto e último da série sobre a ideologia de gênero, vou falar sobre os meninos. Mais precisamente, sobre o modo como as suas disposições naturais vêm sendo depreciadas pela cultura feminista que domina a cena educacional contemporânea. No artigo anterior, mostrei que as meninas são educadas para a auto vitimização e a desfeminilização, e crescem com a falsa percepção de que os homens são inimigos potenciais. Os meninos, por sua vez, são levados a acreditar que aquilo que neles é mais espontâneo e específico, ou seja, a sua masculinidade, é nociva ao mundo e, principalmente, às mulheres.

As mensagens feministas dirigidas aos meninos devem ser entendidas como parte de um projeto político e ideológico mais amplo, cujos fundamentos, objetivos e métodos já foram dissecados por autoras como Christina Hoff Sommers, no livro “The War Against Boys” (2000) e Suzanne Venker, em “War on Men” (2013). Embora descrevendo o fenômeno a partir dos dados relativos à sociedade americana, essas análises descortinaram as bases do programa de ataque à masculinidade que está em curso em praticamente todos os países ocidentais. Vou me concentrar aqui no modo como esse programa é posto em prática na educação das crianças, começando por esclarecer quais são as disposições infantis que estou chamando de “masculinas” e que o projeto feminista tanto se esforça por neutralizar.

Sabemos que, durante a vida intra-uterina, o cérebro dos meninos é banhado por uma quantidade muito maior de testosterona do que o das meninas, e que isso determina, em ampla medida, a forma masculina de estar no mundo. Não é difícil perceber, por exemplo, que, em média, os meninos desenvolvem a coordenação ampla antes das meninas, ao passo que estas se antecipam no desenvolvimento da linguagem e da coordenação fina. E que, desde a mais tenra idade, a maioria dos meninos manifestam mais interesse imediato por objetos do que por pessoas, preferem brinquedos que possuem barulho e movimento, e mostram-se ávidos por brincadeiras que envolvam exploração, confronto corporal e dispêndio explosivo de energia.

A maior propensão dos meninos a recorrer à violência física para resolver conflitos também faz parte desse pacote. Quem os educa tem, portanto, diante de si, a importante tarefa de ajudá-los a mitigar e canalizar o seu potencial agressivo para formas de ação civilizadas e socialmente produtivas. Esse esforço de culturalização das disposições naturais masculinas é absolutamente necessário e jamais houve sociedade que deixasse de realizá-lo. Mas o que vem acontecendo no Ocidente contemporâneo é algo sem precedentes. Temos reprimido, em nossos meninos, todo tipo de comportamento que manifeste vigor combativo e espírito abertamente competitivo, sufocando assim traços essenciais de sua masculinidade. Em suma, os meninos estão sendo impedidos de ser meninos plenamente. E, quando resistem, seu modo de ser é problematizado, estigmatizado. Em muitos casos, chega a ser tratado como algo patológico.

É verdade que não se pode culpar a “ideologia de gênero” por absolutamente tudo. Alguns fatores sociológicos também contribuem para esse cerco à masculinidade. Um deles é a intensificação do padrão de vida urbano. A residência em apartamentos, a impossibilidade de brincar na rua ou em quintais, em contato íntimo com a natureza, assim como o fato das crianças precisarem estar sob a vigilância constante de um adulto, tudo isso restringe as suas possibilidades de experimentar situações não premeditadas de aventura, competição e confronto. A oportunidade de se movimentar amplamente ficou restrita à prática de esportes em clubes e academias, ou seja, a eventos de curta duração, rotinizadas e supervisionadas diretamente por professores e instrutores, ou seja, sem uma liberdade real. Em muitos casos, porém, nem isso é concedido aos meninos. Uma boa parte das crianças vive a triste realidade do sedentarismo absoluto. Durante o tempo em que não estão na escola, ficam paralisadas diante das telas dos aparelhos eletrônicos, assistindo por horas a fio as aventuras de personagens virtuais que lutam, correm e se arriscam. Tudo o que lhes resta é o exercício vicário da masculinidade.

Outro fator importante que concorre para esse processo é a dinâmica própria da escola. Por seu caráter universalista e homogeneizante, a escola moderna não pode permitir a expressão plena das individualidades dos alunos, e precisa mantê-los quietos pelo maior período de tempo possível. Além disso, com o fenômeno da judicialização crescente das relações sociais, as escolas têm se tornado alvo potencial de processos por parte dos pais, o que leva os gestores a tentar reduzir o risco de acidentes a zero, aprofundando o controle sobre a corporalidade exuberante dos meninos. Eles não podem brincar de luta, envolver-se em competições espontâneas e, em muitos casos, não são nem mesmo autorizados a correr no recreio. Devem ficar sentados por horas a fio, mimetizando a duras penas o comportamento das meninas, que, embora mais conversadeiras, são, em geral, mais maduras e capazes de se manter quietas e concentradas quando necessário. Por serem mais empáticas, elas também têm mais facilidade para desenvolver relações de cumplicidade com os professores.

Além de não possuírem meios para dar expressão às suas necessidades de movimento, ação e competição, os meninos ainda recebem poucos estímulos imaginativos na escola. Os professores são, em sua maioria, mulheres, e os currículos escolares têm se distanciado cada vez mais da sensibilidade masculina típica. Pensemos, por exemplo, na nova onda de desenvolver nos alunos “competências socioemocionais”. Não é preciso ser PHD em desenvolvimento infantil para saber que esse tipo de conteúdo será, já de saída, muito mais atraente para as meninas, as quais têm mais facilidade e desenvoltura para falar de seus próprios sentimentos, e gostam de fazê-lo. Não obstante, a matéria é introduzida como se atendesse a uma necessidade geral e irrestrita, e sem nenhuma consideração relativa às diferenças entre os sexos. É claro que isso não ocorre por desconhecimento ou descaso. O objetivo é exatamente o de transformar a sensibilidade dos meninos, da mesma forma como acontece com a seleção da literatura a ser trabalhada em sala de aula. Onde estão as histórias de batalhas, aventuras e heroísmo que tanto encantam a imaginação masculina? Foram substituídas por narrativas politicamente corretas e eivadas de ideologia de gênero.

Em condições normais, esses dois fatores de cerco à masculinidade – a vida urbana e a dinâmica escolar  – poderiam ser relativamente contornados pela adoção de estratégias de compensação e adaptação por parte da família e da própria escola. Porém, as chances de se encontrar caminhos alternativos que beneficiem os meninos têm sido limitadas pela interferência de um terceiro fator, que é dentre todos o mais perverso, justamente por impedir o ajuste dos outros dois. Refiro-me à influência nefasta do discurso feminista que apresenta o modo de ser masculino como potencialmente “tóxico”, como algo de que os homens precisam se livrar, para o bem das mulheres e para o seu próprio bem. Nesse ponto, já não estamos mais falando de um constrangimento à masculinidade criado por circunstâncias históricas e sociológicas, e sim de um juízo de valor ideológico e politicamente interessado.

O discurso da “masculinidade tóxica” já se embrenhou em todos os níveis da atividade educacional, impregnando a visão de mundo de boa parte das famílias e de quase todos os gestores e agentes escolares. Em seu nome, os meninos têm sido submetidos a um processo de desvirilização de amplas consequências individuais e sociais. Um exemplo é a redução significativa de suas chances de sucesso escolar. Ao exercer tamanha pressão sobre a masculinidade, a educação atual coloca os meninos em notória desvantagem acadêmica em relação às meninas. Eles são os campeões nos índices de suspensão, expulsão e reprovação. Entre a população menos favorecida economicamente, essa situação tem resultados cruéis. Diminui as chances de mobilidade social e, em casos de maior vulnerabilidade, pode levar à marginalização e à exclusão social.

Do ponto de vista individual, abafar a expressão da sensibilidade natural dos meninos e impedir que ela se desenvolva em formas socialmente legítimas e valorizadas, significa despersonalizá-los e restringir as suas perspectivas de vida. Do ponto de vista coletivo, significa deixar de prepará-los para assumir as suas responsabilidades futuras como cidadãos e pais de família. Em muitas ocasiões cruciais, e para certas atividades específicas permanentes, uma comunidade precisa contar com a energia viril, do mesmo modo como uma família precisa contar com um homem que seja capaz de assumir riscos e obrigações pesadas para provê-la e protegê-la. É nas situações de calamidade, nos eventos de emergência, e no enfrentamento das ameaças externas, que nos damos conta do quanto a força física, a intrepidez e a objetividade masculinas são predicados imprescindíveis e admiráveis. Como escreveu C. Hoff Sommers, no livro já citado: “A história nos ensina que a masculinidade sem moralidade pode ser letal. Mas quando a masculinidade é imbuída de moralidade, ela se torna poderosa e construtiva, e uma dádiva para as mulheres (grifo meu).”

Mas os promotores da “ideologia de gênero” não estão preocupados com nada disso. O que nós percebemos como um problema sério, para eles é o corolário de um projeto que foi laboriosamente posto em prática ao longo de cinco décadas e cujos efeitos começam a se tornar mais visíveis agora. O cenário que temos hoje diante de nossos olhos – meninos pressionados em sua masculinidade, meninas confusas em relação à sua feminilidade – vem sendo idealizado, planejado e executado desde o início da segunda onda feminista nos anos 60, quando as universidades, as escolas e os meios de comunicação começaram a ser ocupados por agentes dedicados à pauta da desconstrução.

Em suma, o projeto de desvirilização dos meninos é a outra face do projeto de desfeminilização das meninas. As meninas são convencidas de que a sua feminilidade as transforma em vítimas dos homens. Ressentidas, elas se desfeminilizam para competir com eles. Os meninos são convencidos de que a sua masculinidade os torna algozes das mulheres. Culpados pela dor que alegadamente lhes causariam, eles se desvirilizam para tentar agradá-las. E, desse modo, chega-se mais perto da desestruturação da família heterossexual monogâmica, por meio do ataque a um de seus principais fundamentos, a complementariedade entre os sexos.

 

       *           *          *

 

Imagem:

Andre Henri Darguelas, “Playing Marbles”, c. 1860.

 

 

10 comentários sobre “A guerra cultural aos meninos

  1. Olá, Marcelo. Obrigada por seu comentário. Eu acredito que uma relação de confiança, construída com base na atenção e no cuidado, seja a principal arma de que dispomos para a defesa de nossos filhos. Os nossos exemplos também. Não devemos temer a ideologia de gênero. Mas precisamos ter coragem para dizer sempre a verdade, transmitir nossos valores sem concessões, e acreditar que os nossos modelos de pai/mãe, homem/mulher serão uma riqueza para os nossos filhos.

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  2. Excelente texto, Cristiane. Realmente é algo insólito e perverso. E o mais preocupante é que hoje me parece quase impossível evitar que nossos filhos sejam influenciados por essa gente. Como você bem colocou, o máximo que podemos tentar é utilizar mecanismos de compensação ou contraposição na esperança de que a relação de confiança paterno-filial faça prevalecer os nossos valores. Pondero se existe uma forma mais adequada de preparar os pequenos. Como adverti-los de que serão bombardeados na escola por gente que, entre outras perversidades educacionais, tentará desconstruir seu gênero biológico. Por exemplo, sou pai de menina. Sempre tive certo, conhecendo bem a esquerda e o feminismo, que terei que zelar pela feminilidade dela. Estimular tudo que seja feminino no seu crescimento. Mas como um dia ela terá que frequentar uma instituição de ensino – por melhor que seja o eventual filtro que eu farei – é muito provável que ela será atingida por esse tipo de pedagogia. Será que basta dizer “filha, na escola, você encontrará pessoas que dirão que é feio uma menina brincar de boneca ou de princesa – não acredite nelas”? No mais, obrigado pelo texto, devidamente favoritado!

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  3. Queria tanto deparar-me com mais reflexões dessa natureza, sobre inclinações espontâneas e socializações das nossas crianças, preocupações conscientes que abranjam meninas e meninos. Com efeito, os meninos assumem maiores estatísticas de evasão escolar e suicídio e são vistos como um símio sujo, hospedeiro do cromossomo “maldito”, demonizados em seus comportamentos. Seu material é ousado e, infelizmente, ainda não tem força plural nem institucional – talvez até seja passível de julgamentos sociais aos berros de SJWs e políticas públicas “construtivistas”; de mim, suscitou simpatia, alívio e esperança. Continue.

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  4. Oi, Letícia. Obrigada por comentar! Só quero fazer uma ponderação: o chamado “feminismo de gênero”, que coloca homens e mulheres em campos antagônicos, questiona papéis complementares, e denigre a maternidade e a mulher que decide ser dona de casa, não é o mesmo feminismo que conquistou a igualdade de direitos para as mulheres no início do século XX. Suzanne Venker e Christina Hoff Sommers já demonstraram de maneira absolutamente clara a diferença entre o feminismo da primeira onda, que foi bem sucedido em sua luta pela ampliação dos direitos e das perspectivas sociais das mulheres, sem negar a importância de seu papel na família, e os feminismo da segunda e terceira ondas, que possuem caráter revolucionário e visam, a longo prazo, destruir os fundamentos da civilização ocidental e formar subjetividades sexuais confusas. Esse “feminismo de gênero”, que é o feminismo do qual eu falava no artigo, não se importa de fato com a liberdade das mulheres. Um exemplo disso é o fato das líderes feministas atuais se calarem de maneira tão veemente diante da questão islâmica. Se vc tiver oportunidade, leia “The Flip Side of Feminism”, de Suzanne Venker, e também “Freedom Feminism” e “Who Stole Feminism?” , de Christina Hoff Sommers. Tenho certeza que você vai gostar. Se puder, me dê um retorno depois da leitura. Abraço.

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  5. Prezada Cristiane, obrigada pelas reflexões. Sem dúvida o gênero tem seu componente biológico nítido (quem tem filhos, menino e menina, observa isso claramente) e negar essa diferença entre gêneros é negar um fato.
    O assunto é pra lá de complexo. Parece que para se opor aos excessos de um lado, incorre-se em excessos do outro. Vejo o feminismo como um humanismo. Não há muito tempo atras mulheres não podiam votar, não tinham acesso a educação. Em alguns países elas continuam nesse pobre status social. Opor-se a isso, ao uso da diferença de genero que favorece os homens (a força, o caráter exploratório de suas personalidades) para submeter as mulheres a menos direitos sociais é algo que considero correto mas para isso não há a necessidade de sufocar a masculinidade (isso de sufocar a masculinidade é um excesso de uma minoria). No geral, todo movimento de oposição a um fenômeno já estabelecido (status quo) conta com uma certa dose de excesso retórico, como que expressando uma força de ruptura.

    Esse excesso precisa ser modulado mas o feminismo em si (esse humanismo) é fundamental.

    Atenciosamente,
    Letícia

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  6. Cris,

    Corajosa e relevante reflexão. Ainda mais partindo de uma competente antropóloga como você. Fiquei pensando que os avanços da neurociência podem fortalecer ainda mais o argumento das disposições naturais dos gêneros.
    Seria bom se está série de artigos pudessemm ter uma ciculacao mais ampla. Parabéns

    Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro

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